Crônicas de um Astrobiólogo – Parte II
Era desconfortável e cheirava mal, mas pelo menos eu economizava uma boa grana. O menino sonhador que conhecera Marte durante a infância e se encantara com as pesquisas em desenvolvimento nos centros científicos perdeu uma boa parte desse brilho e agora é um cientista mais ou menos independente que prefere embarcar numa aeronave-cargueiro pagando pouco do que num ônibus espacial com seus bilhetes caríssimos. Eu sabia que aquilo era ilegal, mas e daí? O pessoal era simpático e só tinha eu de passageiro clandestino.
O cargueiro tinha uma rota que me era favorável. Após despejar a carga no PD-023, um dos planetas-depósito do lado leste da galáxia, seguiria para a base temporária em Kronos-7, um planeta de clima aconchegante e um maravilhoso céu com 7 luas rochosas que refletiam o brilho do Hades, o sol central daquele sistema. Meu interesse era uma dessas luas, a Europa II, como ficara conhecida. A lua possuía um tamanho considerável, era metade de uma Terra, e possuía uma estrutura muito semelhante com a lua que lhe deu o nome, Europa, de Júpiter. Uma grossa camada de gelo recobrindo toda sua superfície, um oceano gigantesco escondido embaixo e um núcleo quente que, acreditava eu, permitiria o surgimento de algumas formas muito interessantes de vida marinha extraterrena. Talvez até mesmo vida complexa e animais vertebrados, o que seria uma descoberta incrível para um astrobiólogo que nem eu.
A viagem seria até mesmo agradável se não fosse pelo cheiro forte que as comportas fortemente lacradas exalavam. O cargueiro era propriedade de uma famosa empresa de limpeza. O trabalho que aqueles homens realizavam era muito simples. Desciam sobre os lixões na Terra, enchiam o cargueiro com o máximo de sujeira, destroços e dejetos que conseguiam, e então levavam tudo isso para um dos planetas-depósito, que eram pequenos corpos normalmente desérticos e desprovido de vida. Isso já durava 10 anos, e parecia mesmo o único jeito de tentar amenizar os problemas que o acúmulo de lixo na Terra estava causando.
Alguns eco-terroristas ficaram furiosos, e realizaram ataques a sedes da empresa, e uma vez até mesmo atiraram contra uma das aeronaves-cargueiro enquanto ela levantava vôo. Mas esses grupos rebeldes logo eram silenciados. Eu, como astrobiólogo, também estava revoltado com o desrespeito tremendo à natureza. Ferraram com um planeta e agora queriam ferrar com outros. Quantas oportunidades de surgimento e evolução de vida não seriam perdidos nessas ações. Mas eu sou apenas um cientista mal-pago, o que posso fazer? Tenho sorte de ter recebido um patrocínio gordo para explorar sozinho a Europa II. Sabia que havia interesses obscuros atrás disso, mas não perderia a chance de ser o primeiro pesquisador a desbravar aqueles mares. Uma equipe de perfuração, engenheiros navais e mergulhadores estaria me esperando numa base superficial por lá. Bastava eu chegar logo, e poderia esperar por uma volta no cargueiro.
Um pouco de turbulência me fez lembrar dos antigos aviões terrenos. Grande idéia serem substituídos por trens submarinos de alta velocidade. Devo confessar que admirava os engenheiros responsáveis pelo projeto. Era uma mega construção que custou bilhões e tirou a vida de alguns desafortunados. É o que se pode esperar quando se tenta furar o mar por quilômetros intermináveis com túneis entrecruzados de diâmetro colossal e estrutura incrivelmente resistente, que abrigariam veículos que mais pareciam balas saídas do cano fumegante de alguma arma automática. Exigências da globalização. Tudo estava cada vez mais veloz. Não vejo a hora de quererem fazer algo parecido para conectar permanentemente planetas, sistemas solares, e até mesmo galáxias distantes. Talvez se descobrissem como domesticar buracos de minhoca ou controlar o tecido do espaço-tempo. Mas aí já seria muita doideira. Coisa de física teórica, que eu não entendo muito bem.
O cargueiro desceu agitado enquanto entrava na atmosfera de PD-023. Olhei pela janela frontal da cabine de comando, e pude observar uma superfície escura, com alguns pontos avermelhados se sobressaindo. O pouco de solo que ainda restava era uma superfície irregular cheia de vales, montanhas, depressões e planícies tortuosas. Cogitei se não haveria derramamentos de lava por ali, ou jatos de vapor quente sendo expelidos do coração do planeta. Mas não sabia qual era a constituição do núcleo, então preferia deixar esses pensamentos para um geólogo.
Aproximava-nos lentamente do solo, o cargueiro descendo verticalmente, enquanto as turbinas diminuíam de intensidade e quatro pernas metálicas saíam de seus abrigos na barriga da nave, estendiam-se, abriam-se e preparavam-se para agarrar a terra. Porém, antes que pudéssemos sentir a aeronave acomodando-se, algo atingiu uma das turbinas traseiras, e uma explosão fez com que fôssemos jogados violentamente contra o chão e as paredes da cabine. O cargueiro inteiro tremeu quando despencou brusco contra o chão, quebrando as duas pernas direitas e tombando para o lado, escorregando nossos corpos para o canto inclinado. O que diabos era aquilo?
Os três homens que estavam no comando, mais as duas mulheres, levantaram-se assustados. Eu me agarrei às paredes, ainda com o coração acelerado. Um dos pilotos tentou fazer contato pelo rádio, mas só se ouvia um ruído de estática. O que quer que tenha atingido a turbina, parecia que havia se entranhado nave adentro e atingira os circuitos de comunicação. Estávamos com um enorme cargueiro quebrado em mãos, sem contato externo, e não tínhamos a mínima idéia do que encontraríamos lá fora…
Continua…



