Crônicas de um Astrobiólogo – Parte V
Passamos o o resto da tarde sentados na entrada da caverna, escondidos por um muro de rochas que nos rodeavam tal qual um iglu sem teto. Era o máximo que poderíamos fazer naquelas condições. Nossos tanques de oxigênio já passavam da metade e durariam apenas mais algumas horas. Nossas armas estavam sem munição. Nosso cargueiro era apenas uma lata velha gigante tombada no meio da planície desértica, e não tínhamos acesso a nenhum tipo de comunicação. Eu comecei a pensar seriamente que morreria naquele planeta, e seria devorado por aquelas criaturas esquisitas. Meu corpo seria consumido por uma espécie nova que eu sequer tive a oportunidade de estudar. Vocês tem noção do quanto isso é frustrante?
— E agora? O que faremos? – perguntei pro cara loiro.
— Sei lá, cara. – ele respondeu num misto de desânimo e raiva. – Podemos nos esconder mas não temos pra onde fugir. Precisamos achar uma saída!
— Ou consertar o cargueiro milagrosamente.
— Mais provável que cresçam asas a partir de nossas omoplatas e saiamos voando daqui até o planeta habitado mais próximo. – ele resmungou.
— Olha, um pouquinho de otimismo faria muito bem agora, sabia?
— Não temos nem por onde começar!
— Temos uma caverna! – eu exclamei.
Minha intenção era dizer que possuíamos um abrigo, mas no momento que eu disse isso, percebi que não estávamos completamente perdidos, afinal.
— Ei, temos uma caverna! – eu repeti, dessa vez incrivelmente entusiasmado.
— É, eu entendi da primeira vez que você disse, não precisa repetir. Eu to pessimista, não surdo.
— Não, cara, eu to querendo dizer que ainda não exploramos a caverna! Quem sabe onde ela pode levar? Eu entrei apressado e não vasculhei até onde ela vai, mas lembro que o fundo era bem longo, e não consegui enxergar uma parede final. Talvez ela corra por baixo do planeta e nos tire daqui, ou nos leve a algum recanto mais seguro.
— Ah sim, claro. Vamos explorar a caverna, andar por horas entre corredores úmidos, escuros, fedorentos e estreitos, nos agachando e nos arrastando que nem vermes, apenas pra chegar no final e perceber que tudo que fizemos foi mudar nosso local do túmulo. Bem, pelo menos já estaremos enterrados quando morrermos.
— E você tem uma ideia melhor, engraçadinho? – indaguei, irritado. – Se você quer ficar aqui e esperar a morte, ótimo. Mas eu vou me mexer. A lanterna dos nossos trajes ainda funciona e o caminho é estreito mas é o suficiente pra que consigamos passar mesmo com nossos tanques de oxigênio nas costas.
— Ah, que se foda. – ele resmungou, dando de ombros. – Vamos logo.
Claro que eu estava um tanto quanto otimista, pois havia apenas me abrigado no comecinho da caverna e não tinha a menor ideia de como ela seria dali pra frente. Os espinhos rochosos no teto eram perigosos, e nos arrastamos com extremo cuidado. Se ficássemos sem ar ali dentro, seria uma morte dolorosa, lenta e agonizante.
A lâmpada do capacete era fraca, mas o feixe de luz branca que iluminava apenas dois palmos a frente já nos fornecia uma noção de direção e orientação espacial. Era tudo que necessitávamos pra não darmos de cara com a parede ou andarmos em círculos, se é que isso seria possível naquele corredor minúsculo.
O solo era levemente inclinado, num ângulo tão sutil que mal percebemos que a cada metro nos aproximávamos mais e mais das entranhas do planeta. Por duas longas e cansativas horas, percorremos caminhos tortuosos, que ora alargavam-se ora estreitavam-se. A umidade deixava as paredes sempre brilhantes com gotículas d’água. E ainda não havíamos encontrado um animalzinho sequer ali dentro. Nenhum inseto, nenhum verme, nada. Obviamente nunca acharíamos seres terrenos, mas eu pensava que a bioespeleologia extraterrestre seria muito semelhante à nossa, até mesmo pelas condições geológicas do lugar.
