Aprendendo a ser prático
Perguntam: Vou sair com fulano(a), e estou indeciso(a)… Que roupa eu uso?
Você responde: Algo fácil de tirar.
Depois de viverem felizes para sempre…
Ah, os contos de fada… Eles povoaram minha infância, assim como a de muitas outras pessoas. Mas quando somos criança, nos divertimos facilmente com qualquer narrativa fantástica, cheia de personagens cativantes, corajosos, apaixonantes e que, claro, tenham um merecido final feliz. Mas não nos preocupamos em perguntar ao orador: “E o que aconteceu depois que o príncipe casou com a princesa e viveram felizes para sempre?”. E se alguém se atreve a perguntar, ganha como resposta uma repetição do “Viveram felizes para sempre, oras!”.
Não sei se é influência da modernidade, mas eu não consigo mais acreditar nessa história de que após um casamento, vive-se feliz para sempre. Principalmente na Idade Média, que não devia ter muita coisa pra fazer.
Então, conversando com Ralf numa dessas madrugadas que eu tenho passado em claro, chegamos à conclusão de que seria interessante entrevistar esses personagens, e perguntar diretamente o que diabos eles ficaram fazendo enquanto viviam supostamente felizes para sempre. Não é fácil conseguir uma audiência com personalidades reais e famosas. A maioria é muito soberba, e recusa expor-se. Mas, para meu encanto, algumas das princesas concordaram em falar comigo e com Ralf, e responderam de bom grado as nossas perguntas (por vezes, deveras intrometidas). E então pude perceber que a vida num castelo não é assim tão monótona. Aliás, muito pelo contrário! E eu fiquei sabendo de cada babado fortíssimo!
Mas então vamos às entrevistas. Eu documentei essas conversas, claro, todas elas! É um material precioso, que devo guardar sob sete chaves (devidamente encantadas por algumas fadas com quem fiz amizade durante essa minha incursão mágica).
Bem, a primeira princesa com quem eu consegui manter contato, foi Aurora, mais conhecida como Bela Adormecida.
Encontramo-nos no salão do castelo. Um local amplo, belíssimo, ricamente ornamentado. Alguns poucos criados passavam apressados aos fundos. O príncipe estava fora, provavelmente em alguma caçada com seus amigos das redondezas. O rei e a rainha habitavam em outro castelo, um tanto quanto distante daquele. Ralf estava comigo, cumprindo seu papel de protetor fiel. Surpreendi-me com a irreverência da princesa logo de início, quando ela me ofereceu vinho no lugar de chá. E então começamos a prosear…
— Então essa história de viver feliz pra sempre é realmente tudo balela? – perguntei.
— Ah, e como! – ela respondeu após um longo suspiro. – Isso aqui costumava ser um porre, sabe? Eu casei, foi lindo, o príncipe era tudo que eu podia sonhar e blá, blá, blá. Afinal de contas, foi ele que me acordou após 100 anos dormindo. E isso requer muita coragem. Não por ter passado pelo bosque amaldiçoado pra chegar ao castelo, mas por ter conseguido me beijar mesmo após eu estar dormindo por 100 anos seguidos, sem um banho sequer! Vou te contar uma coisa, eu devia tá fedendo horrores! Ainda acho que ele tava gripado aquele dia, ou então foi atingido no nariz por algum tronco no meio do caminho. Mas ele me acordou, nós nos apaixonamos à primeira vista, e então casamos numa grande festa!
— E depois? Mudaram-se pra cá, certo?
— Ah sim. Nossos reinos fizeram uma aliança. E ambos eram imensamente ricos. Então escolhemos esse castelo afastado. Obviamente eu que escolhi tudo aqui, principalmente a mobília. Aquele cabeça dura não tem o mínimo senso estético, não poderia deixá-lo enfeitar isso aqui que nem uma taverna de bêbados! E no primeiro mês tudo correu perfeitamente bem! Inclusive a noite de núpcias, que foi uma loucura! Olha, sinceramente, eu não imaginava que ele fosse tão criativo assim na cama… Mas isso durou pouco tempo. Ele parece que morreu depois. Não sei o que aconteceu. E eu fazia de tudo, acredita? E atendia a todas as fantasias dele. Porque no começo ele tinha muitas, mas depois também parou de fantasiar. Parou com tudo! Preferia sair pra caçar antílopes! Ora, que dormisse com os antílopes, então! Expulsei-o mais de uma vez, e fiz com que dormisse ao relento por várias noites. Ele voltou me pedindo desculpas. E nós até que tentamos reacender o fogo, mas cadê que ele conseguia? Ah, é um fracassado. Eu tenho noção do quanto eu sou linda e gostosa, eu sou uma princesa, ora bolas! E uso esses vestidos gigantescos e calorentos com esses espartilhos apertadíssimos só pra ficar sexy pra ele, e nada disso adianta!
