Depois do primeiro fim
Observar a superfície arenosa das terras áridas do meu antigo planeta me causa uma certa nostalgia ambivalente. Aqui na Lua o terreno também é pedregoso e acidentado, sem falar do tamanho diminuto, mas posso ter a companhia do meu querido vaso de planta. Essa coisinha verdejante que cresce vagarosa e alcança a pouca luz que por aqui reflete.
Somos poucos agora, uma colônia diversificada, com representantes de cada nação, etnia, sexo e idade. Responsáveis por misturar nossos genes e continuar permitindo que o processo da evolução prossiga em sua caminhada imprevisível Perpetuação da espécie de maneira controlada para que não mais fôssemos acometidos pelo problema da superpopulação, que levaria à escassez dos nossos pouquíssimos recursos. Ainda estamos desenvolvendo projetos para sair daqui e habitar outro planeta, talvez Marte, ou mesmo nos aventurarmos corajosamente em alguma outra lua distante com geologia favorável. Cada vez mais distanciados da Terra…
Bem que eles avisaram que a atmosfera ficaria irrespirável por lá. Assim que as folhas amarelavam e caíam instantaneamente, percebemos que nossas crianças deveriam ir pra escola em ruínas com máscaras de gás. Era meio tragicômico observar aqueles bracinhos e perninhas molengas e ossudas brincando de roda com um enorme aparato macabro cobrindo a cabeça. Fiquei me perguntando se não tínhamos virado alienígenas em nosso próprio planeta. Precisávamos de trajes especiais, cuidados extremados, maravilhosos coquetéis químicos para manter nosso organismo ainda pulsante.
Era pedir demais reduzir nossa desenfreada ganância e não apenas falar, mas efetivar nossos planos de sustentabilidade? Se apenas nós tivéssemos nos extinguido, tudo bem. Mas insistíamos em arrastar todo e qualquer ser vivo inocente conosco. Nessas horas não medíamos esforços solidários, fazíamos questão de que todo mundo compartilhasse da nossa sujeira e dos nossos resíduos tóxicos. Engraçado como a distribuição igualitária de pobreza, fome e miséria foi tão bem sucedida.
Mas agora os que restaram de nossa espécie sobrevivem num satélite, com algumas plantinhas de estimação. Elas nos dão alguma esperança esparsa, um pouco de cor pra brilhar em nossas retinas e acender nossos nervos ópticos. E ainda assim, aquele ponto descolorado ao longe ainda me causa uma pontada de saudades…



