Crônicas de um Astrobiólogo – Parte VII
Ainda não sei por quanto tempo ficamos presos naquela saleta branca, sem nenhuma noção de nada. Já estava me acostumando à solidão compartilhada, ao silêncio, ao infinito enclausurado. Lucas, apático, nunca saía de seu canto, e pensava eu que já estava começando a enlouquecer, balbuciando e murmurando palavras desconexas e irreconhecíveis. Mais um pouco, e não saberíamos distinguir a fantasia do real, e talvez até mesmo nossas memórias se apagassem.
E seguiríamos nessa angústia muda se não tivessem aberto a porta com estrondo e nos arrancado dos devaneios insanos aos quais estávamos imersos. Fora como alguém me puxando com força pela camisa para fora do oceano, de volta à vida.
— Levantem-se! – um homem ordenou, embora seu tom autoritário tremesse com desconfiança e medo.
— Sigam-me!
Não encontrei motivos para desobedecer, e imagino que Lucas tenha pensado o mesmo. Acompanhamos o homem misterioso para fora da saleta, e demos num corredor amplo. Tudo parecia muito limpo, polido, cores claras, iluminação intensa. E apesar da imagem impecável, era como se estivéssemos num complexo laboratorial abandonado, completamente fantasma.
Andamos por alguns minutos por caminhos que pareciam sempre iguais. O homem a nossa frente mantinha o passo firme e veloz, tínhamos que quase correr para acompanhá-lo a tempo de não nos perdermos.
Consegui vislumbrar algumas portas entreabertas, revelando parte do conteúdo enigmático de seus aposentos. Alguns aparelhos metálicos abandonados, mesas de azulejos, torneiras enferrujadas, centenas de potes de plástico e sacos jogados pelo chão, numa confusão entre tubos, cabos e líquidos coloridos. Um silvo como o de um réptil ecoava vez ou outra. Alguma engrenagem milenar rangendo das entranhas de seu mecanismo danificado.
— No começo não sabíamos o que fazer com vocês, – o homem começou a falar, sem nem mesmo virar o rosto para trás. Os cabelos negros e curtos bagunçados. – por isso resolvemos mantê-los na sala de isolamento durante um curto período. Motivos de segurança, não podíamos nos expor à espécimes que vieram da superfície.
— Espécimes? – perguntou Lucas. – Por acaso somos diferentes de você?
— Acredito que pertencemos à mesma espécie, somente quis enfatizar que não conhecíamos o grau de infecção que vocês poderiam ter sofrido, ou mesmo de fusão celular, tissular ou até mesmo sistemática.
— Do que diabos você tá falando? – era a minha vez de perguntar.
— Estou falando que vocês são estranhos que apareceram no nosso território de repente! – ele respondeu impaciente. – Estamos perto, agora, apenas mais alguns passos.
Eu já estava prestes a perguntar perto da onde quando chegamos a uma enorme porta de aço. Parecia um tipo de passagem de isolamento, que mantém uma área completamente separada da outra em caso de acidentes e emergências. Ele aproximou-se de uma pequena câmera circular acoplada na parede. Alguém do lado de dentro identificou-o e acionou algo que fez a enorme porta ranger e sibilar enquanto abria-se. Era tão grossa quanto uma jibóia recém-alimentada, e deixou escapar uma esparsa névoa branca que se arrastou pelo chão, enquanto entrávamos no aposento protegido.
Parecia um gigantesco salão. Estendia-se até onde a visão alcançava, e o teto era uma abóbada quase cavernosa. Senti-me num santuário. Algumas pessoas, ao fundo, conversavam, enquanto outras se preocupavam com uma projeção holográfica que me pareceu um mapa militar do planeta em que estávamos. Assim que perceberam que eu e Lucas havíamos entrado, as vozes cessaram e todos os olhares nos fuzilaram.
O homem que nos servira de guia havia descido uma pequena escada para a parte principal do salão, e um outro se aproximava com um sorriso amigável. Era um pouco mais velho, com alguns fios brancos despontando nas têmporas, e sutis rugas de expressão formando-se nos cantos dos olhos.
— Olá, sortudos!
— Sortudos? – indagou Lucas, não sabendo se ficava puto ou se gargalhava. – Caímos num planeta-depósito infestado de alienígenas macabros e assassinos, nosso cargueiro está quebrado, nos enfurnamos numa caverna fedorenta, somos capturados por malucos e mantidos em prisão e você nos chama de sortudos?!
— Lucas, relaxa, ao que parece eles não são hostis… – eu comecei. – …e não é muito educado chegar na casa de alguém chamando essa pessoa de maluca!
— Não tem problema, rapaz, não me senti ofendido! Entendo perfeitamente a situação de vocês! Mas não sabia que eram trabalhadores de um cargueiro! Achei que fossem viajantes perdidos e que tivessem caído neste planeta por engano! Há tempos que não usam mais o PD-023 como destino do lixo terráqueo!
