Crônicas de um Astrobiólogo – Parte VIII

Dezembro 21, 2009 at 9:38 pm (Uncategorized)

— Precisamos arranjar um jeito de sair daqui o quanto antes! – disse um dos cientistas.

Um pânico silencioso havia se instaurado em todos no salão. Tremores discretos, olhares temerosos e uma angústia desesperadora que crescia vertiginosamente direto de seus estômagos e parecia invadir a caixa torácica como um hospedeiro alienígena querendo sair.

Não que eles não fossem inteligentes por não terem percebido toda a jogada antes, afinal, eram mentes brilhantes que haviam sido escolhidos a dedo num processo seletivo extremamente rigoroso. Apenas não haviam conectado algumas pontas soltas, até conversarem sobre as futuras pesquisas em Europa II…

— E então? – eu havia perguntado. – Tem muita coisa nessa história que não tá se encaixando… Por que alguém iria querer a minha morte?!

— Provavelmente para impedir você de chegar ao planeta gelado… – disse Lúcio. – …Mas precisamos descobrir o quê de tão aterrorizante existiria em você alcançar seu destino inicial. Se todo aquele investimento pesado foi posto em seu trabalho e você foi o escolhido para realizar a tarefa, por que então destruir tudo isso de repente? É isso que ainda não sabemos. Há algo que deixamos escapar…

— E tudo por algumas criaturas marinhas simples… – eu resmunguei. – Eu cheguei a comentar com alguns cientistas envolvidos no projeto-piloto que minhas esperanças de achar vida complexa eram muito pequenas, quase inexistentes. Seria maravilhoso, mas muito improvável. Estou indo atrás de organismos unicelulares, e pluricelulares muito simples, algum tipo de plâncton heterotrófico sem organização tissular verdadeira. Qualquer achado além dessas fronteiras e seria uma descoberta e tanto! Então não vejo motivo para que eles queiram me impedir de realizar minhas pesquisas! O que pode haver de tão precioso naquele planeta que mais deve parecer um cubo de gelo?!

— Você fez previsões com base em que dados? – perguntou o cientista de tatuagem tribal, repentinamente interessado nos detalhes.

— Eu recebi um dossiê com dados geofísicos e geoquímicos, mais algumas considerações astronômicas e um pouco de especulação astrobiológica fornecida por um programa computacional de simulação biofísica. Nada realmente concreto quanto a isso, a não ser as equações e as fórmulas químicas que enchiam páginas e páginas ao lado de gráficos complicadíssimos e recheados de detalhes. Estudei o documento a fundo para preparar-me. Os estudos preliminares sobre Europa II estavam indo de vento em popa, como pude reparar. Faltava apenas a pesquisa direta, a intervenção humana, a experimentação ambiental.

— Especulação astrobiológica? Não teria sido apenas uma seta proposital? – perguntou Lúcio. – Eles podem ter guiado você em seus pensamentos, querendo que achasse o que eles desejassem…

— Não seria muito conspiracional? – eu perguntei, com um pouco de medo ao perceber que certas coisas começavam a fazer sentido dentro da minha cabeça.

— Quem assinou esse dossiê? – indagou Lucas.

— Cientistas pagos pelas corporações que financiarão meu trabalho.

— Ahá! É tudo armação! – o cara do tribal exclamou. – Tem alguma coisa em Europa II que ninguém quer que saibamos. Eles estão escondendo algo por lá! Escolheram você como cientista pioneiro nessa empreitada apenas para poder dar uma desculpa ao mundo! Dizer que as pesquisas prosseguiriam e que enviariam alguém para continuar o trabalho. Então mandaram você pra cá tentando matá-lo, e logo noticiariam a sua morte “acidental” como a paralisação momentânea das pesquisas!

— E vocês por aqui só deram uma tremenda má sorte, então, hein! – comentou Lucas. – Mas se os caras são os mesmos, essa tal evolução acelerada que vocês falaram pode ter a ver com o segredo de Europa.

Todos olharam para o loiro ao mesmo tempo, como se aquelas palavras fossem tudo o que procuravam há tempos.

— Até que você não é tão ignorante assim! – eu falei em tom zombeteiro e fui recriminado por um olhar irritado. – Vocês descobriram o fator que causa o processo evolutivo anormal? – perguntei para Lúcio, ao que ele me respondeu afirmativamente com um largo sorriso.

— Um gene! Um simples gene! – ele respondeu em tom vitorioso. – Um simples gene que expressa uma proteína fora do normal! Uma proteína que demos o nome provisório de Darwin!

— E o que essa proteína faz? – eu perguntei.

— Ainda não temos certeza de sua função principal, estamos descobrindo cada vez mais coisas, cada vez mais processos em que ela participa. Só sabemos que ela afeta o metabolismo inteiro. Mas nossas amostras estão velhas ou mal conservadas. Nossos laboratórios sofreram com o ataque. Precisamos de um espécime novo para continuar as pesquisas. Porém seria suicídio tentar capturar um animal! Não podemos mandar ninguém lá em cima, seria um ato irresponsável!

— Bem, nós sobrevivemos, certo? – falou Lucas.

Eu olhei pra ele com uma cara de “Que porra é essa? Tá querendo voltar pro Inferno? Não foi o suficiente tomar umas chicotadas do capeta e sair sem uma queimadura?”.

