Dia da Consciência Negra – Preconceitos velados
20 nov 2011 5 Comentários
em Artigos Tags:chicas, dia da consciência negra, mente e cérebro, preconceito, preconceito racial, preconceito velado, racismo
“Não há nada mais doloroso para mim nesta fase de minha vida do que caminhar pela rua, ouvir passos e começar a pensar em um possível assalto; depois olhar à volta, ver uma pessoa branca e me sentir aliviado”. A frase é de Jesse Jackson, um ativista político americano. Lembro de ter lido isso numa matéria da Mente & Cérebro (Ano XVI, nº 196) sobre preconceitos velados, aquelas convicções automáticas resultado de associações que nosso cérebro faz baseado em estereótipos históricos e sociais. Quem não possui um preconceitozinho involuntário sequer que atire a primeira pedra de crack.
A matéria da revista diz que “estudos mostram que certos cenários sociais podem ativar estereótipos e atitudes implícitas que influenciam nossas percepções, juízos e comportamentos, como a escolha de amigos, a contratação de empregados e, no caso de profissionais da saúde, como médicos ou psicólogos, o tratamento a ser dispensado“.
Enquanto todo mundo discute o preconceito aberto e explícito, o racismo violento e covarde, vejo poucas pessoas discutindo essa outra forma de preconceito, tão perigosa quanto. É nesse limiar confuso e cheio de camadas que se encontram os que não querem ser preconceituosos e lutam contra as crenças implícitas em sua bagagem cultural e educacional, e aqueles que não se dizem preconceituosos, mas perpetuam ideias preconceituosas. O famoso é viado, mas é meu amigo. Ou é preto, mas é honesto.
Se a pobreza no Brasil tem cor (e também gênero, idade e localização geográfica), a culpa é da cor? Há quem acredite que sim. É o mesmo tipo de pensamento que associa a falta de mulheres no campo científico não por motivos históricos e culturais que excluíam (e ainda excluem) o gênero feminino de uma área considerada masculina, mas pelo simples fato delas serem mulheres! O pensamento de que mulheres são intelectualmente inferiores aos homens. A mesma lógica infundada que rege o pensamento de que negros são naturalmente violentos e criminosos.
Todos esses estereótipos contribuem para o fortalecimento do preconceito velado, e pequenas atitudes que podem parecer inofensivas, como piadas e comentários ofensivos, só fazem engrossar essas crenças. Imaginem como deve ser para uma criança negra. Já não basta a menina ser bombardeada pela mídia com a ideia de que o cabelo dela é ruim e que o certo é ser uma mulher branca magra-quase-esquelética de olhos claros e cabelo loiro-ultra-liso, sem voz e sem opinião, submissa e sexualmente conservadora, sem poder ou controle sobre o próprio corpo ou a própria vida, a criança ainda é obrigada a ouvir piadas racistas no colégio e se não rir junto dos coleguinhas ainda é deixada de lado e tachada de sem senso de humor. (Opa, ouvi alguém gritando patrulha ideológica e polícia do politicamente correto aí?).
Já evitou sentar-se ao lado de um negro num ônibus ou metrô porque preferiu sentar-se ao lado de um branco? Já atravessou a rua de noite porque viu alguém suspeito se aproximando, e esse alguém era negro? Já se espantou ao ver um gari branco? Já parou pra pensar por que quase ninguém quer adotar crianças negras? Já xingou alguém de “preto” e “crioulo”, mas nunca de “branco”? Negro pra você, se não for pobre e bandido é sinônimo de malandro, mulata e futebol?
Questione-se.
Desconstrua.
Deixo um vídeo do grupo musical Chicas interpretando Sorriso nos Lábios, música genial de Gonzaguinha:










nov 21, 2011 @ 11:47:01
Chato esse negócio de preconceito.
nov 21, 2011 @ 14:06:46
Bem interessante sua postagem sobre a Consciência Negra.
Abçs
nov 21, 2011 @ 14:08:54
Eu não serei hipócrita de dizer que nunca tive preconceito de nada. Lendo seu post, na verdade, lembrei de duas situações: a da loira burra (quem nunca?) e eu mesma já ter passado pela sensação de alívio que é olhar pra trás e ver que não é o estereótipo de assaltante me seguindo. Faz a gente se sentir mal, mas é verdade.
