Dirrty Business – Parte IV

Quatro da madrugada. A estrada permanecia praticamente deserta. Nunca a cidade parecera tão morta. Algumas luzes fracas nos poucos postes que ainda funcionavam. Um ou outro corpo sujo largado pelos cantos das calçadas, mendigos, marginais ou cadáveres desovados. O sangue ignorado era o mesmo, no fim das contas.
Ele saíra apressado da festa, depois de tomar alguns drinks misturados que não lembrava o nome. Também esquecera o nome da garota com quem transara no banheiro depois de aceitar a primeira oferta dela, dividir um ecstasy. Daí pra passar da boca pra dentro da calcinha foi fácil. Mas também não ligava muito, não foi tão bom assim. A garota tava mais bêbada que ele, e os gemidos exagerados dela o irritaram. Teve de se apressar em achar as chaves do carro no meio da confusão de bolsas, roupas e carteiras no meio da sala, e fugir pela porta dos fundos antes que algum maluco apertasse aquele gatilho. Não estava mesmo disposto a morrer por ter dado alguns tapas na garota. E encarar o cano apontado pra sua cabeça não foi nem um pouco agradável. Podia sentir a frieza do metal pressionando sua pele à distância, massageando seu crânio, arranhando sua consciência.
Ouviu dois disparos ao longe, que mal acertaram o carro, já derrapando na pista, massacrando os pneus novos recém-comprados com um cheque sem fundos.
O silêncio quase absoluto daquela estrada agora o perturbava. Seus ouvidos já tinham se acostumado com a barulheira infernal da festa. O som alto, os gritos, as conversas escandalosas, os gemidos das garotas que gostavam de provocar, os urros dos homens tentando mostrar alguma masculinidade forçada. Pareciam mais um bando de animais no cio. Mas ele se sentia rei daquela selva. Pena que teve de ir embora mais cedo, e tudo por causa daquela putinha mentirosa. Ora, ele mal encostou nela! E qual o problema de ter ficado uma enorme marca vermelho-arroxeada no formato da sua mão no rosto dela? Ela não reclamava das marcas em outros lugares…
Agarrava o volante com força. Tudo agora o deixava possesso, precisava aliviar a tensão. E o que melhor do que velocidade? Estava sozinho numa estrada deserta no meio da madrugada, sem policiais à vista, sem outros motoristas, sem pedestres, sem absolutamente nenhum pé-no-saco pra atrapalhar a babaquice-de-macho que ele estava prestes a iniciar.
Ouvira certa vez uma notícia incomum de um casal que fora pego pelos policiais no meio de uma transa enquanto dirigiam a mais de 100 por hora. Esboçou um sorriso ao lembrar dessa manchete. Isso sim era o que poderia ser chamado de rapidinha. Pensou em experimentar algum dia. E então pisou feroz no acelerador, afundando o pé o máximo que pôde.
O ambiente à sua volta transformou-se num borrão disforme que escorria fugaz através dos vidros escuros do carro.
Ele fechou os olhos, largou as mãos do volante, e manteve o pé no acelerador.
Começou a gritar. Sentindo-se novamente o rei daquela selva urbana, hipócrita, libidinosa, masoquista, gananciosa, depressiva e deliciosamente perigosa.
Sentiu-se voando quando os pneus saíram da estrada e percorreram o ar, cortando o vento gelado da noite, enquanto o veículo planava momentaneamente pelo precipício, em direção às pedras lá embaixo.
A garota nua que estava dormindo escondida no banco de trás acordou com o solavanco brusco quando o carro passou da terra ao ar, e não teve muito tempo pra pensar, gritar, ou sentar no colo dele.




Narlayne disse,
Maio 14, 2009 às 1:37 am
N-o-s-s-a! Não esperava esse final com outra pessoa além dele.
Juliana disse,
Maio 16, 2009 às 3:13 am
:O Loooouco!!!! Mas fdeve ser maneiro acelerar o carro no máximo e fechar os olhos… Mas eu não faria isso! rsrsrs