Crônicas de um Astrobiólogo – Parte III
Eu estava em ótima companhia, pelo menos. Aquele pessoal era fruto da marginalidade da Terra, e haviam conseguido a muito custo o emprego de cuidarem da aeronave-cargueiro. Estavam preparados pra qualquer imprevisto, principalmente se envolvesse violência, o que meu coração de biólogo estava prevendo. Cair num planeta-depósito por causas desconhecidas não era boa coisa, ainda mais com um amontoado de lixo tóxico e metabólitos de química estranha misturados lá fora. Eu sentia que corríamos um perigo tremendo.
Não fiquei surpreso quando o pessoal puxou algumas armas automáticas gigantescas dos armários metálicos acoplados às paredes, enquanto ajeitavam na cintura o que me pareceu pequenas bombas de impacto. Alguém jogou uma arma pra cima de mim e eu quase caí pra trás com o peso da maldita. Mas sabia como atirar, apesar de ter uma mira péssima.
Saímos cautelosos do cargueiro, pisando com cuidado. E logo fomos arrebatados pela atmosfera rarefeita em oxigênio. Rapidamente voltamos para dentro da nave e vestimos os trajes de respiração. O tanque de O2 pesando nas minhas costas e me lembrando dos meus 35 anos de idade e músculos cansados. Ora, mas eu poderia agüentar mais uma empreitada daquelas não? Logo estaria mergulhando nas águas gélidas de Europa II e me deparando com criaturas marinhas exóticas e fascinantes. Talvez tenhamos que descer até níveis abissais para achar algo, mas não aceitaria sair daquela lua sem uma prova de que a vida se desenvolvera ali.
Um dos homens, um moreno corpulento de feições carrancudas, estava carregando um tipo de maleta de plástico reforçado, enquanto andava em direção à turbina danificada. Os outros continuaram onde estavam, com as armas empunhadas e os olhos atentos. Eu não sabia o que eles tanto olhavam, porque eu só enxergava montanhas de lixo no horizonte, e o reflexo fraco da luz solar no solo avermelhado. Por alguns instantes, aquele tom rubro me lembrou de Marte, e das minhas férias de infância, que passei com meu tio, falecido dez anos atrás por uma enfermidade. Uma variação grotesca do Ebola terrestre, que por meios duvidosos, alcançou Kronos-7, sofreu uma mutação, e causou uma epidemia terrível. Ainda éramos frágeis seres humanos, como ele bem me disse uma vez. Tão suscetíveis a coisas aparentemente tão insignificantes.
Meu devaneio foi interrompido por um grito desesperado. Todos correram para a direção da turbina traseira, de onde o som partira. E o que encontramos fez meu estômago revirar-se inteiro. O corpulento com expressão de poucos amigos estava estendido no chão, ofegante, e urrando de dor. Suas vísceras estavam expostas, enquanto alguma coisa não-identificada parecia comê-lo vivo, devorando seus intestinos. A mistura de sangue e dejetos nos causou uma repulsa violenta, e nos paralisou por alguns segundos, antes que uma das mulheres disparasse contra a coisa estranha e depois desse um tiro na cabeça do cara, para poupá-lo do sofrimento.
O que quer que tenha atacado ele, agora estava reduzido a frangalhos. Abaixei-me corajosamente, prendendo a respiração, e tentei observar a coisa mais de perto. Parecia um pequeno animal vertebrado, com o corpo que mais parecia uma quimera diferente, uma mistura de aranha, lagarto e morcego. Algo incomum e bizarro. Sua boca abria-se embaixo de um focinho ensangüentado, e apresentava uma fileira de pequeninos dentes recurvados e serrilhados. Suas quatro patas esparramavam-se para os lados, numa postura não-ereta, e possuíam uma membrana translúcida que os ligava de cada lado do corpo. Um misto de penugem e escamas recobria seu corpo aparentemente frágil. Seus ossos deveriam ser finos e sua musculatura, não muito flexível. Seus olhos eram minúsculos pontinhos pretos, uma desproporcionalidade incrível com o focinho e suas narinas grandes e largas. Aquilo me levou a concluir que o animal era praticamente cego e se movimentava e caçava através do cheiro. Mas por que diabos atacara o homem deitado a meu lado justamente no abdômen e avançara por tecido epitelial e muscular até os intestinos?
E, antes de tudo, aquele planeta não era desprovido de vida? O que aquela criatura estava fazendo ali? Era óbvio que podia planar, devido às membranas amplas entre os membros, e foi assim que acidentalmente deve ter atingido a turbina do cargueiro, mas como vida complexa a esse nível se desenvolveu ali? Um planeta que até 10 anos atrás era completamente inóspito! Percebi, então, que tinha um trabalho de pesquisa astrobiológica muito séria em minhas mãos, e havia sido literalmente derrubado pra cima dele.
Continua…



