Crônicas de um Astrobiólogo – Parte III
Eu estava em ótima companhia, pelo menos. Aquele pessoal era fruto da marginalidade da Terra, e haviam conseguido a muito custo o emprego de cuidarem da aeronave-cargueiro. Estavam preparados pra qualquer imprevisto, principalmente se envolvesse violência, o que meu coração de biólogo estava prevendo. Cair num planeta-depósito por causas desconhecidas não era boa coisa, ainda mais com um amontoado de lixo tóxico e metabólitos de química estranha misturados lá fora. Eu sentia que corríamos um perigo tremendo.
Não fiquei surpreso quando o pessoal puxou algumas armas automáticas gigantescas dos armários metálicos acoplados às paredes, enquanto ajeitavam na cintura o que me pareceu pequenas bombas de impacto. Alguém jogou uma arma pra cima de mim e eu quase caí pra trás com o peso da maldita. Mas sabia como atirar, apesar de ter uma mira péssima.
Saímos cautelosos do cargueiro, pisando com cuidado. E logo fomos arrebatados pela atmosfera rarefeita em oxigênio. Rapidamente voltamos para dentro da nave e vestimos os trajes de respiração. O tanque de O2 pesando nas minhas costas e me lembrando dos meus 35 anos de idade e músculos cansados. Ora, mas eu poderia agüentar mais uma empreitada daquelas não? Logo estaria mergulhando nas águas gélidas de Europa II e me deparando com criaturas marinhas exóticas e fascinantes. Talvez tenhamos que descer até níveis abissais para achar algo, mas não aceitaria sair daquela lua sem uma prova de que a vida se desenvolvera ali.
Um dos homens, um moreno corpulento de feições carrancudas, estava carregando um tipo de maleta de plástico reforçado, enquanto andava em direção à turbina danificada. Os outros continuaram onde estavam, com as armas empunhadas e os olhos atentos. Eu não sabia o que eles tanto olhavam, porque eu só enxergava montanhas de lixo no horizonte, e o reflexo fraco da luz solar no solo avermelhado. Por alguns instantes, aquele tom rubro me lembrou de Marte, e das minhas férias de infância, que passei com meu tio, falecido dez anos atrás por uma enfermidade. Uma variação grotesca do Ebola terrestre, que por meios duvidosos, alcançou Kronos-7, sofreu uma mutação, e causou uma epidemia terrível. Ainda éramos frágeis seres humanos, como ele bem me disse uma vez. Tão suscetíveis a coisas aparentemente tão insignificantes.
Meu devaneio foi interrompido por um grito desesperado. Todos correram para a direção da turbina traseira, de onde o som partira. E o que encontramos fez meu estômago revirar-se inteiro. O corpulento com expressão de poucos amigos estava estendido no chão, ofegante, e urrando de dor. Suas vísceras estavam expostas, enquanto alguma coisa não-identificada parecia comê-lo vivo, devorando seus intestinos. A mistura de sangue e dejetos nos causou uma repulsa violenta, e nos paralisou por alguns segundos, antes que uma das mulheres disparasse contra a coisa estranha e depois desse um tiro na cabeça do cara, para poupá-lo do sofrimento.
O que quer que tenha atacado ele, agora estava reduzido a frangalhos. Abaixei-me corajosamente, prendendo a respiração, e tentei observar a coisa mais de perto. Parecia um pequeno animal vertebrado, com o corpo que mais parecia uma quimera diferente, uma mistura de aranha, lagarto e morcego. Algo incomum e bizarro. Sua boca abria-se embaixo de um focinho ensangüentado, e apresentava uma fileira de pequeninos dentes recurvados e serrilhados. Suas quatro patas esparramavam-se para os lados, numa postura não-ereta, e possuíam uma membrana translúcida que os ligava de cada lado do corpo. Um misto de penugem e escamas recobria seu corpo aparentemente frágil. Seus ossos deveriam ser finos e sua musculatura, não muito flexível. Seus olhos eram minúsculos pontinhos pretos, uma desproporcionalidade incrível com o focinho e suas narinas grandes e largas. Aquilo me levou a concluir que o animal era praticamente cego e se movimentava e caçava através do cheiro. Mas por que diabos atacara o homem deitado a meu lado justamente no abdômen e avançara por tecido epitelial e muscular até os intestinos?