Não tento me justificar, mas a minha história é a seguinte: eu passei por pelo menos 12 assaltos na minha vida. Nenhum deles foi à mão armada, uma das vezes eu caí na porrada com o assaltante e só em uma delas eu realmente perdi pertences, pois estava cercada. Em todas as vezes, por incrível que pareça, foi o mesmo tipo de pessoa: negro, de boné, havaianas, blusa pólo listrada. Por um tempo, me dava aquela sensação no estômago toda vez que alguém assim se aproximava de mim. Eu chegava a atravessar a rua.
Acredito que isso tenha sido um caso mais de auto-preservação, mas continua sendo um preconceito.
Há muito tempo não sofro um assalto, mas ainda me resta essa sensação. Uma vez, levei um susto daqueles na rua quando uma pessoa apareceu de repente atrás de mim, e esquivei pro lado.
O cara me gritou de filha da puta racista no meio da rua. “Só porque sou preto!”
Mas eu não vou parar e explicar que eu não gosto de pessoas próximas demais a mim na rua, ou que eu sequer vi a cor do indivíduo e esquivar foi só um instinto.
Mas o que mais me chateia foi a vez que vi um moço, negro, correndo só de bermuda e chinelo, passar por mim e me passar na minha cabeça que era assaltante. Me corrigi: “Que preconceito! Ele podia ser só um moço com pressa. Não devo pensar assim.” Quando andei um pouco mais, uma velhinha estava estatelada no chão, com várias pessoas a amparando, balbuciando que o bandido tinha levado sua bolsa.
Ele era um assaltante e meu preconceito se provou certo naquele momento. Que bosta.
Bem, se eu tivesse sido assaltada por um branco, por um velho, ou qualquer outra coisa, eu também teria reservas quanto a esse tipo de pessoa, da mesma forma que pessoas atacadas por cachorros acabam ficando com medo de cachorros. Pra mim, a cor da pele de alguém não quer dizer nada. Mas o estereótipo e o medo ficam por experiência própria, e isso é uma merda. Acho que talvez o ser humano não tenha como se livrar de seus preconceitos totalmente. É instintivo.
Ainda acho que alguém dizer que não gosta de viado porque acha que é errado aos olhos de deus ou alguma coisa assim pura babaquice. É puro preconceito cultural e vontade enrustida de se meter na vida dos outros. Bem, eu já ouvi também gente (que eu e você conhecemos) dizer que eu poderia ter horror à lésbica se uma delas tivesse infernizado minha vida, e que portanto, ela tinha todo direito de dizer por aí que odeia héteros por fazerem ela se sentir infeliz e diferente. Bem, eu sou hétero, não tenho problema com ninguém que seja diferente e ainda assim tenho que ouvir que tenho que ler essas coisas calada porque homossexuais sofrem todos os dias com homofóbicos. Se eu não pratico esse ódio, porque tenho que sofrer a retribuição disso?
Da mesma forma, eu nunca poderia dizer pro cara que me xingou na rua que ele tem que ficar quieto porque eu estou só me auto-preservando. É um absurdo.
Mas e se fosse um executivo de terno atrás de mim aquele dia? Isso nunca teria sido considerado preconceito, só um susto comum.
Então, no fim das contas, preconceito todo mundo pratica e sofre ao mesmo tempo, sem uma razão necessariamente lógica. É uma merda mesmo.
Desculpe ter feito seus comentários de confessionário, mas é que o post realmente me fez pensar.
nov 21, 2011 @ 14:36:19
“Mas o estereótipo e o medo ficam por experiência própria, e isso é uma merda.” Exatamente, esse é o ponto da questão quando se trata de julgar a partir de uma experiência. E a experiência própria às vezes é uma experiência adquirida de outras pessoas. Mas nesses casos de violência urbana, a experiência é sempre muito forte, e tendemos a tomar aquela exceção pelo todo, acabamos por generalizar (pelo medo instintivo mesmo) e daí vem o preconceito velado. Sabemos que é errado, mas julgamos assim. É complicado, mas com muito esforço dá pra desconstruir no cérebro essas associações.