Resenha de “Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário”, da Tarja Editorial
04 out 2011 3 Comentários
por Alliah em Resenha Tags:alexandre lancaster, antonio luiz m. c. costa, claudio villa, fábio fernandes, flávio medeiros, gianpaolo celli, jacques barcia, resenha, roberto de sousa causo, romeu martins, steampunk, tarja editorial
O livro “Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário” foi lançado pela Tarja Editorial em 2009 e reuniu uma excelente trupe de escritores. Como a obra já foi resenhada por vários blogueiros interwebz afora, minha resenha vai ser um pouquinho diferente do comum. Aquele típico resuminho explicativo sobre o conteúdo de cada história que vem antes das opiniões/críticas de cada resenhista não vai aparecer aqui. Se você tá chegando agora meio perdido nesse estranho mundo chamado fandom e não conhece nenhum dos contos desse livro (shame on you!), vai dar uma googlada por aí e se inteirar.
Vamos começar pela capa, de Marcelo Tonidandel e Verena Peres. (Como já farei a resenha dos contos aqui, a resenha da capa vai ser bem breve e objetiva e não vai pro Resenhando Capas. Mas depois dá um pulinho lá e se inscreva pra receber as atualizações.)
Começando pelas cores. O clássico café envelhecido oscilando entre tons de amarelo e marrom caiu bem. Cheira a antiguidade sem soar precário. O fundo manchado é bonito, porém a textura rugosa que aparece no topo e na base poderia ter sido mais bem trabalhada (ou até mesmo eliminada por outros padrões de mancha. Um papel enrugado seria mais adequado). O mesmo vale para a arte do título. As cores estão fortes e funcionam, mas a iluminação falhou. A máquina em destaque no canto inferior esquerda é o ponto alto. A nitidez detalhada do desenho em sépia escuro acinzentado formou uma combinação que poderia ter sido aproveitada para outras ilustrações, ou numa única ilustração central e mais detalhada ainda. É minha parte favorita da capa. Os três personagens no centro possuem traços suaves demais, como se alguém tivesse exagerado no esfuminho. O sombreamento parece desfocado. Faltou dureza. O dirigível no topo está bem feito e bem posicionado. No conjunto a capa funciona e vende o que promete, mas os detalhes mencionados poderiam ter sido melhor trabalhados.
Agora vamos aos contos. Vou seguir a ordem que as histórias aparecem no livro, e dizer o que mais me chamou a atenção em cada uma.
A primeira história é “O Assalto ao Trem Pagador”, do autor e organizador da coletânea Gianpaolo Celli. As descrições são detalhadas sem pecarem pelo excesso, o que é difícil de se alcançar num gênero tão visual e fashionista. Aliás, lembro da Lidia Zuin comentando no Twitter esses dias sobre o steampunk ter se afastado da literatura pra virar uma exposição de bugigangas. Concordo. Porém, nesse conto (e em toda a coletânea), vemos o que é o steam bem aproveitado na literatura. Diálogos muito bem construídos, que a mim pareceram o mais importante nessa narrativa e até ofuscaram a cena de ação retratando um conflito armado. O final da história é tão carismático quanto os protagonistas.
O segundo conto do livro é de autoria de Fábio Fernandes. “Uma Breve História da Maquinidade” varre anos históricos e gerações com um ritmo na medida certa. O clássico desenvolvimento de uma tecnologia e suas implicações na sociedade aqui foram levados a outro patamar. Autômatos que se rebelam são muito mais interessantes que autômatos subservientes. E que delícia a parte onde as máquinas se juntam aos operários franceses na Comuna de Paris, pedindo igualdade de direitos, e se autodenominam Maquinidade. O final da história é agitado e revela uma ótima surpresa. Mais alguém acha que esse conto merece ser estendido, adaptado num roteiro e transformado em HQ?
O próximo conto é “A Flor do Estrume”, de Antonio Luiz M. C. Costa. O que salta aos olhos aqui é quase que uma questão estética. Linguagem indígena e muitos matizes de cores de pele e etnias. É bom se deparar com essa diversidade num gênero que, em sua maioria, se enclausura na Europa. As referências são interessantes também. Brás Cubas e Quincas Borba dão o ar da graça. E essa personagem doutora Chel que eu sempre leio doutora Cher, gente? Sofro de dislexia queer, só pode… Gostei de como a ciência é retratada, instigante, ambivalente, humanista e louca por dinheiro. E falando em dinheiro, o final é divertidíssimo graças ao desespero do protagonista ao ver sua futura fortuna indo embora. Mas ele resolve a situação. Muito bem resolvida.
