Depois de viverem felizes para sempre…

Junho 22, 2009 at 2:37 am (Uncategorized)

Ah, os contos de fada… Eles povoaram minha infância, assim como a de muitas outras pessoas. Mas quando somos criança, nos divertimos facilmente com qualquer narrativa fantástica, cheia de personagens cativantes, corajosos, apaixonantes e que, claro, tenham um merecido final feliz. Mas não nos preocupamos em perguntar ao orador: “E o que aconteceu depois que o príncipe casou com a princesa e viveram felizes para sempre?”. E se alguém se atreve a perguntar, ganha como resposta uma repetição do “Viveram felizes para sempre, oras!”.

Não sei se é influência da modernidade, mas eu não consigo mais acreditar nessa história de que após um casamento, vive-se feliz para sempre. Principalmente na Idade Média, que não devia ter muita coisa pra fazer.

Então, conversando com Ralf numa dessas madrugadas que eu tenho passado em claro, chegamos à conclusão de que seria interessante entrevistar esses personagens, e perguntar diretamente o que diabos eles ficaram fazendo enquanto viviam supostamente felizes para sempre. Não é fácil conseguir uma audiência com personalidades reais e famosas. A maioria é muito soberba, e recusa expor-se. Mas, para meu encanto, algumas das princesas concordaram em falar comigo e com Ralf, e responderam de bom grado as nossas perguntas (por vezes, deveras intrometidas). E então pude perceber que a vida num castelo não é assim tão monótona. Aliás, muito pelo contrário! E eu fiquei sabendo de cada babado fortíssimo!

Mas então vamos às entrevistas. Eu documentei essas conversas, claro, todas elas! É um material precioso, que devo guardar sob sete chaves (devidamente encantadas por algumas fadas com quem fiz amizade durante essa minha incursão mágica).

Bem, a primeira princesa com quem eu consegui manter contato, foi Aurora, mais conhecida como Bela Adormecida.

Encontramo-nos no salão do castelo. Um local amplo, belíssimo, ricamente ornamentado. Alguns poucos criados passavam apressados aos fundos. O príncipe estava fora, provavelmente em alguma caçada com seus amigos das redondezas. O rei e a rainha habitavam em outro castelo, um tanto quanto distante daquele. Ralf estava comigo, cumprindo seu papel de protetor fiel. Surpreendi-me com a irreverência da princesa logo de início, quando ela me ofereceu vinho no lugar de chá. E então começamos a prosear…

— Então essa história de viver feliz pra sempre é realmente tudo balela? – perguntei.

— Ah, e como! – ela respondeu após um longo suspiro. – Isso aqui costumava ser um porre, sabe? Eu casei, foi lindo, o príncipe era tudo que eu podia sonhar e blá, blá, blá. Afinal de contas, foi ele que me acordou após 100 anos dormindo. E isso requer muita coragem. Não por ter passado pelo bosque amaldiçoado pra chegar ao castelo, mas por ter conseguido me beijar mesmo após eu estar dormindo por 100 anos seguidos, sem um banho sequer! Vou te contar uma coisa, eu devia tá fedendo horrores! Ainda acho que ele tava gripado aquele dia, ou então foi atingido no nariz por algum tronco no meio do caminho. Mas ele me acordou, nós nos apaixonamos à primeira vista, e então casamos numa grande festa!

— E depois? Mudaram-se pra cá, certo?