— Então você é a princesa azarenta, as outras devem ter capturados príncipes melhores na cama. – comentei rindo.
— Que nada, querida! Então você não sabe que a Branca-de-Neve também casou com um molenga? Esses príncipes são tudo fachada! Falam isso e aquilo, enfrentam perigos incríveis, nos salvam, e depois não conseguem sequer agüentar meia hora? Ah, faça-me um favor, né! E quer saber do que mais? Eu resolvi colocar um belo par de chifres polidos na cabeça daquele inútil! Ah, não. Eu tenho minhas necessidades básicas. Se ele não pode suprí-las, sinto muito, há quem possa!
Não me contive, e comecei a rir. Era hilário demais imaginar que aquela personagem puríssima que fez parte da minha infância tava corneando o famoso príncipe encantado dela. Estava curiosíssima pra saber quem andava comendo a princesa por trás dos panos…
— E quem seria esse amante? – perguntei meio temerosa. Talvez estivesse querendo saber demais, mas a curiosidade falava mais alto.
— Ah, querida, não é essE amante, é essA amante.
Quase caí da cadeira.
— É a Branca-de-Neve. Ela também cansou daquele palerma que é o marido dela. Os dois devem estar por aí fora, caçando antílopes, ou transando com eles. Que seja, não ligo mais. E nem ela. Nós nos divertimos até demais aqui, sozinhas, sem esses príncipes por perto! E quer sabe mais o que? Estamos planejando uma mega-festa com as outras princesas!
— É o tipo de festa que eu estou imaginando? – perguntei com toda a minha maldade e perversidade na cabeça.
— Ah, pode ter certeza! – ela respondeu, percebendo exatamente o que eu estava pensando.
A essa altura da conversa, Ralf estava parado ao meu lado, em pé, estático, sem mover um músculo, tremendamente sem graça. Eu tinha até me esquecido dele ali. Mas ele até que estava fofinho, com as bochechas vermelhas e os olhos propositadamente perdidos.
— E somente as princesas virão pra festa?
— Ah não, os príncipes podem aparecer também. Querida, nós já chegamos num nível que já perdemos totalmente a vergonha na cara. Se eles quiserem testemunhar o chifre deles crescendo, eles podem fazer isso de camarote! Estamos no meio do nada, num castelo de pedras, cercado por uma floresta imensa, sem boates por perto, sem barzinhos, sem cinema, sem shoppings, sem nada pra nos entreter! Francamente, o que você pensou que fazíamos por aqui pra vivermos felizes pra sempre??
— Posso aparecer nessa festa? Gostaria de falar com as outras princesas. Essas entrevistas fazem parte de um projeto que publicarei no meu blog.
— Ah claro, apareça sim! E esse seu amigo bonitão aí pode vir também!
Saí de lá, com Ralf, e ambos não conseguíamos conter o entusiasmo. Senti que havia muitos babados ainda pra descobrir, e que aquela festa seria o local perfeito!
Passamos das fronteiras do reino, rumo ao nosso próprio castelo, pra descansarmos e nos prepararmos. Grandes surpresas nos aguardavam…
Um outro conto de fadas (sem fadas)
Porque eu ainda não entendi muito bem essa denominação, já que grande parte das histórias que se encaixam nesse estilo não possuem personagens fadas. Mas vou manter o nome original, já que pelo menos remete à fantasia.
Mas deixando essas considerações de lado e entrando na história em si…
Era uma vez uma princesa. Jovem, linda, rica, e com pais desregulados e sádicos que por motivos obscuros resolveram trancá-la no alto de uma torre abandonada e longínqua, guardada por um gigantesco dragão vermelho dos infernos, apenas para que algum príncipe igualmente jovem, lindo e rico viesse salva-la, demonstrando toda sua coragem, perseverança e amor.