— Sim, e não vamos tentar a sorte de novo. – respondi prontamente.

— Nem pelo bem da Ciência? – ele perguntou, irônico, e devo admitir que me senti impelido a mudar de idéia.

— Calma, gente, isso não está em discussão. Ninguém vai subir. – Lúcio finalizou.

Alguns cientistas voltaram aos seus afazeres enquanto eu, Lucas e Lúcio conversávamos. E acho que teríamos continuado nessa tranqüilidade aparente, camuflada pela angústia da falta de ação, se o alarme de segurança não tivesse disparado, e uma voz metálica andrógina não tivesse anunciado em sentenças repetitivas que o complexo subterrâneo estava sendo invadido.

Todos correram para conferir os mapas holográficos que ainda funcionavam, tremulantes e falhados, indicando em pontinhos vermelhos intermitentes a localização dos invasores. E qual não foi nossa surpresa ao perceber que os mapas estavam sendo inundados por um verdadeiro mar de pontinhos vermelhos! Uma enxurrada rubra de criaturinhas assassinas com um desenvolvimento alucinado que estavam farejando nossos intestinos, famintos!

A época reprodutiva havia acabado e agora os machos estavam a seu caminho de conseguir alimento para seus rebentos medonhos. Meu Deus, eu sentia náuseas só de pensar em como seria a prole desses seres!

— Precisamos arranjar um jeito de sair daqui o quanto antes! – disse um dos cientistas.

— Ora, não sejam apressados, queridos geniozinhos! – falou Lucas com um sorriso de canto de boca. – Agora vocês precisarão dos meus serviços de bandido! Estamos prestes a entrar em guerra! Vamos, deve ter algum armamento nessa espelunca tecnológica! E se não houver, é hora de usar esses cérebros avantajados pra improvisar alguma!

Se eu já estava suficientemente assustado por saber que voltaríamos a enfrentar aquelas coisas voadoras de dentinhos afiados, aterrorizei-me mais ainda ao vislumbrar Lúcio correndo em direção a uma saleta adjacente recheada de armamentos militares. Antes que eu pudesse expressar qualquer opinião sobre tudo aquilo, me jogaram uma Uzi modificada no colo e um lança-chamas do tamanho de uma perna de elefante. “Isso, joguem uma fogueira portátil nas mãos de um astrobiólogo inexperiente com armas e ele incendiará tudo num raio de cinqüenta quilômetros!”.

Uma horda de cientistas armados até os dentes, com seus jalecos e óculos de proteção, liderados por um bandido integrante de uma gangue de transporte clandestino em cargueiros e mal ajudados por um astrobiólogo medroso. E do outro lado da porta, um verdadeiro exército de alienígenas arranhando ferozmente o aço, procurando uma maneira de entrar no salão. A energia de emergência começou a falhar, e logo estaríamos à mercê daquelas criaturas. Acomodei a Uzi nas costas com uma faixa de vinil e empunhei o lança-chamas no ombro. As células de combustível enroladas em minha cintura, suficientes para oito horas de puro plasma amarelo-alaranjado.

A porta começou a ceder aos ataques. Devia ter uma massa gigantesca de alienígenas para realizar tamanha pressão. O rugido arrastado ecoava na abóbada escavada na pedra. Eu faria o sinal da cruz se fosse um religioso, mas naquele momento apenas pensei em algumas contas rápidas de probabilidade, tentando calcular as chances de sair vivo do pandemônio eminente. Então fechei os olhos por alguns segundos pensando na proteína Darwin e no segredo que Europa II escondia. Mistérios científicos eram o suficiente para me fazer querer continuar vivo.

Abri os olhos e as patas desajeitadas de alguns dos seres já se faziam visíveis pelo estreito vão da porta. Engatilhei e mirei. Seria um churrasco e tanto.

Continua…

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Crônicas de um Astrobiólogo – Parte VII

Novembro 2, 2009 at 9:13 pm (Uncategorized)

Ainda não sei por quanto tempo ficamos presos naquela saleta branca, sem nenhuma noção de nada. Já estava me acostumando à solidão compartilhada, ao silêncio, ao infinito enclausurado. Lucas, apático, nunca saía de seu canto, e pensava eu que já estava começando a enlouquecer, balbuciando e murmurando palavras desconexas e irreconhecíveis. Mais um pouco, e não saberíamos distinguir a fantasia do real, e talvez até mesmo nossas memórias se apagassem.

E seguiríamos nessa angústia muda se não tivessem aberto a porta com estrondo e nos arrancado dos devaneios insanos aos quais estávamos imersos. Fora como  alguém me puxando com força pela camisa para fora do oceano, de volta à vida.

— Levantem-se! – um homem ordenou, embora seu tom autoritário tremesse com desconfiança e medo.

— Sigam-me!

Não encontrei motivos para desobedecer, e imagino que Lucas tenha pensado o mesmo. Acompanhamos o homem misterioso para fora da saleta, e demos num corredor amplo. Tudo parecia muito limpo, polido, cores claras, iluminação intensa. E apesar da imagem impecável, era como se estivéssemos num complexo laboratorial abandonado, completamente fantasma.

Andamos por alguns minutos por caminhos que pareciam sempre iguais. O homem a nossa frente mantinha o passo firme e veloz, tínhamos que quase correr para acompanhá-lo a tempo de não nos perdermos.

