Crônicas de um Astrobiólogo – Parte III

Julho 10, 2009 at 1:53 am (Uncategorized)

Eu estava em ótima companhia, pelo menos. Aquele pessoal era fruto da marginalidade da Terra, e haviam conseguido a muito custo o emprego de cuidarem da aeronave-cargueiro. Estavam preparados pra qualquer imprevisto, principalmente se envolvesse violência, o que meu coração de biólogo estava prevendo. Cair num planeta-depósito por causas desconhecidas não era boa coisa, ainda mais com um amontoado de lixo tóxico e metabólitos de química estranha misturados lá fora. Eu sentia que corríamos um perigo tremendo.

Não fiquei surpreso quando o pessoal puxou algumas armas automáticas gigantescas dos armários metálicos acoplados às paredes, enquanto ajeitavam na cintura o que me pareceu pequenas bombas de impacto. Alguém jogou uma arma pra cima de mim e eu quase caí pra trás com o peso da maldita. Mas sabia como atirar, apesar de ter uma mira péssima.

Saímos cautelosos do cargueiro, pisando com cuidado. E logo fomos arrebatados pela atmosfera rarefeita em oxigênio. Rapidamente voltamos para dentro da nave e vestimos os trajes de respiração. O tanque de O2 pesando nas minhas costas e me lembrando dos meus 35 anos de idade e músculos cansados. Ora, mas eu poderia agüentar mais uma empreitada daquelas não? Logo estaria mergulhando nas águas gélidas de Europa II e me deparando com criaturas marinhas exóticas e fascinantes. Talvez tenhamos que descer até níveis abissais para achar algo, mas não aceitaria sair daquela lua sem uma prova de que a vida se desenvolvera ali.

Um dos homens, um moreno corpulento de feições carrancudas, estava carregando um tipo de maleta de plástico reforçado, enquanto andava em direção à turbina danificada. Os outros continuaram onde estavam, com as armas empunhadas e os olhos atentos. Eu não sabia o que eles tanto olhavam, porque eu só enxergava montanhas de lixo no horizonte, e o reflexo fraco da luz solar no solo avermelhado. Por alguns instantes, aquele tom rubro me lembrou de Marte, e das minhas férias de infância, que passei com meu tio, falecido dez anos atrás por uma enfermidade. Uma variação grotesca do Ebola terrestre, que por meios duvidosos, alcançou Kronos-7, sofreu uma mutação, e causou uma epidemia terrível. Ainda éramos frágeis seres humanos, como ele bem me disse uma vez. Tão suscetíveis a coisas aparentemente tão insignificantes.

Meu devaneio foi interrompido por um grito desesperado. Todos correram para a direção da turbina traseira, de onde o som partira. E o que encontramos fez meu estômago revirar-se inteiro. O corpulento com expressão de poucos amigos estava estendido no chão, ofegante, e urrando de dor. Suas vísceras estavam expostas, enquanto alguma coisa não-identificada parecia comê-lo vivo, devorando seus intestinos. A mistura de sangue e dejetos nos causou uma repulsa violenta, e nos paralisou por alguns segundos, antes que uma das mulheres disparasse contra a coisa estranha e depois desse um tiro na cabeça do cara, para poupá-lo do sofrimento.

O que quer que tenha atacado ele, agora estava reduzido a frangalhos. Abaixei-me corajosamente, prendendo a respiração, e tentei observar a coisa mais de perto. Parecia um pequeno animal vertebrado, com o corpo que mais parecia uma quimera diferente, uma mistura de aranha, lagarto e morcego. Algo incomum e bizarro. Sua boca abria-se embaixo de um focinho ensangüentado, e apresentava uma fileira de pequeninos dentes recurvados e serrilhados. Suas quatro patas esparramavam-se para os lados, numa postura não-ereta, e possuíam uma membrana translúcida que os ligava de cada lado do corpo. Um misto de penugem e escamas recobria seu corpo aparentemente frágil. Seus ossos deveriam ser finos e sua musculatura, não muito flexível. Seus olhos eram minúsculos pontinhos pretos, uma desproporcionalidade incrível com o focinho e suas narinas grandes e largas. Aquilo me levou a concluir que o animal era praticamente cego e se movimentava e caçava através do cheiro. Mas por que diabos atacara o homem deitado a meu lado justamente no abdômen e avançara por tecido epitelial e muscular até os intestinos?

