Crônicas de um Astrobiólogo – Parte VI
Minhas mãos esfoladas agarravam cada protuberância de rocha que eu conseguia enxergar. Eu não conseguia pensar em mais nada além da poeira escorrendo por entre meus dedos e do possível desmoronamento daquela coluna, levando-nos para o fundo do abismo. Lucas parecia divertir-se, talvez porque tivesse certa habilidade naquilo. Parecia um macaco, ou um polvo, com movimentos velozes e firmes, fazendo contorções que eu sequer tentaria, apoiando-se nos melhores degraus naturais e descendo com a mesma facilidade com que alguém desce uma ladeira.
Ele devia olhar pra minha cara de apavorado e rir interiormente. Eu preocupava-me que o perdesse de vista, mas ele sempre me esperava quando ia muito rápido. As luzes de nossos capacetes começaram a piscar intermitentemente, e a diminuir de intensidade. E ainda não havíamos vislumbrado nem uma nesga do solo. A escuridão era imensa, e já havíamos descido por quase meia hora, sem descansar, e num ritmo razoavelmente acelerado.
— Vamos mais rápido antes que a lâmpada morra. – disse Lucas.
— A lâmpada?! – eu exclamei. – Eu to preocupado que eu vá morrer, e não a porra da lâmpada! Essa sua idéia maluca de descer o precipício foi só pra consumir mais rápido nosso pouco oxigênio restante e pra que morrêssemos de maneira indolor, certo? Pode admitir! Porque se cairmos daqui, assim que nossos crânios chocarem-se com o solo lá embaixo, terá pedacinhos de cérebro humano espalhados num raio de cinqüenta quilômetros!
Ele parecia nem me ouvir mais, e eu continuei resmungando por mais uns cinco minutos, até que as luzes finalmente apagaram-se. Eu estanquei na posição que estava imediatamente, fincando as unhas na rocha com o máximo de força que ainda possuía. Lucas aparentemente fizera o mesmo.
— Certo, temos que ir bem devagar agora. – ele começou dizendo. – Sinta o relevo, não tenha pressa. Se você fechar os olhos e apalpar a rocha, vai perceber que conseguirá formar uma imagem tridimensional dela na mente e poderá descer com mais segurança.
— Você tá de sacanagem, né? – eu retruquei.
Dessa vez eu era o afobado desesperado, e não estava com a mínima paciência pra ficar alisando pedra. Era uma maldita roleta-russa! E já que estávamos à beira da morte de um jeito ou de outro, preferi seguir meus instintos (um tanto quanto suicidas, diga-se de passagem) e fui descendo sem tentar saber onde eu deveria por ou não os pés e as mãos. Por sorte, consegui prosseguir por uns dois minutos, e então o pavor me consumiu quando perdi o apoio dos dois pés e fiquei pendurado pelas mãos, que agarravam somente um pedaço muito pequeno e possivelmente frágil de rocha.
Comecei a gritar, e meus pedidos de socorro pareciam preencher a escuridão e reverberar em cada obstáculo que encontrava. Lucas gritou de volta, tentando me localizar e perguntado o que tinha acontecido. Mas antes que eu pudesse explicar, meus dedos suados escorregaram da pedra e eu caí. Senti meu coração subir até minha boca e minhas vísceras achatarem-se até ficarem da finura de uma folha de papel. Gritei com tanta força que não percebi que já tinha caído no solo, e continuava gritando.
Foi então que percebi que a queda fora minúscula, uns dois metros no máximo. Minhas costas doíam, mas eu tava vivo!
— Pode pular, Lucas, o solo é logo aqui! – eu exclamei, entusiasmado.
Ele pulou, e caiu ao meu lado, esbarrando na minha perna.
— Viu, eu disse que seria interessante se descêssemos o abismo…
— Mas estamos sem luz, não sabemos o que diabos existe aqui embaixo. – eu falei. – Se tivéssemos trazido nossas lanternas de reserva…
— Quem são vocês?!
Uma voz estranha e autoritária percorreu a escuridão. Eu e Lucas silenciamos na mesma hora, e vasculhamos as redondezas com os olhos, inutilmente, já que naquele breu era impossível distinguir algo. Num instinto de medo, seguramos nossas mãos e permanecemos juntos, preparados para o que quer que estivesse por perto. Não ousamos responder a voz, mas apenas esperamos que o estranho se revelasse.
Foi então que um clarão branco cegou-nos quase que instantaneamente. Nossas pupilas, que estavam dilatadas no escuro, absorveram de uma só vez uma gigantesca quantidade de luz. Nossos olhos doíam. Fiquei agoniado que não podia tocar meus olhos com as mãos por causa do capacete acoplado à mangueira do tanque de oxigênio. Mas não tive muito tempo pra fazer mais nada, pois um par de mãos enormes agarrou meus braços e me puxou com violência. Senti-me arrastado como um saco de lixo qualquer, lanhando a roupa no solo irregular, até que uma mudança brusca de temperatura e de relevo atingiu meu corpo. Ouvi um barulho de metal raspando metal, e uma onde de ar gelado invadiu minhas percepções. O solo não mais era pontiagudo e poeirento, mas sim liso e limpo ao toque.
Ainda com os olhos doendo, e o clarão direcionado diretamente para o meu capacete, não fui capaz de perceber onde estava, e antes que pudesse tentar ver se Lucas fora arrastado também, algo bateu com força na minha cabeça e eu desmaiei.
Acordei meio tonto, e ainda tentando acostumar meus olhos com a claridade. No começo eu via tudo embaçado e deslocado, e somente uma parede branca se estendia no meu horizonte. Olhei para os lados e tudo era branco. Então enxerguei Lucas sentado num canto do que parecia ser uma sala pequena. Quando levantei, quase perdi o equilíbrio. Estava sem o tanque de oxigênio, portanto, muito mais leve. E ali a gravidade parecia ser a mesma da Terra.
Lucas estava encolhido, abraçando as pernas. Seus olhos muito abertos pareciam perdidos. Nós dois estávamos com nossas roupas, mas sem o capacete, o tanque, e os pequenos aparatos de exploração que trazíamos na cintura.
— O que é isso? Um hospício? – eu perguntei.
— Você lembra de alguma coisa? – ele indagou, ignorando minha primeira pergunta.
— Lembro de alguém me batendo na cabeça. – eu respondi, enquanto levava a mão à nuca, procurando um galo.
— Eu também. E depois… isso.
Sentei-me ao seu lado.
Na parede em frente, distinguimos o contorno de uma porta com um pequeno espelho quadrangular na parte superior. Imaginei que fosse um daqueles vidros que usam em salas de interrogatório policial. Estaria alguém nos observando lá de fora?
Continua…