Consegui vislumbrar algumas portas entreabertas, revelando parte do conteúdo enigmático de seus aposentos. Alguns aparelhos metálicos abandonados, mesas de azulejos, torneiras enferrujadas, centenas de potes de plástico e sacos jogados pelo chão, numa confusão entre tubos, cabos e líquidos coloridos. Um silvo como o de um réptil ecoava vez ou outra. Alguma engrenagem milenar rangendo das entranhas de seu mecanismo danificado.

— No começo não sabíamos o que fazer com vocês, – o homem começou a falar, sem nem mesmo virar o rosto para trás. Os cabelos negros e curtos bagunçados. – por isso resolvemos mantê-los na sala de isolamento durante um curto período. Motivos de segurança, não podíamos nos expor à espécimes que vieram da superfície.

— Espécimes? – perguntou Lucas. – Por acaso somos diferentes de você?

— Acredito que pertencemos à mesma espécie, somente quis enfatizar que não conhecíamos o grau de infecção que vocês poderiam ter sofrido, ou mesmo de fusão celular, tissular ou até mesmo sistemática.

— Do que diabos você tá falando? – era a minha vez de perguntar.

— Estou falando que vocês são estranhos que apareceram no nosso território de repente! – ele respondeu impaciente. – Estamos perto, agora, apenas mais alguns passos.

Eu já estava prestes a perguntar perto da onde quando chegamos a uma enorme porta de aço. Parecia um tipo de passagem de isolamento, que mantém uma área completamente separada da outra em caso de acidentes e emergências. Ele aproximou-se de uma pequena câmera circular acoplada na parede. Alguém do lado de dentro identificou-o e acionou algo que fez a enorme porta ranger e sibilar enquanto abria-se. Era tão grossa quanto uma jibóia recém-alimentada, e deixou escapar uma esparsa névoa branca que se arrastou pelo chão, enquanto entrávamos no aposento protegido.

Parecia um gigantesco salão. Estendia-se até onde a visão alcançava, e o teto era uma abóbada quase cavernosa. Senti-me num santuário. Algumas pessoas, ao fundo, conversavam, enquanto outras se preocupavam com uma projeção holográfica que me pareceu um mapa militar do planeta em que estávamos. Assim que perceberam que eu e Lucas havíamos entrado, as vozes cessaram e todos os olhares nos fuzilaram.

O homem que nos servira de guia havia descido uma pequena escada para a parte principal do salão, e um outro se aproximava com um sorriso amigável. Era um pouco mais velho, com alguns fios brancos despontando nas têmporas, e sutis rugas de expressão formando-se nos cantos dos olhos.

— Olá, sortudos!

— Sortudos? – indagou Lucas, não sabendo se ficava puto ou se gargalhava. – Caímos num planeta-depósito infestado de alienígenas macabros e assassinos, nosso cargueiro está quebrado, nos enfurnamos numa caverna fedorenta, somos capturados por malucos e mantidos em prisão e você nos chama de sortudos?!

— Lucas, relaxa, ao que parece eles não são hostis… – eu comecei. – …e não é muito educado chegar na casa de alguém chamando essa pessoa de maluca!

— Não tem problema, rapaz, não me senti ofendido! Entendo perfeitamente a situação de vocês! Mas não sabia que eram trabalhadores de um cargueiro! Achei que fossem viajantes perdidos e que tivessem caído neste planeta por engano! Há tempos que não usam mais o PD-023 como destino do lixo terráqueo!

— Que porra é essa que você tá falando? Como assim não usam mais esse planeta? Eu e minha equipe fomos enviados pra cá com ordens muito claras!

— Aconteceu algum mal-entendido, meu jovem. Esse mundo está abandonado à própria sorte!

— Esperem aí! – eu interrompi. – Quer dizer que vim parar no meio dessa merda toda por engano? Ah, ótimo, lá se vai minha carreira que já não era tão promissora assim. Maravilha, sempre quis morrer num planeta-lixeira!

— Você não é um trabalhador do cargueiro?

— Ah, não, claro que não… Sou um astrobiólogo, estava apenas de passageiro clandestino… Meu destino real era a lua Europa!

No momento que revelei ser um cientista, todos largarem seus afazeres imediatamente e aproximaram-se. Só então pude reparar que a maioria usava jalecos e outros equipamentos de proteção. Reconheci alguns aparatos de pesquisa organizados em mesas ali perto, e algumas equações familiares rabiscadas nos quadros digitais que se espalhavam pelas paredes.

— Por acaso você é o cara designado para estudar a vida marinha de Europa? – uma mulher de cabelo ruivo encaracolado perguntou-me.

— Sim, eu mesmo, sou Arthur Fox!

Fiquei impressionado com a reação das pessoas, parecia que todos conheciam meu nome e meu trabalho! E eu sequer havia ouvido falar num centro de pesquisas subterrâneo num planeta-depósito!

— Está explicado porque vocês foram mandados pra cá… – a mulher falou, olhando para Lucas. – foi uma armação! Sabiam que o Arthur estava a bordo, e enviaram vocês para morte! Seria o plano perfeito, vocês desapareceriam aqui e ninguém nunca saberia do paradeiro do cientista!

— E por que infernos alguém quer que eu morra? – eu perguntei, assustado.