E, antes de tudo, aquele planeta não era desprovido de vida? O que aquela criatura estava fazendo ali? Era óbvio que podia planar, devido às membranas amplas entre os membros, e foi assim que acidentalmente deve ter atingido a turbina do cargueiro, mas como vida complexa a esse nível se desenvolveu ali? Um planeta que até 10 anos atrás era completamente inóspito! Percebi, então, que tinha um trabalho de pesquisa astrobiológica muito séria em minhas mãos, e havia sido literalmente derrubado pra cima dele.

Continua…

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Crônicas de um Astrobiólogo – Parte II

Julho 8, 2009 at 10:49 pm (Uncategorized)

Era desconfortável e cheirava mal, mas pelo menos eu economizava uma boa grana. O menino sonhador que conhecera Marte durante a infância e se encantara com as pesquisas em desenvolvimento nos centros científicos perdeu uma boa parte desse brilho e agora é um cientista mais ou menos independente que prefere embarcar numa aeronave-cargueiro pagando pouco do que num ônibus espacial com seus bilhetes caríssimos. Eu sabia que aquilo era ilegal, mas e daí? O pessoal era simpático e só tinha eu de passageiro clandestino.

O cargueiro tinha uma rota que me era favorável. Após despejar a carga no PD-023, um dos planetas-depósito do lado leste da galáxia, seguiria para a base temporária em Kronos-7, um planeta de clima aconchegante e um maravilhoso céu com 7 luas rochosas que refletiam o brilho do Hades, o sol central daquele sistema. Meu interesse era uma dessas luas, a Europa II, como ficara conhecida. A lua possuía um tamanho considerável, era metade de uma Terra, e possuía uma estrutura muito semelhante com a lua que lhe deu o nome, Europa, de Júpiter. Uma grossa camada de gelo recobrindo toda sua superfície, um oceano gigantesco escondido embaixo e um núcleo quente que, acreditava eu, permitiria o surgimento de algumas formas muito interessantes de vida marinha extraterrena. Talvez até mesmo vida complexa e animais vertebrados, o que seria uma descoberta incrível para um astrobiólogo que nem eu.

A viagem seria até mesmo agradável se não fosse pelo cheiro forte que as comportas fortemente lacradas exalavam. O cargueiro era propriedade de uma famosa empresa de limpeza. O trabalho que aqueles homens realizavam era muito simples. Desciam sobre os lixões na Terra, enchiam o cargueiro com o máximo de sujeira, destroços e dejetos que conseguiam, e então levavam tudo isso para um dos planetas-depósito, que eram pequenos corpos normalmente desérticos e desprovido de vida. Isso já durava 10 anos, e parecia mesmo o único jeito de tentar amenizar os problemas que o acúmulo de lixo na Terra estava causando.

Alguns eco-terroristas ficaram furiosos, e realizaram ataques a sedes da empresa, e uma vez até mesmo atiraram contra uma das aeronaves-cargueiro enquanto ela levantava vôo. Mas esses grupos rebeldes logo eram silenciados. Eu, como astrobiólogo, também estava revoltado com o desrespeito tremendo à natureza. Ferraram com um planeta e agora queriam ferrar com outros. Quantas oportunidades de surgimento e evolução de vida não seriam perdidos nessas ações. Mas eu sou apenas um cientista mal-pago, o que posso fazer? Tenho sorte de ter recebido um patrocínio gordo para explorar sozinho a Europa II. Sabia que havia interesses obscuros atrás disso, mas não perderia a chance de ser o primeiro pesquisador a desbravar aqueles mares. Uma equipe de perfuração, engenheiros navais e mergulhadores estaria me esperando numa base superficial por lá. Bastava eu chegar logo, e poderia esperar por uma volta no cargueiro.

Um pouco de turbulência me fez lembrar dos antigos aviões terrenos. Grande idéia serem substituídos por trens submarinos de alta velocidade. Devo confessar que admirava os engenheiros responsáveis pelo projeto. Era uma mega construção que custou bilhões e tirou a vida de alguns desafortunados. É o que se pode esperar quando se tenta furar o mar por quilômetros intermináveis com túneis entrecruzados de diâmetro colossal e estrutura incrivelmente resistente, que abrigariam veículos que mais pareciam balas saídas do cano fumegante de alguma arma automática. Exigências da globalização. Tudo estava cada vez mais veloz. Não vejo a hora de quererem fazer algo parecido para conectar permanentemente planetas, sistemas solares, e até mesmo galáxias distantes. Talvez se descobrissem como domesticar buracos de minhoca ou controlar o tecido do espaço-tempo. Mas aí já seria muita doideira. Coisa de física teórica, que eu não entendo muito bem.