E, antes de tudo, aquele planeta não era desprovido de vida? O que aquela criatura estava fazendo ali? Era óbvio que podia planar, devido às membranas amplas entre os membros, e foi assim que acidentalmente deve ter atingido a turbina do cargueiro, mas como vida complexa a esse nível se desenvolveu ali? Um planeta que até 10 anos atrás era completamente inóspito! Percebi, então, que tinha um trabalho de pesquisa astrobiológica muito séria em minhas mãos, e havia sido literalmente derrubado pra cima dele.
Continua…
Crônicas de um Astrobiólogo – Parte II
Era desconfortável e cheirava mal, mas pelo menos eu economizava uma boa grana. O menino sonhador que conhecera Marte durante a infância e se encantara com as pesquisas em desenvolvimento nos centros científicos perdeu uma boa parte desse brilho e agora é um cientista mais ou menos independente que prefere embarcar numa aeronave-cargueiro pagando pouco do que num ônibus espacial com seus bilhetes caríssimos. Eu sabia que aquilo era ilegal, mas e daí? O pessoal era simpático e só tinha eu de passageiro clandestino.
O cargueiro tinha uma rota que me era favorável. Após despejar a carga no PD-023, um dos planetas-depósito do lado leste da galáxia, seguiria para a base temporária em Kronos-7, um planeta de clima aconchegante e um maravilhoso céu com 7 luas rochosas que refletiam o brilho do Hades, o sol central daquele sistema. Meu interesse era uma dessas luas, a Europa II, como ficara conhecida. A lua possuía um tamanho considerável, era metade de uma Terra, e possuía uma estrutura muito semelhante com a lua que lhe deu o nome, Europa, de Júpiter. Uma grossa camada de gelo recobrindo toda sua superfície, um oceano gigantesco escondido embaixo e um núcleo quente que, acreditava eu, permitiria o surgimento de algumas formas muito interessantes de vida marinha extraterrena. Talvez até mesmo vida complexa e animais vertebrados, o que seria uma descoberta incrível para um astrobiólogo que nem eu.
A viagem seria até mesmo agradável se não fosse pelo cheiro forte que as comportas fortemente lacradas exalavam. O cargueiro era propriedade de uma famosa empresa de limpeza. O trabalho que aqueles homens realizavam era muito simples. Desciam sobre os lixões na Terra, enchiam o cargueiro com o máximo de sujeira, destroços e dejetos que conseguiam, e então levavam tudo isso para um dos planetas-depósito, que eram pequenos corpos normalmente desérticos e desprovido de vida. Isso já durava 10 anos, e parecia mesmo o único jeito de tentar amenizar os problemas que o acúmulo de lixo na Terra estava causando.
Alguns eco-terroristas ficaram furiosos, e realizaram ataques a sedes da empresa, e uma vez até mesmo atiraram contra uma das aeronaves-cargueiro enquanto ela levantava vôo. Mas esses grupos rebeldes logo eram silenciados. Eu, como astrobiólogo, também estava revoltado com o desrespeito tremendo à natureza. Ferraram com um planeta e agora queriam ferrar com outros. Quantas oportunidades de surgimento e evolução de vida não seriam perdidos nessas ações. Mas eu sou apenas um cientista mal-pago, o que posso fazer? Tenho sorte de ter recebido um patrocínio gordo para explorar sozinho a Europa II. Sabia que havia interesses obscuros atrás disso, mas não perderia a chance de ser o primeiro pesquisador a desbravar aqueles mares. Uma equipe de perfuração, engenheiros navais e mergulhadores estaria me esperando numa base superficial por lá. Bastava eu chegar logo, e poderia esperar por uma volta no cargueiro.
Um pouco de turbulência me fez lembrar dos antigos aviões terrenos. Grande idéia serem substituídos por trens submarinos de alta velocidade. Devo confessar que admirava os engenheiros responsáveis pelo projeto. Era uma mega construção que custou bilhões e tirou a vida de alguns desafortunados. É o que se pode esperar quando se tenta furar o mar por quilômetros intermináveis com túneis entrecruzados de diâmetro colossal e estrutura incrivelmente resistente, que abrigariam veículos que mais pareciam balas saídas do cano fumegante de alguma arma automática. Exigências da globalização. Tudo estava cada vez mais veloz. Não vejo a hora de quererem fazer algo parecido para conectar permanentemente planetas, sistemas solares, e até mesmo galáxias distantes. Talvez se descobrissem como domesticar buracos de minhoca ou controlar o tecido do espaço-tempo. Mas aí já seria muita doideira. Coisa de física teórica, que eu não entendo muito bem.