— Uma longa história, cara… – respondeu o homem que nos recebera sorridente. – Mas acho que não temos pressa aqui embaixo, não é? Deixe-me que eu me apresente primeiro. Meu nome é Lúcio, e sou um astrônomo. Todos aqui nesta sala são cientistas ou engenheiros, mas como pode ver, somos poucos agora. A maioria de nós sucumbiu à praga alienígena que assolou o planeta, e estão mortos. Conseguimos sobreviver e nos isolar, porque tivemos a mesma sorte que vocês! Seu cargueiro caiu aqui exatamente na época em que os aliens estão no período de reprodução. Por dois meses terrenos, eles permanecem com atividade predatória reduzida. Os machos ocupam-se apenas de cortejar as fêmeas, e estas ficam de camarote assistindo ao desfile dos pretendentes, para então escolher apenas um e procriar. Nós aqui do Extreme Science Research Facility tivemos a sorte de agir nessa época, há dois anos. Lacramos algumas zonas do centro subterrâneo, e nos isolamos do exterior. Por isso o nosso medo e desconfiança ao achar vocês dois jogados em frente a uma de nossas portas de entrada!

— Por favor, não me digam que isso foi tudo culpa de algum vírus maluco e que há zumbis alienígenas aí fora! – exclamou Lucas.

Os cientistas riram.

— Não, não se preocupe. Não há zumbis por aqui.

— Mas por que construiriam um centro de pesquisas num planeta desses? – eu perguntei.

— Bem, assim que descobriram que algo estava causando um processo evolutivo absurdamente mais veloz, foi necessário trazer alguns laboratórios para cá. Com o tempo, algumas empresas resolveram investir nas pesquisas, e antes que pudéssemos perceber, estávamos com esse centro enorme construído na pedra, com centenas de cientistas de todas as partes do universo próximo! Obviamente que algo com esse potencial deveria ser mantido em segredo, e foi o que aconteceu. Por isso você não sabia da nossa existência…

— Mas vocês sabem da minha, e do meu trabalho em Europa…

— Inevitável que não conheçamos o cientista que foi escolhido para essa empreitada épica! Algumas empresas que colocaram dinheiro aqui, também planejaram colocar dinheiro em você!

— E infelizmente são os mesmos filhos da puta que nos abandonaram de encontro à morte! – falou um cara magrelo de cabeça raspada e tatuagem tribal no rosto, um símbolo em formato de serpente que ia da bochecha direita até acima da sobrancelha.

— Eu ia perguntar isso, o que aconteceu por aqui, afinal? – indagou Lucas.

— É, tem muita coisa nessa história que não tá se encaixando… – comentei. – O que o meu trabalho em Europa tem a ver com o trabalho de vocês aqui sobre essa evolução acelerada? E qual o envolvimento dessas corporações com aqueles monstros lá de cima?

Continua…



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Crônicas de um Astrobiólogo – Parte VI

Outubro 10, 2009 at 6:39 pm (Uncategorized)

Minhas mãos esfoladas agarravam cada protuberância de rocha que eu conseguia enxergar. Eu não conseguia pensar em mais nada além da poeira escorrendo por entre meus dedos e do possível desmoronamento daquela coluna, levando-nos para o fundo do abismo. Lucas parecia divertir-se, talvez porque tivesse certa habilidade naquilo. Parecia um macaco, ou um polvo, com movimentos velozes e firmes, fazendo contorções que eu sequer tentaria, apoiando-se nos melhores degraus naturais e descendo com a mesma facilidade com que alguém desce uma ladeira.

Ele devia olhar pra minha cara de apavorado e rir interiormente. Eu preocupava-me que o perdesse de vista, mas ele sempre me esperava quando ia muito rápido. As luzes de nossos capacetes começaram a piscar intermitentemente, e a diminuir de intensidade. E ainda não havíamos vislumbrado nem uma nesga do solo. A escuridão era imensa, e já havíamos descido por quase meia hora, sem descansar, e num ritmo razoavelmente acelerado.

— Vamos mais rápido antes que a lâmpada morra. – disse Lucas.

— A lâmpada?! – eu exclamei. – Eu to preocupado que eu vá morrer, e não a porra da lâmpada! Essa sua idéia maluca de descer o precipício foi só pra consumir mais rápido nosso pouco oxigênio restante e pra que morrêssemos de maneira indolor, certo? Pode admitir! Porque se cairmos daqui, assim que nossos crânios chocarem-se com o solo lá embaixo, terá pedacinhos de cérebro humano espalhados num raio de cinqüenta quilômetros!

Ele parecia nem me ouvir mais, e eu continuei resmungando por mais uns cinco minutos, até que as luzes finalmente apagaram-se. Eu estanquei na posição que estava imediatamente, fincando as unhas na rocha com o máximo de força que ainda possuía. Lucas aparentemente fizera o mesmo.

— Certo, temos que ir bem devagar agora. – ele começou dizendo. – Sinta o relevo, não tenha pressa. Se você fechar os olhos e apalpar a rocha, vai perceber que conseguirá formar uma imagem tridimensional dela na mente e poderá descer com mais segurança.

— Você tá de sacanagem, né? – eu retruquei.

