Crônicas de um Astrobiólogo – Parte I
— E se os terópodes tivessem resistido ao meteoro que caiu na Península de Yucatán? – o menino perguntou, curioso, enquanto olhava atento o céu estrelado. Seu corpo magro de criança estendido na grama verde-limão. Cabeça apoiada nas mãos.
— Então seriam eles os responsáveis pela terraformação de Marte, e não nós. – o homem de cabelos negros deitado a seu lado respondeu. – Mas seria incrivelmente improvável que eles resistissem ao impacto, ou ao vulcanismo tremendo que se iniciou depois. Ou até mesmo ao possível inverno nuclear, às alterações bruscas na atmosfera, no clima, na oferta de alimento…
— Então acho que deveria agradecer ao meteoro. Ele foi o responsável por estarmos aqui, certo, tio?
— Sim. Graças à extinção dos dinossauros não-voadores no fim do Cretáceo que os mamíferos se irradiaram. E evoluíram, até uma espécie em particular se desenvolver o suficiente para começar a manipular o ambiente ao seu redor, construir pequenas sociedades, criar e aumentar habilidades cognitivas, e chegar ao que somos hoje.
— Aventureiros do espaço! – o menino gritou, entusiasmado.
Eram as férias de Julho, e seu tio, um astrobiólogo na NASA, havia levado o garoto para passar o mês em Marte, que fora colonizado apenas dois anos antes, após um longo, complicado e caro processo de terraformação, onde a atmosfera foi modificada, assim como o solo, para que plantas terrenas pudessem crescer e transformar o deserto avermelhado em um local habitável para humanos.
Os dois agora descansavam na grama do jardim que beirava uma das bases habitacionais do conjunto de pesquisas científicas. Por enquanto, apenas engenheiros, astrônomos, físicos, paleontólogos, astrobiólogos, geólogos e outros cientistas habitavam o planeta. O menino era o primeiro civil a pisar em solo marciano, e estava imensamente feliz por isso.
— Mas será que os terópodes mudariam para alguma forma humana, tio?
— Répteis humanóides, você quer dizer? Isso é assunto de ficção científica, mas não sei ao certo. Não seria pretensão demais da nossa parte pensar que se alguma outra espécie diferente fosse a dominante na Terra, ela teria uma aparência similar à nossa? Estamos nos colocando num patamar muito alto, mas não estamos no topo de pirâmide nenhuma, aprenda isso desde já.
— Mas temos inteligência! E somos racionais, e podemos fazer coisas que nenhum outro animal pode!
— E somos incrivelmente primitivos em questão de instintos, e absurdamente frágeis fisiologicamente. Qualquer pedaço de material genético envelopado consegue destruir nosso organismo parasitando nossas células. Qualquer bactéria ou rickétsia consegue nos deixar de cama e impossibilitados de agir. Qualquer mudança no ar que respiramos, na comida que ingerimos ou até mesmo na aceleração gravitacional do local que pisamos mexe profundamente com nosso metabolismo. Somos seres tão fracos, menino…
— Mas mesmo assim alcançamos as estrelas!
— Com muito custo.
— Assim você destrói meu sonho de me tornar um cientista que nem você. – o garoto retrucou, rindo.
— Ninguém pode destruir o sonho de ninguém, oras. Se foi destruído, é porque não era tão especial assim.
— Tá vendo, tio? Por isso nossa espécie é a dominante. Somos primitivos em instinto, mas isso é uma vantagem em muita coisa. Somos irracionais movidos por nossas emoções. E foi isso que nos trouxe até as estrelas, não foi? Você me disse uma vez que um cientista tem uma visão artística do mundo que somente ele entende, pois acha a natureza incrivelmente bela em essência, e por isso tem a sede instigante de desvendá-la, estudá-la e preservá-la.
— Sim, eu disse… Mas quando você se torna um adulto, essa beleza toda fica ameaçada. Porque você é obrigado a lidar com questões que ferem seus ideais de criança. Você é obrigado a engolir tanta coisa amarga, que a garganta fica manchada pra sempre. Você acha que a terraformação e colonização desse planeta foi uma empreitada puramente científica? Ah, menino, não seja ingênuo… Há uma guerra iminente acontecendo na Terra, e isso aqui é um porto seguro pros que podem pagar. Eu e os outros cientistas temos nossos próprios sonhos, nossas paixões, mas só podemos realizá-las com a ajuda dessas pessoas que não estão dando a mínima para a beleza do Universo.
— Podemos vencê-los, tio! Eu serei um cientista independente! Um astrobiólogo aventureiro, e vou desbravar os quatro cantos da galáxia, conhecendo e pesquisando novas formas de vida, sem ter as amarras e os impedimentos desses homens maus!
O astrobiólogo olhou para o sobrinho, e ele estava com um brilho incomum nos olhos. Ele sentiu que havia cumprido seu trabalho, havia incutido no coração do menino tudo aquilo que um dia seu próprio coração havia experimentado. E ele esperava que o garoto conseguisse realizar tudo aquilo que pretendia, e pudesse continuar o caminho que ele começou e não foi capaz de concluir. Levá-lo para conhecer as instalações de Marte e os processos em andamento ali era apenas o começo.
— Olha, tio, um corpo incandescente passou rasgando o céu!
— Na Terra costumavam chamar isso de estrela cadente.
— Estrela? Por que estrela se não é um corpo gasoso em combustão?
— Licença poética… Faça um pedido.
— Mas eu não acredito em superstições, tio. Meus desejos não se realizarão simplesmente por que eu os exteriorizei numa fala direcionada a um pedaço de rocha à deriva no espaço.
— Você é mesmo um aspirante a cientista, não é? – ele comentou rindo.
— Sou um sonhador cético!
— Gostaria que nosso planeta natal tivesse mais sonhadores céticos no passado… Não estaríamos enfrentando tantos conflitos destrutivos atualmente…
— Será que se os terópodes tivessem resistido, eles teriam deuses?
— Não sei. Se Velociraptors tivessem sobrevivido e evoluído para alguma espécie racional, talvez venerassem algo, um deus réptil que os abençoasse pela caça, ou algo assim. Acho que a religião faz parte de toda sociedade primitiva. Precisamos passar por esse estágio de desconhecimento, medo e descobrimento. Ajuda a construir nosso intelecto. O problema é que ela deixou de ser necessária há muito tempo, mas as pessoas insistem em apoiar-se nela.
— Não são sonhadores céticos, tio.
— E por isso não conseguem apreciar a beleza do Universo sem acreditar que existe algo de místico por trás. Eu, particularmente, acho extremófilos muito mais fascinantes.
Os dois riram.
— Hei, rapazes! Voltem pra dentro, tá na hora do jantar! – uma mulher loira de cabelos compridos e jaleco branco estava na porta do prédio principal, de arquitetura arredondada. Não era alto, já que a maior parte de sua estrutura estava encravada no subsolo. A mulher era uma astrônoma, muito amiga do astrobiólogo.
O menino lembrou-se de casa, da mãe chamando-o, do clima familiar, do aconchego de estar na Terra, e sentiu uma pontada de saudades.
Continua…




Marcos Bassini disse,
Agosto 8, 2009 às 11:20 pm
Adorei. Tomara que vc publique, isso. E lembre de me avisar, tb.
Alliah Art Insane disse,
Agosto 14, 2009 às 8:11 pm
Que bom que gostou! Mas não pretendo publicar essa história. Tenho outros projetos de ficção pra virar livro, essa história é só pro blog mesmo. =)