O cargueiro desceu agitado enquanto entrava na atmosfera de PD-023. Olhei pela janela frontal da cabine de comando, e pude observar uma superfície escura, com alguns pontos avermelhados se sobressaindo. O pouco de solo que ainda restava era uma superfície irregular cheia de vales, montanhas, depressões e planícies tortuosas. Cogitei se não haveria derramamentos de lava por ali, ou jatos de vapor quente sendo expelidos do coração do planeta. Mas não sabia qual era a constituição do núcleo, então preferia deixar esses pensamentos para um geólogo.
Aproximava-nos lentamente do solo, o cargueiro descendo verticalmente, enquanto as turbinas diminuíam de intensidade e quatro pernas metálicas saíam de seus abrigos na barriga da nave, estendiam-se, abriam-se e preparavam-se para agarrar a terra. Porém, antes que pudéssemos sentir a aeronave acomodando-se, algo atingiu uma das turbinas traseiras, e uma explosão fez com que fôssemos jogados violentamente contra o chão e as paredes da cabine. O cargueiro inteiro tremeu quando despencou brusco contra o chão, quebrando as duas pernas direitas e tombando para o lado, escorregando nossos corpos para o canto inclinado. O que diabos era aquilo?
Os três homens que estavam no comando, mais as duas mulheres, levantaram-se assustados. Eu me agarrei às paredes, ainda com o coração acelerado. Um dos pilotos tentou fazer contato pelo rádio, mas só se ouvia um ruído de estática. O que quer que tenha atingido a turbina, parecia que havia se entranhado nave adentro e atingira os circuitos de comunicação. Estávamos com um enorme cargueiro quebrado em mãos, sem contato externo, e não tínhamos a mínima idéia do que encontraríamos lá fora…
Continua…
Crônicas de um Astrobiólogo – Parte I
— E se os terópodes tivessem resistido ao meteoro que caiu na Península de Yucatán? – o menino perguntou, curioso, enquanto olhava atento o céu estrelado. Seu corpo magro de criança estendido na grama verde-limão. Cabeça apoiada nas mãos.
— Então seriam eles os responsáveis pela terraformação de Marte, e não nós. – o homem de cabelos negros deitado a seu lado respondeu. – Mas seria incrivelmente improvável que eles resistissem ao impacto, ou ao vulcanismo tremendo que se iniciou depois. Ou até mesmo ao possível inverno nuclear, às alterações bruscas na atmosfera, no clima, na oferta de alimento…
— Então acho que deveria agradecer ao meteoro. Ele foi o responsável por estarmos aqui, certo, tio?
— Sim. Graças à extinção dos dinossauros não-voadores no fim do Cretáceo que os mamíferos se irradiaram. E evoluíram, até uma espécie em particular se desenvolver o suficiente para começar a manipular o ambiente ao seu redor, construir pequenas sociedades, criar e aumentar habilidades cognitivas, e chegar ao que somos hoje.
— Aventureiros do espaço! – o menino gritou, entusiasmado.
Eram as férias de Julho, e seu tio, um astrobiólogo na NASA, havia levado o garoto para passar o mês em Marte, que fora colonizado apenas dois anos antes, após um longo, complicado e caro processo de terraformação, onde a atmosfera foi modificada, assim como o solo, para que plantas terrenas pudessem crescer e transformar o deserto avermelhado em um local habitável para humanos.
Os dois agora descansavam na grama do jardim que beirava uma das bases habitacionais do conjunto de pesquisas científicas. Por enquanto, apenas engenheiros, astrônomos, físicos, paleontólogos, astrobiólogos, geólogos e outros cientistas habitavam o planeta. O menino era o primeiro civil a pisar em solo marciano, e estava imensamente feliz por isso.
— Mas será que os terópodes mudariam para alguma forma humana, tio?
— Répteis humanóides, você quer dizer? Isso é assunto de ficção científica, mas não sei ao certo. Não seria pretensão demais da nossa parte pensar que se alguma outra espécie diferente fosse a dominante na Terra, ela teria uma aparência similar à nossa? Estamos nos colocando num patamar muito alto, mas não estamos no topo de pirâmide nenhuma, aprenda isso desde já.
— Mas temos inteligência! E somos racionais, e podemos fazer coisas que nenhum outro animal pode!