Dessa vez eu era o afobado desesperado, e não estava com a mínima paciência pra ficar alisando pedra. Era uma maldita roleta-russa! E já que estávamos à beira da morte de um jeito ou de outro, preferi seguir meus instintos (um tanto quanto suicidas, diga-se de passagem) e fui descendo sem tentar saber onde eu deveria por ou não os pés e as mãos. Por sorte, consegui prosseguir por uns dois minutos, e então o pavor me consumiu quando perdi o apoio dos dois pés e fiquei pendurado pelas mãos, que agarravam somente um pedaço muito pequeno e possivelmente frágil de rocha.

Comecei a gritar, e meus pedidos de socorro pareciam preencher a escuridão e reverberar em cada obstáculo que encontrava. Lucas gritou de volta, tentando me localizar e perguntado o que tinha acontecido. Mas antes que eu pudesse explicar, meus dedos suados escorregaram da pedra e eu caí. Senti meu coração subir até minha boca e minhas vísceras achatarem-se até ficarem da finura de uma folha de papel. Gritei com tanta força que não percebi que já tinha caído no solo, e continuava gritando.

Foi então que percebi que a queda fora minúscula, uns dois metros no máximo. Minhas costas doíam, mas eu tava vivo!

— Pode pular, Lucas, o solo é logo aqui! – eu exclamei, entusiasmado.

Ele pulou, e caiu ao meu lado, esbarrando na minha perna.

— Viu, eu disse que seria interessante se descêssemos o abismo…

— Mas estamos sem luz, não sabemos o que diabos existe aqui embaixo. – eu falei. – Se tivéssemos trazido nossas lanternas de reserva…

— Quem são vocês?!

Uma voz estranha e autoritária percorreu a escuridão. Eu e Lucas silenciamos na mesma hora, e vasculhamos as redondezas com os olhos, inutilmente, já que naquele breu era impossível distinguir algo. Num instinto de medo, seguramos nossas mãos e permanecemos juntos, preparados para o que quer que estivesse por perto. Não ousamos responder a voz, mas apenas esperamos que o estranho se revelasse.

Foi então que um clarão branco cegou-nos quase que instantaneamente. Nossas pupilas, que estavam dilatadas no escuro, absorveram de uma só vez uma gigantesca quantidade de luz. Nossos olhos doíam. Fiquei agoniado que não podia tocar meus olhos com as mãos por causa do capacete acoplado à mangueira do tanque de oxigênio. Mas não tive muito tempo pra fazer mais nada, pois um par de mãos enormes agarrou meus braços e me puxou com violência. Senti-me arrastado como um saco de lixo qualquer, lanhando a roupa no solo irregular, até que uma mudança brusca de temperatura e de relevo atingiu meu corpo. Ouvi um barulho de metal raspando metal, e uma onde de ar gelado invadiu minhas percepções. O solo não mais era pontiagudo e poeirento, mas sim liso e limpo ao toque.

Ainda com os olhos doendo, e o clarão direcionado diretamente para o meu capacete, não fui capaz de perceber onde estava, e antes que pudesse tentar ver se Lucas fora arrastado também, algo bateu com força na minha cabeça e eu desmaiei.

Acordei meio tonto, e ainda tentando acostumar meus olhos com a claridade. No começo eu via tudo embaçado e deslocado, e somente uma parede branca se estendia no meu horizonte. Olhei para os lados e tudo era branco. Então enxerguei Lucas sentado num canto do que parecia ser uma sala pequena. Quando levantei, quase perdi o equilíbrio. Estava sem o tanque de oxigênio, portanto, muito mais leve. E ali a gravidade parecia ser a mesma da Terra.

Lucas estava encolhido, abraçando as pernas. Seus olhos muito abertos pareciam perdidos. Nós dois estávamos com nossas roupas, mas sem o capacete, o tanque, e os pequenos aparatos de exploração que trazíamos na cintura.

— O que é isso? Um hospício? – eu perguntei.

— Você lembra de alguma coisa? – ele indagou, ignorando minha primeira pergunta.

— Lembro de alguém me batendo na cabeça. – eu respondi, enquanto levava a mão à nuca, procurando um galo.

— Eu também. E depois… isso.

Sentei-me ao seu lado.

Na parede em frente, distinguimos o contorno de uma porta com um pequeno espelho quadrangular na parte superior. Imaginei que fosse um daqueles vidros que usam em salas de interrogatório policial. Estaria alguém nos observando lá de fora?

Continua…

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Crônicas de um Astrobiólogo – Parte V

Setembro 12, 2009 at 6:38 pm (Uncategorized)

Passamos o o resto da tarde sentados na entrada da caverna, escondidos por um muro de rochas que nos rodeavam tal qual um iglu sem teto. Era o máximo que poderíamos fazer naquelas condições. Nossos tanques de oxigênio já passavam da metade e durariam apenas mais algumas horas. Nossas armas estavam sem munição. Nosso cargueiro era apenas uma lata velha gigante tombada no meio da planície desértica, e não tínhamos acesso a nenhum tipo de comunicação. Eu comecei a pensar seriamente que morreria naquele planeta, e seria devorado por aquelas criaturas esquisitas. Meu corpo seria consumido por uma espécie nova que eu sequer tive a oportunidade de estudar. Vocês tem noção do quanto isso é frustrante?

— E agora? O que faremos? – perguntei pro cara loiro.