Obviamente a princesa achava aquilo tudo um saco. Não tinha televisão no quarto mais alto da torre, que por sinal parecia mais um calabouço suspenso do que um quarto em si. As paredes de pedra deixavam o ambiente insuportavelmente frio durante a noite, e a cama não era tão confortável quanto aparentava ser. Como a princesa sobrevivia sem poder sair dali era um mistério insolúvel, já que ninguém poderia se aproximar dela a não ser o tão esperado príncipe encantado. E pela demora, o desgraçado parecia estar vindo do Alasca, montado num texugo perneta e bêbado.
Mas ela esperava, xingando-o religiosamente todas as madrugadas dos nomes mais horríveis imagináveis. E não aparecia uma fadinha sequer pra ajudá-la naquele momento tão difícil. Já havia perdido até a noção de tempo, não sabia mais há quantas semanas estava trancafiada naquele pardieiro medieval. E o dragão lá fora também não era nada amistoso, ocupando-se em cuspir fogo pelas planícies próximas e afugentar os desavisados.
Tudo tendia ao tédio. Nem mesmo observar a fileira de formigas andando no parapeito era mais tão emocionante assim. Mas pelo menos havia um enorme espelho pendurado na parede. E a princesa ficava se admirando por horas a fio, alimentando seu ego narcisista. O que mais uma garota perfeita poderia fazer, além de amar a si mesma? E aquele vestido era mesmo uma obra-prima, não era? Ela amava espartilhos, apesar deles comprimirem seus pulmões. Era uma relação masoquista. Mulher tem dessas coisas…
E mais semanas passaram-se no mesmo tédio de sempre. Até que uma movimentação incomum lá fora, durante um fim de tarde, chamou a atenção da princesa. Ela colocou a cabeça pra fora da única janela (um buraco quadricular na parede de pedra), e observou o dragão tomando uma posição defensiva contra algo à sua frente. O sol se despedindo atrás das montanhas e o enorme corpo do animal escamoso impediam a visão da princesa, mas num vislumbre que durou segundos ela pôde enxergar alguém montado no lombo de um belo e imperial cavalo branco com arreios dourados. O brilho de uma lâmina dançando no ar refletiu nos últimos raios de sol. O céu banhava-se num tom avermelhado belíssimo, estendendo-se como tinta por entre as esparsas nuvens brancas.
A princesa acompanhou toda a luta, animadíssima. A altura exagerada da torre não permitia que ela percebesse quem era o herói destemido que a estava salvando do dragão, mas ela pôde perceber cabelos longos e uma armadura sem capacete. Ah, que pena que a torre não era um pouco mais baixa. Assim ela poderia observar o rosto de seu príncipe encantado. Mas agora, apenas esperava.
A batalha foi sangrenta, até que o dragão finalmente cambaleou e caiu de lado no descampado, manchando a grama com seu sangue negro. Como aquele único guerreiro conseguiu matar um dragão vermelho gigante e dotado de garras afiadas de meio metro com apenas uma espada era algo não explicável cientificamente. Mas contos de fada possuem esses milagres épicos.
Porém, antes que o guerreiro avançasse com seu bravo cavalo branco até a ponte que levava à entrada da torre, um outro cavalo despontou no horizonte. Aproximava-se rápido, num galope louco. Então um outro cavalo branco entrou em cena, dessa vez com um guerreiro visivelmente mais robusto e musculoso montado em seu lombo, portando uma armadura pesada e um capacete com um adorno de penas no topo. Agora eram dois príncipes encantados, sendo que um deles era obviamente mais rico, devido à pomposidade de sua armadura, sua arma e seu cavalo, que também apresentava adornos coloridos, em cores reais. Provavelmente, pertencia a algum reino muito poderoso. Já o outro não parecia assim tão rico. Na verdade, nem parecia ser de algum reino significativo.
A princesa observou, surpresa, enquanto os dois pareciam discutir. E viu quando ambos quase iniciaram uma briga, apontando suas espadas e fazendo seus cavalos tomarem a posição de combate. Ah, mas ela daria tudo para ouvir o que aqueles dois discutiam… Então o clima hostil pareceu desanuviar-se, e ela observou ambos atravessando a ponte.
Ai, meu Deus, finalmente! Tanto tempo esperando, e seu príncipe encantado finalmente viera salvá-la! Aliás, não apenas um, mas dois! Que garota de sorte, poderia escolher entre o melhor partido! O entusiasmo tomou conta dela, e a princesa ajeitou-se na frente do espelho, arrumando o cabelo, retocando a maquiagem e aumentando um pouco o decote. Uma garota que tem peitos tem o dever de usá-los, oras.