— E somos incrivelmente primitivos em questão de instintos, e absurdamente frágeis fisiologicamente. Qualquer pedaço de material genético envelopado consegue destruir nosso organismo parasitando nossas células. Qualquer bactéria ou rickétsia consegue nos deixar de cama e impossibilitados de agir. Qualquer mudança no ar que respiramos, na comida que ingerimos ou até mesmo na aceleração gravitacional do local que pisamos mexe profundamente com nosso metabolismo. Somos seres tão fracos, menino…
— Mas mesmo assim alcançamos as estrelas!
— Com muito custo.
— Assim você destrói meu sonho de me tornar um cientista que nem você. – o garoto retrucou, rindo.
— Ninguém pode destruir o sonho de ninguém, oras. Se foi destruído, é porque não era tão especial assim.
— Tá vendo, tio? Por isso nossa espécie é a dominante. Somos primitivos em instinto, mas isso é uma vantagem em muita coisa. Somos irracionais movidos por nossas emoções. E foi isso que nos trouxe até as estrelas, não foi? Você me disse uma vez que um cientista tem uma visão artística do mundo que somente ele entende, pois acha a natureza incrivelmente bela em essência, e por isso tem a sede instigante de desvendá-la, estudá-la e preservá-la.
— Sim, eu disse… Mas quando você se torna um adulto, essa beleza toda fica ameaçada. Porque você é obrigado a lidar com questões que ferem seus ideais de criança. Você é obrigado a engolir tanta coisa amarga, que a garganta fica manchada pra sempre. Você acha que a terraformação e colonização desse planeta foi uma empreitada puramente científica? Ah, menino, não seja ingênuo… Há uma guerra iminente acontecendo na Terra, e isso aqui é um porto seguro pros que podem pagar. Eu e os outros cientistas temos nossos próprios sonhos, nossas paixões, mas só podemos realizá-las com a ajuda dessas pessoas que não estão dando a mínima para a beleza do Universo.
— Podemos vencê-los, tio! Eu serei um cientista independente! Um astrobiólogo aventureiro, e vou desbravar os quatro cantos da galáxia, conhecendo e pesquisando novas formas de vida, sem ter as amarras e os impedimentos desses homens maus!
O astrobiólogo olhou para o sobrinho, e ele estava com um brilho incomum nos olhos. Ele sentiu que havia cumprido seu trabalho, havia incutido no coração do menino tudo aquilo que um dia seu próprio coração havia experimentado. E ele esperava que o garoto conseguisse realizar tudo aquilo que pretendia, e pudesse continuar o caminho que ele começou e não foi capaz de concluir. Levá-lo para conhecer as instalações de Marte e os processos em andamento ali era apenas o começo.
— Olha, tio, um corpo incandescente passou rasgando o céu!
— Na Terra costumavam chamar isso de estrela cadente.
— Estrela? Por que estrela se não é um corpo gasoso em combustão?
— Licença poética… Faça um pedido.
— Mas eu não acredito em superstições, tio. Meus desejos não se realizarão simplesmente por que eu os exteriorizei numa fala direcionada a um pedaço de rocha à deriva no espaço.
— Você é mesmo um aspirante a cientista, não é? – ele comentou rindo.
— Sou um sonhador cético!
— Gostaria que nosso planeta natal tivesse mais sonhadores céticos no passado… Não estaríamos enfrentando tantos conflitos destrutivos atualmente…
— Será que se os terópodes tivessem resistido, eles teriam deuses?
— Não sei. Se Velociraptors tivessem sobrevivido e evoluído para alguma espécie racional, talvez venerassem algo, um deus réptil que os abençoasse pela caça, ou algo assim. Acho que a religião faz parte de toda sociedade primitiva. Precisamos passar por esse estágio de desconhecimento, medo e descobrimento. Ajuda a construir nosso intelecto. O problema é que ela deixou de ser necessária há muito tempo, mas as pessoas insistem em apoiar-se nela.
— Não são sonhadores céticos, tio.
— E por isso não conseguem apreciar a beleza do Universo sem acreditar que existe algo de místico por trás. Eu, particularmente, acho extremófilos muito mais fascinantes.
Os dois riram.
— Hei, rapazes! Voltem pra dentro, tá na hora do jantar! – uma mulher loira de cabelos compridos e jaleco branco estava na porta do prédio principal, de arquitetura arredondada. Não era alto, já que a maior parte de sua estrutura estava encravada no subsolo. A mulher era uma astrônoma, muito amiga do astrobiólogo.