O cargueiro desceu agitado enquanto entrava na atmosfera de PD-023. Olhei pela janela frontal da cabine de comando, e pude observar uma superfície escura, com alguns pontos avermelhados se sobressaindo. O pouco de solo que ainda restava era uma superfície irregular cheia de vales, montanhas, depressões e planícies tortuosas. Cogitei se não haveria derramamentos de lava por ali, ou jatos de vapor quente sendo expelidos do coração do planeta. Mas não sabia qual era a constituição do núcleo, então preferia deixar esses pensamentos para um geólogo.

Aproximava-nos lentamente do solo, o cargueiro descendo verticalmente, enquanto as turbinas diminuíam de intensidade e quatro pernas metálicas saíam de seus abrigos na barriga da nave, estendiam-se, abriam-se e preparavam-se para agarrar a terra. Porém, antes que pudéssemos sentir a aeronave acomodando-se, algo atingiu uma das turbinas traseiras, e uma explosão fez com que fôssemos jogados violentamente contra o chão e as paredes da cabine. O cargueiro inteiro tremeu quando despencou brusco contra o chão, quebrando as duas pernas direitas e tombando para o lado, escorregando nossos corpos para o canto inclinado. O que diabos era aquilo?

Os três homens que estavam no comando, mais as duas mulheres, levantaram-se assustados. Eu me agarrei às paredes, ainda com o coração acelerado. Um dos pilotos tentou fazer contato pelo rádio, mas só se ouvia um ruído de estática. O que quer que tenha atingido a turbina, parecia que havia se entranhado nave adentro e atingira os circuitos de comunicação. Estávamos com um enorme cargueiro quebrado em mãos, sem contato externo, e não tínhamos a mínima idéia do que encontraríamos lá fora…

Continua…

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Crônicas de um Astrobiólogo – Parte I

Julho 7, 2009 at 8:33 pm (Uncategorized)

— E se os terópodes tivessem resistido ao meteoro que caiu na Península de Yucatán? – o menino perguntou, curioso, enquanto olhava atento o céu estrelado. Seu corpo magro de criança estendido na grama verde-limão. Cabeça apoiada nas mãos.

— Então seriam eles os responsáveis pela terraformação de Marte, e não nós. – o homem de cabelos negros deitado a seu lado respondeu. – Mas seria incrivelmente improvável que eles resistissem ao impacto, ou ao vulcanismo tremendo que se iniciou depois. Ou até mesmo ao possível inverno nuclear, às alterações bruscas na atmosfera, no clima, na oferta de alimento…

— Então acho que deveria agradecer ao meteoro. Ele foi o responsável por estarmos aqui, certo, tio?

— Sim. Graças à extinção dos dinossauros não-voadores no fim do Cretáceo que os mamíferos se irradiaram. E evoluíram, até uma espécie em particular se desenvolver o suficiente para começar a manipular o ambiente ao seu redor, construir pequenas sociedades, criar e aumentar habilidades cognitivas, e chegar ao que somos hoje.

— Aventureiros do espaço! – o menino gritou, entusiasmado.

Eram as férias de Julho, e seu tio, um astrobiólogo na NASA, havia levado o garoto para passar o mês em Marte, que fora colonizado apenas dois anos antes, após um longo, complicado e caro processo de terraformação, onde a atmosfera foi modificada, assim como o solo, para que plantas terrenas pudessem crescer e transformar o deserto avermelhado em um local habitável para humanos.

Os dois agora descansavam na grama do jardim que beirava uma das bases habitacionais do conjunto de pesquisas científicas. Por enquanto, apenas engenheiros, astrônomos, físicos, paleontólogos, astrobiólogos, geólogos e outros cientistas habitavam o planeta. O menino era o primeiro civil a pisar em solo marciano, e estava imensamente feliz por isso.

— Mas será que os terópodes mudariam para alguma forma humana, tio?

— Répteis humanóides, você quer dizer? Isso é assunto de ficção científica, mas não sei ao certo. Não seria pretensão demais da nossa parte pensar que se alguma outra espécie diferente fosse a dominante na Terra, ela teria uma aparência similar à nossa? Estamos nos colocando num patamar muito alto, mas não estamos no topo de pirâmide nenhuma, aprenda isso desde já.

— Mas temos inteligência! E somos racionais, e podemos fazer coisas que nenhum outro animal pode!