— Sei lá, cara. – ele respondeu num misto de desânimo e raiva. – Podemos nos esconder mas não temos pra onde fugir. Precisamos achar uma saída!

— Ou consertar o cargueiro milagrosamente.

— Mais provável que cresçam asas a partir de nossas omoplatas e saiamos voando daqui até o planeta habitado mais próximo. – ele resmungou.

— Olha, um pouquinho de otimismo faria muito bem agora, sabia?

— Não temos nem por onde começar!

— Temos uma caverna! – eu exclamei.

Minha intenção era dizer que possuíamos um abrigo, mas no momento que eu disse isso, percebi que não estávamos completamente perdidos, afinal.

— Ei, temos uma caverna! – eu repeti, dessa vez incrivelmente entusiasmado.

— É, eu entendi da primeira vez que você disse, não precisa repetir. Eu to pessimista, não surdo.

— Não, cara, eu to querendo dizer que ainda não exploramos a caverna! Quem sabe onde ela pode levar? Eu entrei apressado e não vasculhei até onde ela vai, mas lembro que o fundo era bem longo, e não consegui enxergar uma parede final. Talvez ela corra por baixo do planeta e nos tire daqui, ou nos leve a algum recanto mais seguro.

— Ah sim, claro. Vamos explorar a caverna, andar por horas entre corredores úmidos, escuros, fedorentos e estreitos, nos agachando e nos arrastando que nem vermes, apenas pra chegar no final e perceber que tudo que fizemos foi mudar nosso local do túmulo. Bem, pelo menos já estaremos enterrados quando morrermos.

— E você tem uma ideia melhor, engraçadinho? – indaguei, irritado. – Se você quer ficar aqui e esperar a morte, ótimo. Mas eu vou me mexer. A lanterna dos nossos trajes ainda funciona e o caminho é estreito mas é o suficiente pra que consigamos passar mesmo com nossos tanques de oxigênio nas costas.

— Ah, que se foda. – ele resmungou, dando de ombros. – Vamos logo.

Claro que eu estava um tanto quanto otimista, pois havia apenas me abrigado no comecinho da caverna e não tinha a menor ideia de como ela seria dali pra frente. Os espinhos rochosos no teto eram perigosos, e nos arrastamos com extremo cuidado. Se ficássemos sem ar ali dentro, seria uma morte dolorosa, lenta e agonizante.

A lâmpada do capacete era fraca, mas o feixe de luz branca que iluminava apenas dois palmos a frente já nos fornecia uma noção de direção e orientação espacial. Era tudo que necessitávamos pra não darmos de cara com a parede ou andarmos em círculos, se é que isso seria possível naquele corredor minúsculo.

O solo era levemente inclinado, num ângulo tão sutil que mal percebemos que a cada metro nos aproximávamos mais e mais das entranhas do planeta. Por duas longas e cansativas horas, percorremos caminhos tortuosos, que ora alargavam-se ora estreitavam-se. A umidade deixava as paredes sempre brilhantes com gotículas d’água. E ainda não havíamos encontrado um animalzinho sequer ali dentro. Nenhum inseto, nenhum verme, nada. Obviamente nunca acharíamos seres terrenos, mas eu pensava que a bioespeleologia extraterrestre seria muito semelhante à nossa, até mesmo pelas condições geológicas do lugar.

Arrastamo-nos persistentes. Eu seguia na frente, e já podia ouvir Lucas, o meu mais novo compaheiro de tragédia, arfando com certa dificuldade atrás de mim. O silêncio e a acústica do local favorecia que os mais estranhos e pessoais ruídos se fizessem ecoar por toda a extensão da caverna. Já nos acostumáramos ao zumbido agudo dos tanques de oxigênio e o som arrastado da roupa friccionando o solo.

Nossos músculos estavam cansados, e eu já podia sentir o acúmulo de ácido láctico prestes a provocar uma maldita câimbra, quando estanquei repentinamente. Lucas quase colidiu comigo, e me xingou por não tê-lo avisado da parada. Eu estava boquiaberto e completamente sem palavras. Até mesmo minha respiração fora interrompida por alguns segundos. Minhas mãos agarravam com uma força descomunal um conjunto de rochas que beiravam um gigantesco precipício negro. O corredor que percorríamos desembocava num abismo sem fim. Tudo que minha lanterna fraca podia iluminar agora era o nada.

Lucas arrastou-se com certa dificuldade para o meu lado, aproveitando que naquele final o corredor abria-se um pouco, e quase caiu. O afobado quis passar com pressa, e se eu não o segurasse por instinto, ele teria despencado precipício abaixo e caído sabe-se-lá onde.

— Caralho! – ele gritou após quase agarrar-se a mim de desespero.

— Acho que finalmente chegamos ao fim. – eu murmurei quase inaudivelmente.

E Lucas teria concordado com toda a sua bagagem pessimista, aproveitando pra esfregar na minha cara que aquela empreitada não adiantara de nada, se ele não tivesse vislumbrado por meio minuto uma estranha luz verde percorrendo o fundo do abismo. Eu consegui olhar a tempo, e só percebi o vulto esverdeado desaparecendo aos poucos. Rapidamente minha mente de astrobiólogo percorreu uma enciclopédia mental de seres cavernícolas que poderiam possuir bioluminescência, mas nenhum me veio à mente que possuísse uma luz verde tão forte e intensa que se fazia visível mesmo a centenas de metros de distância, nem que se movesse tão veloz.