O menino lembrou-se de casa, da mãe chamando-o, do clima familiar, do aconchego de estar na Terra, e sentiu uma pontada de saudades.
Continua…
Aprendendo a ser prático
Perguntam: Vou sair com fulano(a), e estou indeciso(a)… Que roupa eu uso?
Você responde: Algo fácil de tirar.
Depois de viverem felizes para sempre…
Ah, os contos de fada… Eles povoaram minha infância, assim como a de muitas outras pessoas. Mas quando somos criança, nos divertimos facilmente com qualquer narrativa fantástica, cheia de personagens cativantes, corajosos, apaixonantes e que, claro, tenham um merecido final feliz. Mas não nos preocupamos em perguntar ao orador: “E o que aconteceu depois que o príncipe casou com a princesa e viveram felizes para sempre?”. E se alguém se atreve a perguntar, ganha como resposta uma repetição do “Viveram felizes para sempre, oras!”.
Não sei se é influência da modernidade, mas eu não consigo mais acreditar nessa história de que após um casamento, vive-se feliz para sempre. Principalmente na Idade Média, que não devia ter muita coisa pra fazer.
Então, conversando com Ralf numa dessas madrugadas que eu tenho passado em claro, chegamos à conclusão de que seria interessante entrevistar esses personagens, e perguntar diretamente o que diabos eles ficaram fazendo enquanto viviam supostamente felizes para sempre. Não é fácil conseguir uma audiência com personalidades reais e famosas. A maioria é muito soberba, e recusa expor-se. Mas, para meu encanto, algumas das princesas concordaram em falar comigo e com Ralf, e responderam de bom grado as nossas perguntas (por vezes, deveras intrometidas). E então pude perceber que a vida num castelo não é assim tão monótona. Aliás, muito pelo contrário! E eu fiquei sabendo de cada babado fortíssimo!
Mas então vamos às entrevistas. Eu documentei essas conversas, claro, todas elas! É um material precioso, que devo guardar sob sete chaves (devidamente encantadas por algumas fadas com quem fiz amizade durante essa minha incursão mágica).
Bem, a primeira princesa com quem eu consegui manter contato, foi Aurora, mais conhecida como Bela Adormecida.
Encontramo-nos no salão do castelo. Um local amplo, belíssimo, ricamente ornamentado. Alguns poucos criados passavam apressados aos fundos. O príncipe estava fora, provavelmente em alguma caçada com seus amigos das redondezas. O rei e a rainha habitavam em outro castelo, um tanto quanto distante daquele. Ralf estava comigo, cumprindo seu papel de protetor fiel. Surpreendi-me com a irreverência da princesa logo de início, quando ela me ofereceu vinho no lugar de chá. E então começamos a prosear…
— Então essa história de viver feliz pra sempre é realmente tudo balela? – perguntei.
— Ah, e como! – ela respondeu após um longo suspiro. – Isso aqui costumava ser um porre, sabe? Eu casei, foi lindo, o príncipe era tudo que eu podia sonhar e blá, blá, blá. Afinal de contas, foi ele que me acordou após 100 anos dormindo. E isso requer muita coragem. Não por ter passado pelo bosque amaldiçoado pra chegar ao castelo, mas por ter conseguido me beijar mesmo após eu estar dormindo por 100 anos seguidos, sem um banho sequer! Vou te contar uma coisa, eu devia tá fedendo horrores! Ainda acho que ele tava gripado aquele dia, ou então foi atingido no nariz por algum tronco no meio do caminho. Mas ele me acordou, nós nos apaixonamos à primeira vista, e então casamos numa grande festa!
— E depois? Mudaram-se pra cá, certo?
— Ah sim. Nossos reinos fizeram uma aliança. E ambos eram imensamente ricos. Então escolhemos esse castelo afastado. Obviamente eu que escolhi tudo aqui, principalmente a mobília. Aquele cabeça dura não tem o mínimo senso estético, não poderia deixá-lo enfeitar isso aqui que nem uma taverna de bêbados! E no primeiro mês tudo correu perfeitamente bem! Inclusive a noite de núpcias, que foi uma loucura! Olha, sinceramente, eu não imaginava que ele fosse tão criativo assim na cama… Mas isso durou pouco tempo. Ele parece que morreu depois. Não sei o que aconteceu. E eu fazia de tudo, acredita? E atendia a todas as fantasias dele. Porque no começo ele tinha muitas, mas depois também parou de fantasiar. Parou com tudo! Preferia sair pra caçar antílopes! Ora, que dormisse com os antílopes, então! Expulsei-o mais de uma vez, e fiz com que dormisse ao relento por várias noites. Ele voltou me pedindo desculpas. E nós até que tentamos reacender o fogo, mas cadê que ele conseguia? Ah, é um fracassado. Eu tenho noção do quanto eu sou linda e gostosa, eu sou uma princesa, ora bolas! E uso esses vestidos gigantescos e calorentos com esses espartilhos apertadíssimos só pra ficar sexy pra ele, e nada disso adianta!
