Crônicas de um Astrobiólogo – Parte V

Setembro 12, 2009 at 6:38 pm (Uncategorized)

Passamos o o resto da tarde sentados na entrada da caverna, escondidos por um muro de rochas que nos rodeavam tal qual um iglu sem teto. Era o máximo que poderíamos fazer naquelas condições. Nossos tanques de oxigênio já passavam da metade e durariam apenas mais algumas horas. Nossas armas estavam sem munição. Nosso cargueiro era apenas uma lata velha gigante tombada no meio da planície desértica, e não tínhamos acesso a nenhum tipo de comunicação. Eu comecei a pensar seriamente que morreria naquele planeta, e seria devorado por aquelas criaturas esquisitas. Meu corpo seria consumido por uma espécie nova que eu sequer tive a oportunidade de estudar. Vocês tem noção do quanto isso é frustrante?

— E agora? O que faremos? – perguntei pro cara loiro.

— Sei lá, cara. – ele respondeu num misto de desânimo e raiva. – Podemos nos esconder mas não temos pra onde fugir. Precisamos achar uma saída!

— Ou consertar o cargueiro milagrosamente.

— Mais provável que cresçam asas a partir de nossas omoplatas e saiamos voando daqui até o planeta habitado mais próximo. – ele resmungou.

— Olha, um pouquinho de otimismo faria muito bem agora, sabia?

— Não temos nem por onde começar!

— Temos uma caverna! – eu exclamei.

Minha intenção era dizer que possuíamos um abrigo, mas no momento que eu disse isso, percebi que não estávamos completamente perdidos, afinal.

— Ei, temos uma caverna! – eu repeti, dessa vez incrivelmente entusiasmado.

— É, eu entendi da primeira vez que você disse, não precisa repetir. Eu to pessimista, não surdo.

— Não, cara, eu to querendo dizer que ainda não exploramos a caverna! Quem sabe onde ela pode levar? Eu entrei apressado e não vasculhei até onde ela vai, mas lembro que o fundo era bem longo, e não consegui enxergar uma parede final. Talvez ela corra por baixo do planeta e nos tire daqui, ou nos leve a algum recanto mais seguro.

— Ah sim, claro. Vamos explorar a caverna, andar por horas entre corredores úmidos, escuros, fedorentos e estreitos, nos agachando e nos arrastando que nem vermes, apenas pra chegar no final e perceber que tudo que fizemos foi mudar nosso local do túmulo. Bem, pelo menos já estaremos enterrados quando morrermos.

— E você tem uma ideia melhor, engraçadinho? – indaguei, irritado. – Se você quer ficar aqui e esperar a morte, ótimo. Mas eu vou me mexer. A lanterna dos nossos trajes ainda funciona e o caminho é estreito mas é o suficiente pra que consigamos passar mesmo com nossos tanques de oxigênio nas costas.

— Ah, que se foda. – ele resmungou, dando de ombros. – Vamos logo.

Claro que eu estava um tanto quanto otimista, pois havia apenas me abrigado no comecinho da caverna e não tinha a menor ideia de como ela seria dali pra frente. Os espinhos rochosos no teto eram perigosos, e nos arrastamos com extremo cuidado. Se ficássemos sem ar ali dentro, seria uma morte dolorosa, lenta e agonizante.

A lâmpada do capacete era fraca, mas o feixe de luz branca que iluminava apenas dois palmos a frente já nos fornecia uma noção de direção e orientação espacial. Era tudo que necessitávamos pra não darmos de cara com a parede ou andarmos em círculos, se é que isso seria possível naquele corredor minúsculo.

O solo era levemente inclinado, num ângulo tão sutil que mal percebemos que a cada metro nos aproximávamos mais e mais das entranhas do planeta. Por duas longas e cansativas horas, percorremos caminhos tortuosos, que ora alargavam-se ora estreitavam-se. A umidade deixava as paredes sempre brilhantes com gotículas d’água. E ainda não havíamos encontrado um animalzinho sequer ali dentro. Nenhum inseto, nenhum verme, nada. Obviamente nunca acharíamos seres terrenos, mas eu pensava que a bioespeleologia extraterrestre seria muito semelhante à nossa, até mesmo pelas condições geológicas do lugar.