— E somos incrivelmente primitivos em questão de instintos, e absurdamente frágeis fisiologicamente. Qualquer pedaço de material genético envelopado consegue destruir nosso organismo parasitando nossas células. Qualquer bactéria ou rickétsia consegue nos deixar de cama e impossibilitados de agir. Qualquer mudança no ar que respiramos, na comida que ingerimos ou até mesmo na aceleração gravitacional do local que pisamos mexe profundamente com nosso metabolismo. Somos seres tão fracos, menino…

— Mas mesmo assim alcançamos as estrelas!

— Com muito custo.

— Assim você destrói meu sonho de me tornar um cientista que nem você. – o garoto retrucou, rindo.

— Ninguém pode destruir o sonho de ninguém, oras. Se foi destruído, é porque não era tão especial assim.

— Tá vendo, tio? Por isso nossa espécie é a dominante. Somos primitivos em instinto, mas isso é uma vantagem em muita coisa. Somos irracionais movidos por nossas emoções. E foi isso que nos trouxe até as estrelas, não foi? Você me disse uma vez que um cientista tem uma visão artística do mundo que somente ele entende, pois acha a natureza incrivelmente bela em essência, e por isso tem a sede instigante de desvendá-la, estudá-la e preservá-la.

— Sim, eu disse… Mas quando você se torna um adulto, essa beleza toda fica ameaçada. Porque você é obrigado a lidar com questões que ferem seus ideais de criança. Você é obrigado a engolir tanta coisa amarga, que a garganta fica manchada pra sempre. Você acha que a terraformação e colonização desse planeta foi uma empreitada puramente científica? Ah, menino, não seja ingênuo… Há uma guerra iminente acontecendo na Terra, e isso aqui é um porto seguro pros que podem pagar. Eu e os outros cientistas temos nossos próprios sonhos, nossas paixões, mas só podemos realizá-las com a ajuda dessas pessoas que não estão dando a mínima para a beleza do Universo.

— Podemos vencê-los, tio! Eu serei um cientista independente! Um astrobiólogo aventureiro, e vou desbravar os quatro cantos da galáxia, conhecendo e pesquisando novas formas de vida, sem ter as amarras e os impedimentos desses homens maus!

O astrobiólogo olhou para o sobrinho, e ele estava com um brilho incomum nos olhos. Ele sentiu que havia cumprido seu trabalho, havia incutido no coração do menino tudo aquilo que um dia seu próprio coração havia experimentado. E ele esperava que o garoto conseguisse realizar tudo aquilo que pretendia, e pudesse continuar o caminho que ele começou e não foi capaz de concluir. Levá-lo para conhecer as instalações de Marte e os processos em andamento ali era apenas o começo.

— Olha, tio, um corpo incandescente passou rasgando o céu!

— Na Terra costumavam chamar isso de estrela cadente.

— Estrela? Por que estrela se não é um corpo gasoso em combustão?

— Licença poética… Faça um pedido.

— Mas eu não acredito em superstições, tio. Meus desejos não se realizarão simplesmente por que eu os exteriorizei numa fala direcionada a um pedaço de rocha à deriva no espaço.

— Você é mesmo um aspirante a cientista, não é? – ele comentou rindo.

— Sou um sonhador cético!

— Gostaria que nosso planeta natal tivesse mais sonhadores céticos no passado… Não estaríamos enfrentando tantos conflitos destrutivos atualmente…

— Será que se os terópodes tivessem resistido, eles teriam deuses?

— Não sei. Se Velociraptors tivessem sobrevivido e evoluído para alguma espécie racional, talvez venerassem algo, um deus réptil que os abençoasse pela caça, ou algo assim. Acho que a religião faz parte de toda sociedade primitiva. Precisamos passar por esse estágio de desconhecimento, medo e descobrimento. Ajuda a construir nosso intelecto. O problema é que ela deixou de ser necessária há muito tempo, mas as pessoas insistem em apoiar-se nela.

— Não são sonhadores céticos, tio.

— E por isso não conseguem apreciar a beleza do Universo sem acreditar que existe algo de místico por trás. Eu, particularmente, acho extremófilos muito mais fascinantes.

Os dois riram.

— Hei, rapazes! Voltem pra dentro, tá na hora do jantar! – uma mulher loira de cabelos compridos e jaleco branco estava na porta do prédio principal, de arquitetura arredondada. Não era alto, já que a maior parte de sua estrutura estava encravada no subsolo. A mulher era uma astrônoma, muito amiga do astrobiólogo.

O menino lembrou-se de casa, da mãe chamando-o, do clima familiar, do aconchego de estar na Terra, e sentiu uma pontada de saudades.

Continua…

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