— Olha, cara, as rochas formam degraus! – Lucas me gritou enquanto ele abaixava-se perigosamente na beirada, inclinando o corpo pra frente e apalpando a parede do abismo. – São irregulares e pontiagudas, perfeitas pra escalada!

Eu olhei assustado para o fundo do precipício, e depois de volta pra cara entusiasmada dele e perguntei:

— Você não tá querendo insinuar que nós vamos descer isso, né?

— Eu já me conformei que vou morrer aqui dentro. E já que não tem mulher aqui, quero morrer fazendo alguma outra coisa emocionante. – ele respondeu, enquanto preparava-se pra descer.

Fui tomado por um pânico repentino, mas não pude deixar de admitir interiormente que também estava deveras curioso pra descobrir a origem daquela luz verde. E o que mais poderíamos fazer, afinal?

Continua…

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Depois do primeiro fim

Agosto 19, 2009 at 1:35 am (Uncategorized)

Observar a superfície arenosa das terras áridas do meu antigo planeta me causa uma certa nostalgia ambivalente. Aqui na Lua o terreno também é pedregoso e acidentado, sem falar do tamanho diminuto, mas posso ter a companhia do meu querido vaso de planta. Essa coisinha verdejante que cresce vagarosa e alcança a pouca luz que por aqui reflete.

Somos poucos agora, uma colônia diversificada, com representantes de cada nação, etnia, sexo e idade. Responsáveis por misturar nossos genes e continuar permitindo que o processo da evolução prossiga em sua caminhada imprevisível Perpetuação da espécie de maneira controlada para que não mais fôssemos acometidos pelo problema da superpopulação, que levaria à escassez dos nossos pouquíssimos recursos. Ainda estamos desenvolvendo projetos para sair daqui e habitar outro planeta, talvez Marte, ou mesmo nos aventurarmos corajosamente em alguma outra lua distante com geologia favorável. Cada vez mais distanciados da Terra…

Bem que eles avisaram que a atmosfera ficaria irrespirável por lá. Assim que as folhas amarelavam e caíam instantaneamente, percebemos que nossas crianças deveriam ir pra escola em ruínas com máscaras de gás. Era meio tragicômico observar aqueles bracinhos e perninhas molengas e ossudas brincando de roda com um enorme aparato macabro cobrindo a cabeça. Fiquei me perguntando se não tínhamos virado alienígenas em nosso próprio planeta. Precisávamos de trajes especiais, cuidados extremados, maravilhosos coquetéis químicos para manter nosso organismo ainda pulsante.

Era pedir demais reduzir nossa desenfreada ganância e não apenas falar, mas efetivar nossos planos de sustentabilidade? Se apenas nós tivéssemos nos extinguido, tudo bem. Mas insistíamos em arrastar todo e qualquer ser vivo inocente conosco. Nessas horas não medíamos esforços solidários, fazíamos questão de que todo mundo compartilhasse da nossa sujeira e dos nossos resíduos tóxicos. Engraçado como a distribuição igualitária de pobreza, fome e miséria foi tão bem sucedida.

Mas agora os que restaram de nossa espécie sobrevivem num satélite, com algumas plantinhas de estimação. Elas nos dão alguma esperança esparsa, um pouco de cor pra brilhar em nossas retinas e acender nossos nervos ópticos. E ainda assim, aquele ponto descolorado ao longe ainda me causa uma pontada de saudades…

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Crônicas de um Astrobiólogo – Parte IV

Agosto 9, 2009 at 10:56 pm (Uncategorized)

— Esses filhos da mãe comem lixo! – gritou um homem de cabelos louros. O suor escorrendo por sua testa.

Estávamos numa colina assustadoramente íngreme. Do topo, podíamos observar o que parecia algum tipo de bacia gigante, provavelmente uma cratera muito antiga. A formação geológica estava atulhada de lixo acumulado. Estranhos tons coloridos vibrantes faziam-se brilhar ao longe. E uma ou outra coluna fina de fumaça alaranjada subia sinuosa.

Uma horda pavorosa de bichos fuçava o lixo. Um tanto quanto lentos, eles cavavam pequenos túneis entrelaçados nas montanhas de dejetos e devoravam vorazes qualquer coisa orgânica que estivesse apodrecendo. Assim que chegamos ali e eu vi aquela cena, após uma longa caminhada cansativa e calorenta, um filme passou na minha cabeça.

Ali por perto, enormes galões metálicos com dizeres de toxicidade e radiação distribuídos em várias línguas na superfície encontravam-se jogados e revirados, com minúsculos furos. Sua estrutura ultra-forte programada para agüentar os mais poderosos impactos não resistira a alguma investida de algum cargueiro que acidentalmente realizara uma má aterrisagem. O conteúdo maligno daqueles galões escorrera lentamente, infiltrara no solo e misturara-se ao lixo.

Dentre carcaças metálicas, plástico e outros materiais sintéticos, muito lixo orgânico como restos de comida podre, dejetos humanos e animais e outras substâncias escatológicas foram atingidas gradualmente pelo material misterioso que escorria dos galões. Eu não sabia qual era a química envolvida e não me arriscaria a descer a colina para conferir ou pegar uma amostra, mas logo percebi que ali havia um acelerador absurdamente veloz da evolução. Aquele coquetel de elementos, de alguma forma, fez surgir vida primitiva entre os metabólitos do lixão. Vida que evoluiu rapidamente, resultando naqueles seres bizarros.