E então, assim que terminou de arrumar-se, ouviu a pesada porta de madeira rangendo, sendo golpeada, e então se espatifando em mil pedaços. Os dois nobres guerreiros deram um passo à frente, juntos.
Mas ei, tem algo errado aqui! A princesa quase caiu pra trás quando percebeu que um dos príncipes era, na verdade, uma princesa! Por isso, de longe, parecia ser um homem magro, ou menos musculoso. Era porque não era um homem, mas uma mulher! A armadura fina esculpia-lhe o corpo perfeitamente, e a ausência de um capacete mostrava suas belas feições delicadas, e seus longos cabelos negros descendo até sua cintura. O guerreiro enorme a seu lado tirou o capacete, revelando ser um príncipe igualmente maravilhoso. Cabelos dourados, olhos azuis e lábios irresistíveis. Isso sem falar no porte de guerreiro, e nos incríveis músculos que aquela armadura escondia. Nossa, que homem era esse! Mas aquela mulher…
— Minha princesa, eu vim salvá-la, e agora me rendo diante de sua magnífica beleza. – disse o príncipe, ajoelhando-se numa reverência.
— Ora, corta essa! – falou a mulher a seu lado. – Você não vai acreditar nesse canalha, vai? – perguntou, olhando pra princesa. – Deixa eu te contar uma coisa, esse filho da mãe aqui vem usando a mesma frase há anos, pra conquistar todas as princesas da região. Ele não quer casar nem nada. Só quer transar com todas elas. O que ele considera como tesouro ele guarda ali bem no meio das pernas, bem protegido embaixo dessa armadura. O desgraçado disse que veio me salvar, cinco meses atrás, quando eu tava presa numa torre igual a essa. Mas ele não contava com os meus informantes, que já haviam me avisado sobre o caráter desse infeliz. Tentou me convencer, me conquistar, e tudo que conseguiu foi um tapa na cara e um não bem alto que ele tem vergonha de assumir até hoje.
— É tudo mentira! – bradou o príncipe, levantando-se. – Eu sou um guerreiro honrado!
— E esse bafo de cana vem de qual parte da sua honra? – perguntou a princesa guerreira.
— Você andou bebendo? – perguntou a princesa, que havia ficado calada todo esse tempo. Uma expressão de injúria tomando conta de seu rosto.
— Eu… Err… Não… Quer dizer…
— O safado tava enchendo a cara numa taverna na vila mais próxima, com outros bêbados inúteis iguais a ele. – respondeu a princesa dos cabelos negros. – E além disso, eu que matei aquele dragão lá fora! Já esse covarde aqui nunca matou dragão nenhum! Ele tinha um acordo clandestino com a empresa de aluguel de dragões, e sempre que se aproximava, o dragão tinha ordens pra encenar uma luta e logo depois cair fingindo-se de morto. É um falso príncipe, um impostor! Não merece o amor de nenhuma princesa!
— Eu aqui, presa nessa torre, com um dragão infernal me rodeando, e você se embebedando e preocupado apenas em chegar aqui pra me levar pra cama? E ainda é uma farsa! Por que diabos eu sonhei tanto com o homem perfeito se quem me salvou foi uma mulher?! – a princesa gritou.
O príncipe ficou sem palavras, tentando pensar numa desculpa, mas acabou enrolando-se com as frases, gaguejando e tropeçando em explicações absurdas. A princesa guerreira a seu lado esboçou um sorriso vencedor, enquanto o olhava com desprezo.
— Quer saber de uma coisa? – disse a princesa. – Cansei! Cansei de ser uma princesinha esperando por seu maravilhoso príncipe encantado, que é na verdade um covarde bêbado canalha e tarado sem um pingo de respeito! Eu não vou casar com você nem com nenhum dos seus amigos idiotas, nem vou voltar pro meu reino. Se passar por lá, pode avisar que a princesa aqui fugiu com outra princesa, pra nunca mais voltar.
E dito isso tascou um beijão na boca da outra princesa, deixando o príncipe estupefato.
— Ah, a propósito, – ela continuou – esse adorno no seu capacete é super cafona!
E assim, as duas princesas saíram da torre juntas, deixando o príncipe por lá mesmo, desolado e com o orgulho ferido.
Ela rejeitou seu falso príncipe encantado, e resolveu ser salva por uma outra princesa encantada.
E o que mais dizer? Viveram felizes para sempre!