— Então você é a princesa azarenta, as outras devem ter capturados príncipes melhores na cama. – comentei rindo.
— Que nada, querida! Então você não sabe que a Branca-de-Neve também casou com um molenga? Esses príncipes são tudo fachada! Falam isso e aquilo, enfrentam perigos incríveis, nos salvam, e depois não conseguem sequer agüentar meia hora? Ah, faça-me um favor, né! E quer saber do que mais? Eu resolvi colocar um belo par de chifres polidos na cabeça daquele inútil! Ah, não. Eu tenho minhas necessidades básicas. Se ele não pode suprí-las, sinto muito, há quem possa!
Não me contive, e comecei a rir. Era hilário demais imaginar que aquela personagem puríssima que fez parte da minha infância tava corneando o famoso príncipe encantado dela. Estava curiosíssima pra saber quem andava comendo a princesa por trás dos panos…
— E quem seria esse amante? – perguntei meio temerosa. Talvez estivesse querendo saber demais, mas a curiosidade falava mais alto.
— Ah, querida, não é essE amante, é essA amante.
Quase caí da cadeira.
— É a Branca-de-Neve. Ela também cansou daquele palerma que é o marido dela. Os dois devem estar por aí fora, caçando antílopes, ou transando com eles. Que seja, não ligo mais. E nem ela. Nós nos divertimos até demais aqui, sozinhas, sem esses príncipes por perto! E quer sabe mais o que? Estamos planejando uma mega-festa com as outras princesas!
— É o tipo de festa que eu estou imaginando? – perguntei com toda a minha maldade e perversidade na cabeça.
— Ah, pode ter certeza! – ela respondeu, percebendo exatamente o que eu estava pensando.
A essa altura da conversa, Ralf estava parado ao meu lado, em pé, estático, sem mover um músculo, tremendamente sem graça. Eu tinha até me esquecido dele ali. Mas ele até que estava fofinho, com as bochechas vermelhas e os olhos propositadamente perdidos.
— E somente as princesas virão pra festa?
— Ah não, os príncipes podem aparecer também. Querida, nós já chegamos num nível que já perdemos totalmente a vergonha na cara. Se eles quiserem testemunhar o chifre deles crescendo, eles podem fazer isso de camarote! Estamos no meio do nada, num castelo de pedras, cercado por uma floresta imensa, sem boates por perto, sem barzinhos, sem cinema, sem shoppings, sem nada pra nos entreter! Francamente, o que você pensou que fazíamos por aqui pra vivermos felizes pra sempre??
— Posso aparecer nessa festa? Gostaria de falar com as outras princesas. Essas entrevistas fazem parte de um projeto que publicarei no meu blog.
— Ah claro, apareça sim! E esse seu amigo bonitão aí pode vir também!
Saí de lá, com Ralf, e ambos não conseguíamos conter o entusiasmo. Senti que havia muitos babados ainda pra descobrir, e que aquela festa seria o local perfeito!
Passamos das fronteiras do reino, rumo ao nosso próprio castelo, pra descansarmos e nos prepararmos. Grandes surpresas nos aguardavam…
Um outro conto de fadas (sem fadas)
Porque eu ainda não entendi muito bem essa denominação, já que grande parte das histórias que se encaixam nesse estilo não possuem personagens fadas. Mas vou manter o nome original, já que pelo menos remete à fantasia.
Mas deixando essas considerações de lado e entrando na história em si…
Era uma vez uma princesa. Jovem, linda, rica, e com pais desregulados e sádicos que por motivos obscuros resolveram trancá-la no alto de uma torre abandonada e longínqua, guardada por um gigantesco dragão vermelho dos infernos, apenas para que algum príncipe igualmente jovem, lindo e rico viesse salva-la, demonstrando toda sua coragem, perseverança e amor.