Arrastamo-nos persistentes. Eu seguia na frente, e já podia ouvir Lucas, o meu mais novo compaheiro de tragédia, arfando com certa dificuldade atrás de mim. O silêncio e a acústica do local favorecia que os mais estranhos e pessoais ruídos se fizessem ecoar por toda a extensão da caverna. Já nos acostumáramos ao zumbido agudo dos tanques de oxigênio e o som arrastado da roupa friccionando o solo.
Nossos músculos estavam cansados, e eu já podia sentir o acúmulo de ácido láctico prestes a provocar uma maldita câimbra, quando estanquei repentinamente. Lucas quase colidiu comigo, e me xingou por não tê-lo avisado da parada. Eu estava boquiaberto e completamente sem palavras. Até mesmo minha respiração fora interrompida por alguns segundos. Minhas mãos agarravam com uma força descomunal um conjunto de rochas que beiravam um gigantesco precipício negro. O corredor que percorríamos desembocava num abismo sem fim. Tudo que minha lanterna fraca podia iluminar agora era o nada.
Lucas arrastou-se com certa dificuldade para o meu lado, aproveitando que naquele final o corredor abria-se um pouco, e quase caiu. O afobado quis passar com pressa, e se eu não o segurasse por instinto, ele teria despencado precipício abaixo e caído sabe-se-lá onde.
— Caralho! – ele gritou após quase agarrar-se a mim de desespero.
— Acho que finalmente chegamos ao fim. – eu murmurei quase inaudivelmente.
E Lucas teria concordado com toda a sua bagagem pessimista, aproveitando pra esfregar na minha cara que aquela empreitada não adiantara de nada, se ele não tivesse vislumbrado por meio minuto uma estranha luz verde percorrendo o fundo do abismo. Eu consegui olhar a tempo, e só percebi o vulto esverdeado desaparecendo aos poucos. Rapidamente minha mente de astrobiólogo percorreu uma enciclopédia mental de seres cavernícolas que poderiam possuir bioluminescência, mas nenhum me veio à mente que possuísse uma luz verde tão forte e intensa que se fazia visível mesmo a centenas de metros de distância, nem que se movesse tão veloz.
— Olha, cara, as rochas formam degraus! – Lucas me gritou enquanto ele abaixava-se perigosamente na beirada, inclinando o corpo pra frente e apalpando a parede do abismo. – São irregulares e pontiagudas, perfeitas pra escalada!
Eu olhei assustado para o fundo do precipício, e depois de volta pra cara entusiasmada dele e perguntei:
— Você não tá querendo insinuar que nós vamos descer isso, né?
— Eu já me conformei que vou morrer aqui dentro. E já que não tem mulher aqui, quero morrer fazendo alguma outra coisa emocionante. – ele respondeu, enquanto preparava-se pra descer.
Fui tomado por um pânico repentino, mas não pude deixar de admitir interiormente que também estava deveras curioso pra descobrir a origem daquela luz verde. E o que mais poderíamos fazer, afinal?
Continua…




Thays disse,
Setembro 16, 2009 às 6:20 am
Parabens pelo seu blog! na verdade nao li esse teu texto, li o “Biografia de uma menina de 17 anos, por ela mesma” muito bom apesar de eu nao ter mais meus 17 anos me identifiquei mto com vaaaarias coisas que voce disse!
Alliah Art Insane disse,
Outubro 21, 2009 às 10:20 pm
Obrigada! =)
Aquela biografia foi um dos textos mais sinceros que eu já escrevi. É legal ver como tem pessoas que se identificam! =D
Ahh e eu tbm já passei dos 17, finalmente alcancei os 18! Haha (nossa, quanta diferença XD)
Narlayne disse,
Setembro 20, 2009 às 2:50 pm
Kct tô adorando isso!
simone disse,
Outubro 21, 2009 às 8:20 pm
vc escreve mto bem!
parabens!
Alliah Art Insane disse,
Outubro 21, 2009 às 10:18 pm
Obrigada!
=)