— Ah sim. Nossos reinos fizeram uma aliança. E ambos eram imensamente ricos. Então escolhemos esse castelo afastado. Obviamente eu que escolhi tudo aqui, principalmente a mobília. Aquele cabeça dura não tem o mínimo senso estético, não poderia deixá-lo enfeitar isso aqui que nem uma taverna de bêbados! E no primeiro mês tudo correu perfeitamente bem! Inclusive a noite de núpcias, que foi uma loucura! Olha, sinceramente, eu não imaginava que ele fosse tão criativo assim na cama… Mas isso durou pouco tempo. Ele parece que morreu depois. Não sei o que aconteceu. E eu fazia de tudo, acredita? E atendia a todas as fantasias dele. Porque no começo ele tinha muitas, mas depois também parou de fantasiar. Parou com tudo! Preferia sair pra caçar antílopes! Ora, que dormisse com os antílopes, então! Expulsei-o mais de uma vez, e fiz com que dormisse ao relento por várias noites. Ele voltou me pedindo desculpas. E nós até que tentamos reacender o fogo, mas cadê que ele conseguia? Ah, é um fracassado. Eu tenho noção do quanto eu sou linda e gostosa, eu sou uma princesa, ora bolas! E uso esses vestidos gigantescos e calorentos com esses espartilhos apertadíssimos só pra ficar sexy pra ele, e nada disso adianta!

— Então você é a princesa azarenta, as outras devem ter capturados príncipes melhores na cama. – comentei rindo.

— Que nada, querida! Então você não sabe que a Branca-de-Neve também casou com um molenga? Esses príncipes são tudo fachada! Falam isso e aquilo, enfrentam perigos incríveis, nos salvam, e depois não conseguem sequer agüentar meia hora? Ah, faça-me um favor, né! E quer saber do que mais? Eu resolvi colocar um belo par de chifres polidos na cabeça daquele inútil! Ah, não. Eu tenho minhas necessidades básicas. Se ele não pode suprí-las, sinto muito, há quem possa!

Não me contive, e comecei a rir. Era hilário demais imaginar que aquela personagem puríssima que fez parte da minha infância tava corneando o famoso príncipe encantado dela. Estava curiosíssima pra saber quem andava comendo a princesa por trás dos panos…

— E quem seria esse amante? – perguntei meio temerosa. Talvez estivesse querendo saber demais, mas a curiosidade falava mais alto.

— Ah, querida, não é essE amante, é essA amante.

Quase caí da cadeira.

— É a Branca-de-Neve. Ela também cansou daquele palerma que é o marido dela. Os dois devem estar por aí fora, caçando antílopes, ou transando com eles. Que seja, não ligo mais. E nem ela. Nós nos divertimos até demais aqui, sozinhas, sem esses príncipes por perto! E quer sabe mais o que? Estamos planejando uma mega-festa com as outras princesas!

— É o tipo de festa que eu estou imaginando? – perguntei com toda a minha maldade e perversidade na cabeça.

— Ah, pode ter certeza! – ela respondeu, percebendo exatamente o que eu estava pensando.

A essa altura da conversa, Ralf estava parado ao meu lado, em pé, estático, sem mover um músculo, tremendamente sem graça. Eu tinha até me esquecido dele ali. Mas ele até que estava fofinho, com as bochechas vermelhas e os olhos propositadamente perdidos.

— E somente as princesas virão pra festa?

— Ah não, os príncipes podem aparecer também. Querida, nós já chegamos num nível que já perdemos totalmente a vergonha na cara. Se eles quiserem testemunhar o chifre deles crescendo, eles podem fazer isso de camarote! Estamos no meio do nada, num castelo de pedras, cercado por uma floresta imensa, sem boates por perto, sem barzinhos, sem cinema, sem shoppings, sem nada pra nos entreter! Francamente, o que você pensou que fazíamos por aqui pra vivermos felizes pra sempre??

— Posso aparecer nessa festa? Gostaria de falar com as outras princesas. Essas entrevistas fazem parte de um projeto que publicarei no meu blog.

— Ah claro, apareça sim! E esse seu amigo bonitão aí pode vir também!

Saí de lá, com Ralf, e ambos não conseguíamos conter o entusiasmo. Senti que havia muitos babados ainda pra descobrir, e que aquela festa seria o local perfeito!

Passamos das fronteiras do reino, rumo ao nosso próprio castelo, pra descansarmos e nos prepararmos. Grandes surpresas nos aguardavam…

1 Comentário

  1. Narlayne disse,

    Que princesas safadenhas! hauahuahuahuahauhauau

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