Arrastamo-nos persistentes. Eu seguia na frente, e já podia ouvir Lucas, o meu mais novo compaheiro de tragédia, arfando com certa dificuldade atrás de mim. O silêncio e a acústica do local favorecia que os mais estranhos e pessoais ruídos se fizessem ecoar por toda a extensão da caverna. Já nos acostumáramos ao zumbido agudo dos tanques de oxigênio e o som arrastado da roupa friccionando o solo.

Nossos músculos estavam cansados, e eu já podia sentir o acúmulo de ácido láctico prestes a provocar uma maldita câimbra, quando estanquei repentinamente. Lucas quase colidiu comigo, e me xingou por não tê-lo avisado da parada. Eu estava boquiaberto e completamente sem palavras. Até mesmo minha respiração fora interrompida por alguns segundos. Minhas mãos agarravam com uma força descomunal um conjunto de rochas que beiravam um gigantesco precipício negro. O corredor que percorríamos desembocava num abismo sem fim. Tudo que minha lanterna fraca podia iluminar agora era o nada.

Lucas arrastou-se com certa dificuldade para o meu lado, aproveitando que naquele final o corredor abria-se um pouco, e quase caiu. O afobado quis passar com pressa, e se eu não o segurasse por instinto, ele teria despencado precipício abaixo e caído sabe-se-lá onde.

— Caralho! – ele gritou após quase agarrar-se a mim de desespero.

— Acho que finalmente chegamos ao fim. – eu murmurei quase inaudivelmente.

E Lucas teria concordado com toda a sua bagagem pessimista, aproveitando pra esfregar na minha cara que aquela empreitada não adiantara de nada, se ele não tivesse vislumbrado por meio minuto uma estranha luz verde percorrendo o fundo do abismo. Eu consegui olhar a tempo, e só percebi o vulto esverdeado desaparecendo aos poucos. Rapidamente minha mente de astrobiólogo percorreu uma enciclopédia mental de seres cavernícolas que poderiam possuir bioluminescência, mas nenhum me veio à mente que possuísse uma luz verde tão forte e intensa que se fazia visível mesmo a centenas de metros de distância, nem que se movesse tão veloz.

— Olha, cara, as rochas formam degraus! – Lucas me gritou enquanto ele abaixava-se perigosamente na beirada, inclinando o corpo pra frente e apalpando a parede do abismo. – São irregulares e pontiagudas, perfeitas pra escalada!

Eu olhei assustado para o fundo do precipício, e depois de volta pra cara entusiasmada dele e perguntei:

— Você não tá querendo insinuar que nós vamos descer isso, né?

— Eu já me conformei que vou morrer aqui dentro. E já que não tem mulher aqui, quero morrer fazendo alguma outra coisa emocionante. – ele respondeu, enquanto preparava-se pra descer.

Fui tomado por um pânico repentino, mas não pude deixar de admitir interiormente que também estava deveras curioso pra descobrir a origem daquela luz verde. E o que mais poderíamos fazer, afinal?

Continua…

5 Comentários

  1. Thays disse,

    Parabens pelo seu blog! na verdade nao li esse teu texto, li o “Biografia de uma menina de 17 anos, por ela mesma” muito bom apesar de eu nao ter mais meus 17 anos me identifiquei mto com vaaaarias coisas que voce disse!

    • Alliah Art Insane disse,

      Obrigada! =)

      Aquela biografia foi um dos textos mais sinceros que eu já escrevi. É legal ver como tem pessoas que se identificam! =D

      Ahh e eu tbm já passei dos 17, finalmente alcancei os 18! Haha (nossa, quanta diferença XD)

  2. Narlayne disse,

    Kct tô adorando isso!

  3. simone disse,

    vc escreve mto bem!
    parabens!

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