— Que porra é essa que você tá falando? Como assim não usam mais esse planeta? Eu e minha equipe fomos enviados pra cá com ordens muito claras!
— Aconteceu algum mal-entendido, meu jovem. Esse mundo está abandonado à própria sorte!
— Esperem aí! – eu interrompi. – Quer dizer que vim parar no meio dessa merda toda por engano? Ah, ótimo, lá se vai minha carreira que já não era tão promissora assim. Maravilha, sempre quis morrer num planeta-lixeira!
— Você não é um trabalhador do cargueiro?
— Ah, não, claro que não… Sou um astrobiólogo, estava apenas de passageiro clandestino… Meu destino real era a lua Europa!
No momento que revelei ser um cientista, todos largarem seus afazeres imediatamente e aproximaram-se. Só então pude reparar que a maioria usava jalecos e outros equipamentos de proteção. Reconheci alguns aparatos de pesquisa organizados em mesas ali perto, e algumas equações familiares rabiscadas nos quadros digitais que se espalhavam pelas paredes.
— Por acaso você é o cara designado para estudar a vida marinha de Europa? – uma mulher de cabelo ruivo encaracolado perguntou-me.
— Sim, eu mesmo, sou Arthur Fox!
Fiquei impressionado com a reação das pessoas, parecia que todos conheciam meu nome e meu trabalho! E eu sequer havia ouvido falar num centro de pesquisas subterrâneo num planeta-depósito!
— Está explicado porque vocês foram mandados pra cá… – a mulher falou, olhando para Lucas. – foi uma armação! Sabiam que o Arthur estava a bordo, e enviaram vocês para morte! Seria o plano perfeito, vocês desapareceriam aqui e ninguém nunca saberia do paradeiro do cientista!
— E por que infernos alguém quer que eu morra? – eu perguntei, assustado.
— Uma longa história, cara… – respondeu o homem que nos recebera sorridente. – Mas acho que não temos pressa aqui embaixo, não é? Deixe-me que eu me apresente primeiro. Meu nome é Lúcio, e sou um astrônomo. Todos aqui nesta sala são cientistas ou engenheiros, mas como pode ver, somos poucos agora. A maioria de nós sucumbiu à praga alienígena que assolou o planeta, e estão mortos. Conseguimos sobreviver e nos isolar, porque tivemos a mesma sorte que vocês! Seu cargueiro caiu aqui exatamente na época em que os aliens estão no período de reprodução. Por dois meses terrenos, eles permanecem com atividade predatória reduzida. Os machos ocupam-se apenas de cortejar as fêmeas, e estas ficam de camarote assistindo ao desfile dos pretendentes, para então escolher apenas um e procriar. Nós aqui do Extreme Science Research Facility tivemos a sorte de agir nessa época, há dois anos. Lacramos algumas zonas do centro subterrâneo, e nos isolamos do exterior. Por isso o nosso medo e desconfiança ao achar vocês dois jogados em frente a uma de nossas portas de entrada!
— Por favor, não me digam que isso foi tudo culpa de algum vírus maluco e que há zumbis alienígenas aí fora! – exclamou Lucas.
Os cientistas riram.
— Não, não se preocupe. Não há zumbis por aqui.
— Mas por que construiriam um centro de pesquisas num planeta desses? – eu perguntei.
— Bem, assim que descobriram que algo estava causando um processo evolutivo absurdamente mais veloz, foi necessário trazer alguns laboratórios para cá. Com o tempo, algumas empresas resolveram investir nas pesquisas, e antes que pudéssemos perceber, estávamos com esse centro enorme construído na pedra, com centenas de cientistas de todas as partes do universo próximo! Obviamente que algo com esse potencial deveria ser mantido em segredo, e foi o que aconteceu. Por isso você não sabia da nossa existência…
— Mas vocês sabem da minha, e do meu trabalho em Europa…
— Inevitável que não conheçamos o cientista que foi escolhido para essa empreitada épica! Algumas empresas que colocaram dinheiro aqui, também planejaram colocar dinheiro em você!
— E infelizmente são os mesmos filhos da puta que nos abandonaram de encontro à morte! – falou um cara magrelo de cabeça raspada e tatuagem tribal no rosto, um símbolo em formato de serpente que ia da bochecha direita até acima da sobrancelha.
— Eu ia perguntar isso, o que aconteceu por aqui, afinal? – indagou Lucas.
— É, tem muita coisa nessa história que não tá se encaixando… – comentei. – O que o meu trabalho em Europa tem a ver com o trabalho de vocês aqui sobre essa evolução acelerada? E qual o envolvimento dessas corporações com aqueles monstros lá de cima?
Continua…




Narlayne disse,
Novembro 4, 2009 às 1:26 am
Você gosta de me deixar curiosa heim!
Bruno Mattos disse,
Novembro 5, 2009 às 12:27 am
Hein, hein!! Tá muito foda isso, alliah !! =)