Depois vem “A Música das Estrelas”, de Alexandre Lancaster, e a primeira coisa que você precisa saber sobre o conto é: pré-adolescentes inteligentes, espertos, sacanas e maliciosos. Sem falar numa simples, porém divertida, exploração de física e biologia básicas. Com direito a uma armadura robusta a la homem de ferro. A história começa meio fraca, mas depois que deslancha, só vai melhorando e melhorando. Curti bastante o resultado.
Roberto de Sousa Causo participa da coletânea com o conto “O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire”. A história é muito bem escrita. A trama foi bem arquitetada e não deixa furos. A linguagem é excelente, mas no conjunto total, a narrativa me pareceu cansativa. Pode ser gosto pessoal. Militares me dão sono. O personagem que dá vida a Santos Dumont, porém, me cativou bastante.
Em seguida vem “O Dobrão de Prata”, de Claudio Villa. Essa história puxa para o terror de maneira muito bem feita. E tem escafandros! Adoro escafandros! A narrativa é fluida. Parece que você tá numa taverna, bebendo uma caneca de qualquer coisa barata e ouvindo um velho lobo do mar meio bêbado contando suas histórias. Lendas de maldição envolvendo tesouros são sempre instigantes. E quem mais quando leu Insmouth pensou “Cthulhu!” dá aqui um high five!
O próximo é o meu preferido da coletânea, “Uma vida possível atrás das barricadas”, de Jacques Barcia. E puxo a sardinha pro meu gênero favorito mesmo. Weird! Um casal formado por uma golem e um autômato, o quão inusitado e maravilhoso isso consegue ser? A história é envolvente e tem toda a textura sinestésica que o weird deve ter. A beleza decadente da cidade-máquina é revolucionária sem parecer caricata. E que ótima a passagem em que a golem precisa dar corda no marido autômato, lubrificando as engrenagens com manteiga ou banha de porco! Também é incrível o engenhoso experimento para fazer com que o casal possa ter um filho. Agora vou fazer um apelo público: JACQUES BARCIA Y U NO ESCREVENDO E PUBLICANDO WEIRD EM BOM E VELHO PORTUGUÊS?
Em seguida vem o conto “Cidade Phantástica”, de Romeu Martins, que prova que Niterói só consegue ser um lugar interessante quando retratada numa ficção. João Fumaça é um dos melhores personagens do livro. Btw, o nome simples, objetivo e bem brasileiro é perfeito. (Também não dá pra esquecer a fofura daquele boneco do personagem que foi sorteado uns tempos atrás no blog do Romeu, de mesmo nome desse conto). Aqui, assim como no conto do Gian, os diálogos se destacam. E devo dizer que as palavras, expressões e pequenas frases em inglês foram cuidadosamente encaixadas sem que soasse pedante ou supérfluo. Mas como eu adoro um desastre, fico imaginando a dimensão dos danos que a arma (mais perigosa do mundo) teria causado se nosso herói João Fumaça não tivesse impedido…
O último conto é de Flávio Medeiros. “Por um Fio” não poderia ter um título mais adequado. A narrativa é intimista e histórica, ao mesmo tempo em que se sustenta por uma tensão militar que deixa a gente grudado até o desfecho. Fechou a coletânea de forma magistral.
Dados Técnicos:
Autoria: Vários Autores – Org. Gianpaolo Celli
ISBN: 978-85-61541-14-9
Páginas: 184
Formato: 14x21cm
Ano: 2009
A obra na Tarja Livros.
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out 04, 2011 @ 18:08:07
Adorei a resenha, Alliah. Não pela menção merchan que você fez a mim (HAUHAUAHUAH ADOREI A SINCERIDADE NO TWITTER), mas porque curti a forma como você criticou os contos e mesmo a capa – nunca tinha visto isso antes, mas talvez seja pq eu quase nunca leio resenha. Fiquei curiosa para ler vários dos contos, principalmente o do Claudio e do Jacques.
out 04, 2011 @ 21:17:38
Ótima resenha, dona Débora
E tenho mesmo alguma coisa com Niterói, cidade que nem conheço… Uma continuação do Cidade Phantástica se passa lá (melhor dizendo, ai): “Modelo B”, que saiu na revista on-line do Conselho, a Vapor Marginal. Outro conto, que não tem nada a ver com steampunk e vai sair na VII Demônios – Soberba – Lúcifer já tem como título “Algo baixou em Niterói”… Brigado, beijos!
out 05, 2011 @ 21:18:31
“Dislexia queer.” AMAY.