Havíamos criado, involuntariamente, uma forma de vida alienígena que florescera do lixo e da toxina, da podridão e da radiação. Um ser com características mistas de vários animais terrenos, que se alimentava de fezes humanas. Sim, era por isso que aquele desgraçado atacara o homem do cargueiro. Furou-lhe a barriga com os dentinhos serrilhados, destroçou pele e músculo, apenas para chegar aos intestinos e extirpar apenas aquilo que lhe interessava.

Fiquei curioso para saber como o organismo daquela criatura funcionava, o que ele absorvia do que ingeria, e como metabolizava aquilo. E por que sua visão era tão ruim? Por que possuía o olfato privilegiado? O que seu cérebro poderia dizer sobre isso? Eu queria um exemplar vivo, queria capturar uma daquelas coisas feias e levar pra algum laboratório. Queria pesquisá-lo em cativeiro.

Já estava imaginando mil coisas que poderia descobrir com essa nova espécie, quando percebi que se poderia ganhar muito dinheiro às custas desses alienígenas. Com o devido conhecimento de sua natureza e seus instintos, e uma equipe que soubesse controlá-los adequadamente, sabendo mantê-los em cativeiro e fazê-los procriar, o problema do esgoto e do saneamento estaria com um trunfo em mãos! Minha mente começou a voar alto, bem alto. Eu, um pobre cientista mal-pago, poderia ficar rico se possuísse o conhecimento sobre essa espécie, se mantivesse isso em segredo até o momento certo!

Ah, mas que surpresa o destino nos reserva… Eu, um astrobiólogo respeitado no meio científico, com prêmios e descobertas importantes no currículo, querendo me envolver num projeto social que resolve pra onde vai a merda dos humanos… Eu já fui melhor que isso… Sério… Ainda tinha Europa II, não tinha?

E eu acho que ficaria ali, devaneando eternamente sobre o que fazer em relação a essas criaturas, se o pessoal do cargueiro não tivesse praticamente me arrastado pra fora do topo da colina. Alguns dos animais pareciam ter farejado nosso conteúdo intestinal. Precisávamos sair dali o mais depressa possível.

Corremos tentando não fazer muito barulho, já que não sabíamos se a audição deles também era exacerbada. Quase rolamos encosta abaixo, castigando nossos pés naquele chão pedregoso e errante. Desviávamos dos montes de lixo pelo caminho, e tentávamos não cair, para não correr o risco de rasgar o traje de proteção. Os homens empunhavam as armas com receio, e as mulheres mantinham as mãos seguramente firmes nas bombas presas na cintura. Eu não estava afim de usar violência, não queria usar aquela arma pesada e desengonçada, muito menos numa espécie nova e fascinante que acabara de surgir quase que diante dos meus olhos.

Mas não tivemos outra opção. Quando um enxame, sim, um verdadeiro enxame daquelas coisas apareceu voando pra cima da gente simplesmente do nada, logo uma saraivada de balas cortava o ar. A pólvora usada era antiga (percebi que eles não tinham muita grana pra bancar armas mais modernas, à base de plasma ou eletricidade condensada), mas funcionava perfeitamente bem. Atravessavam os aliens como papel manteiga e derrubava-os bruscamente.

Eu tremia mais que atirava, e por isso mesmo, errava quase metade dos tiros. E provavelmente gritei mais do que as duas mulheres juntas. Deveria ter permanecido em meu laboratório precário, com todos os meus poucos recursos e pouco patrocínio. Estaria seguro entre quatro paredes manchadas de infiltração e estaria manuseando minhas amostras bioquímicas, muito feliz, com meu óculos rachado e meu jaleco surrado.

Não sei se foi sorte, mas eu consegui fugir em meio ao pandemônio, e me esconder numa caverna natural. Era pequena e cheia de pontas perfurantes no teto, mas eu me agachei com cuidado e deixei apenas o cano da arma do lado de fora. Ainda estava fumegante, cuspindo uma suave fumaça cinza. Mantinha as mãos trêmulas e suadas agarradas à coronha.

Vi dois dos homens caírem mortos no chão, e serem devorados pelas criaturas. Uma das mulheres desesperava-se com três aliens fincados em sua cabeça, já rasgando o tecido do traje com os dentes. A outra se perdeu no horizonte, enquanto corria desabalada, largando a arma provavelmente sem balas pelo caminho. O homem louro apareceu diante dos meus olhos tão rápido que eu levei um susto e quase furei minhas costas no topo da pequena caverna. Ele estava agachado na minha frente. Um filete de sangue escorria do seu supercílio esquerdo. Seu capacete estava rachado na frente. Ele não teria muito tempo se a viseira quebrasse.

Eu estava com um medo dos infernos, mas ele fez um sinal de que tudo estava bem agora. Os aliens haviam levados os corpos para longe dali e haviam desaparecido. Respirei aliviado por alguns segundos, até lembrar de que nosso cargueiro estava com a turbina quebrada. Não conseguiríamos sair dali sem nossa espaçonave consertada. O que diabos poderíamos fazer agora?

Continua…

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