Obviamente a princesa achava aquilo tudo um saco. Não tinha televisão no quarto mais alto da torre, que por sinal parecia mais um calabouço suspenso do que um quarto em si. As paredes de pedra deixavam o ambiente insuportavelmente frio durante a noite, e a cama não era tão confortável quanto aparentava ser. Como a princesa sobrevivia sem poder sair dali era um mistério insolúvel, já que ninguém poderia se aproximar dela a não ser o tão esperado príncipe encantado. E pela demora, o desgraçado parecia estar vindo do Alasca, montado num texugo perneta e bêbado.
Mas ela esperava, xingando-o religiosamente todas as madrugadas dos nomes mais horríveis imagináveis. E não aparecia uma fadinha sequer pra ajudá-la naquele momento tão difícil. Já havia perdido até a noção de tempo, não sabia mais há quantas semanas estava trancafiada naquele pardieiro medieval. E o dragão lá fora também não era nada amistoso, ocupando-se em cuspir fogo pelas planícies próximas e afugentar os desavisados.
Tudo tendia ao tédio. Nem mesmo observar a fileira de formigas andando no parapeito era mais tão emocionante assim. Mas pelo menos havia um enorme espelho pendurado na parede. E a princesa ficava se admirando por horas a fio, alimentando seu ego narcisista. O que mais uma garota perfeita poderia fazer, além de amar a si mesma? E aquele vestido era mesmo uma obra-prima, não era? Ela amava espartilhos, apesar deles comprimirem seus pulmões. Era uma relação masoquista. Mulher tem dessas coisas…
E mais semanas passaram-se no mesmo tédio de sempre. Até que uma movimentação incomum lá fora, durante um fim de tarde, chamou a atenção da princesa. Ela colocou a cabeça pra fora da única janela (um buraco quadricular na parede de pedra), e observou o dragão tomando uma posição defensiva contra algo à sua frente. O sol se despedindo atrás das montanhas e o enorme corpo do animal escamoso impediam a visão da princesa, mas num vislumbre que durou segundos ela pôde enxergar alguém montado no lombo de um belo e imperial cavalo branco com arreios dourados. O brilho de uma lâmina dançando no ar refletiu nos últimos raios de sol. O céu banhava-se num tom avermelhado belíssimo, estendendo-se como tinta por entre as esparsas nuvens brancas.
A princesa acompanhou toda a luta, animadíssima. A altura exagerada da torre não permitia que ela percebesse quem era o herói destemido que a estava salvando do dragão, mas ela pôde perceber cabelos longos e uma armadura sem capacete. Ah, que pena que a torre não era um pouco mais baixa. Assim ela poderia observar o rosto de seu príncipe encantado. Mas agora, apenas esperava.
A batalha foi sangrenta, até que o dragão finalmente cambaleou e caiu de lado no descampado, manchando a grama com seu sangue negro. Como aquele único guerreiro conseguiu matar um dragão vermelho gigante e dotado de garras afiadas de meio metro com apenas uma espada era algo não explicável cientificamente. Mas contos de fada possuem esses milagres épicos.
Porém, antes que o guerreiro avançasse com seu bravo cavalo branco até a ponte que levava à entrada da torre, um outro cavalo despontou no horizonte. Aproximava-se rápido, num galope louco. Então um outro cavalo branco entrou em cena, dessa vez com um guerreiro visivelmente mais robusto e musculoso montado em seu lombo, portando uma armadura pesada e um capacete com um adorno de penas no topo. Agora eram dois príncipes encantados, sendo que um deles era obviamente mais rico, devido à pomposidade de sua armadura, sua arma e seu cavalo, que também apresentava adornos coloridos, em cores reais. Provavelmente, pertencia a algum reino muito poderoso. Já o outro não parecia assim tão rico. Na verdade, nem parecia ser de algum reino significativo.
A princesa observou, surpresa, enquanto os dois pareciam discutir. E viu quando ambos quase iniciaram uma briga, apontando suas espadas e fazendo seus cavalos tomarem a posição de combate. Ah, mas ela daria tudo para ouvir o que aqueles dois discutiam… Então o clima hostil pareceu desanuviar-se, e ela observou ambos atravessando a ponte.
Ai, meu Deus, finalmente! Tanto tempo esperando, e seu príncipe encantado finalmente viera salvá-la! Aliás, não apenas um, mas dois! Que garota de sorte, poderia escolher entre o melhor partido! O entusiasmo tomou conta dela, e a princesa ajeitou-se na frente do espelho, arrumando o cabelo, retocando a maquiagem e aumentando um pouco o decote. Uma garota que tem peitos tem o dever de usá-los, oras.
E então, assim que terminou de arrumar-se, ouviu a pesada porta de madeira rangendo, sendo golpeada, e então se espatifando em mil pedaços. Os dois nobres guerreiros deram um passo à frente, juntos.
Mas ei, tem algo errado aqui! A princesa quase caiu pra trás quando percebeu que um dos príncipes era, na verdade, uma princesa! Por isso, de longe, parecia ser um homem magro, ou menos musculoso. Era porque não era um homem, mas uma mulher! A armadura fina esculpia-lhe o corpo perfeitamente, e a ausência de um capacete mostrava suas belas feições delicadas, e seus longos cabelos negros descendo até sua cintura. O guerreiro enorme a seu lado tirou o capacete, revelando ser um príncipe igualmente maravilhoso. Cabelos dourados, olhos azuis e lábios irresistíveis. Isso sem falar no porte de guerreiro, e nos incríveis músculos que aquela armadura escondia. Nossa, que homem era esse! Mas aquela mulher…
— Minha princesa, eu vim salvá-la, e agora me rendo diante de sua magnífica beleza. – disse o príncipe, ajoelhando-se numa reverência.
— Ora, corta essa! – falou a mulher a seu lado. – Você não vai acreditar nesse canalha, vai? – perguntou, olhando pra princesa. – Deixa eu te contar uma coisa, esse filho da mãe aqui vem usando a mesma frase há anos, pra conquistar todas as princesas da região. Ele não quer casar nem nada. Só quer transar com todas elas. O que ele considera como tesouro ele guarda ali bem no meio das pernas, bem protegido embaixo dessa armadura. O desgraçado disse que veio me salvar, cinco meses atrás, quando eu tava presa numa torre igual a essa. Mas ele não contava com os meus informantes, que já haviam me avisado sobre o caráter desse infeliz. Tentou me convencer, me conquistar, e tudo que conseguiu foi um tapa na cara e um não bem alto que ele tem vergonha de assumir até hoje.
— É tudo mentira! – bradou o príncipe, levantando-se. – Eu sou um guerreiro honrado!
— E esse bafo de cana vem de qual parte da sua honra? – perguntou a princesa guerreira.
— Você andou bebendo? – perguntou a princesa, que havia ficado calada todo esse tempo. Uma expressão de injúria tomando conta de seu rosto.
— Eu… Err… Não… Quer dizer…
— O safado tava enchendo a cara numa taverna na vila mais próxima, com outros bêbados inúteis iguais a ele. – respondeu a princesa dos cabelos negros. – E além disso, eu que matei aquele dragão lá fora! Já esse covarde aqui nunca matou dragão nenhum! Ele tinha um acordo clandestino com a empresa de aluguel de dragões, e sempre que se aproximava, o dragão tinha ordens pra encenar uma luta e logo depois cair fingindo-se de morto. É um falso príncipe, um impostor! Não merece o amor de nenhuma princesa!
— Eu aqui, presa nessa torre, com um dragão infernal me rodeando, e você se embebedando e preocupado apenas em chegar aqui pra me levar pra cama? E ainda é uma farsa! Por que diabos eu sonhei tanto com o homem perfeito se quem me salvou foi uma mulher?! – a princesa gritou.
O príncipe ficou sem palavras, tentando pensar numa desculpa, mas acabou enrolando-se com as frases, gaguejando e tropeçando em explicações absurdas. A princesa guerreira a seu lado esboçou um sorriso vencedor, enquanto o olhava com desprezo.
— Quer saber de uma coisa? – disse a princesa. – Cansei! Cansei de ser uma princesinha esperando por seu maravilhoso príncipe encantado, que é na verdade um covarde bêbado canalha e tarado sem um pingo de respeito! Eu não vou casar com você nem com nenhum dos seus amigos idiotas, nem vou voltar pro meu reino. Se passar por lá, pode avisar que a princesa aqui fugiu com outra princesa, pra nunca mais voltar.
E dito isso tascou um beijão na boca da outra princesa, deixando o príncipe estupefato.
— Ah, a propósito, – ela continuou – esse adorno no seu capacete é super cafona!
E assim, as duas princesas saíram da torre juntas, deixando o príncipe por lá mesmo, desolado e com o orgulho ferido.
Ela rejeitou seu falso príncipe encantado, e resolveu ser salva por uma outra princesa encantada.
E o que mais dizer? Viveram felizes para sempre!




