Dia do Orgulho Nerd
Porque eu me reservo o direito de permanecer em casa o tempo que eu bem entender, passando o tempo todo na frente do computador ou lendo algum livro. E eu me reservo o direito de fazer piadinhas infames sobre a seqüência da fita de DNA, sobre elementos químicos, sobre terópodes e galinhas e sobre o gato de Schrodinger. E não é crime nenhum ser fissurado em ficção-científica, e saber as Três Leis da Robótica de Asimov de cor, e levá-las a sério, aplicando os conceitos do mestre escritor num futuro hipotético onde as máquinas dominarão o mundo. (Ou tentarão, pelo menos, porque são os nerds que dominarão o mundo na verdade). E nós somos sim loucos por jogos de RPG que requerem estratégia, raciocínio lógico e imaginação. (Não venha nos chamar de cheaters, vocês que são noobs!). E nosso círculo social é imenso, oras, milhares de contatos com avatares online em todos os nossos MMORPG preferidos! (E vai pedir “Me upa” lá na casa do cacete!).
Reservamo-nos o direito de ler, ao mesmo tempo e não necessariamente seguindo uma ordem, livros, textos e artigos sobre Física Teórica, Teoria M, Nanotecnologia, Biotecnologia, Astrofísica, Teoria do Caos, Computação Quântica e sonhar com a futura comercialização daquela roupa de metamaterial que uns japoneses pirados (sempre eles!) inventaram. (Finalmente um cosplay mais realístico da Mulher Invisível será possível!).
E temos um imenso prazer maquiavélico em assistir seriados explicitamente nerds como The Big Bang Theory e House com pessoas que não entendem nem metade das piadas e ficam com cara de retardadas enquanto nos esbaldamos de rir. (Isso vale pr’Os Simpsons também).
Não nos importamos nem um pouco com nosso bronzeado de animal de caverna e nossa alimentação desregulada. Estamos mais preocupados em achar uma maneira de resolver o Paradoxo do Avô e possibilitar viagens temporais. (Talvez depois de conseguirmos manipular as supercordas e alterarmos as propriedades de nossos próprios componentes para que se tornem grávitons temporários e escorram pelas membranas do multiverso hipotético de 11 ou 26 dimensões…).
E também não nos importamos se nossa mesa do PC é uma bagunça generalizada, cheia de livros, papéis, cabos do mp4, do celular, do joystick, e de coisas que nem imaginamos, porque sempre nos achamos. (“Um pouco bagunçado? O Conjunto de Mandelbrot é um pouco bagunçado, isso é o caos!” – by Sheldon, alguém lembra desse episódio? =P). Aliás, nossa (des)organização peculiar é de uma beleza fractal!
E acharíamos o máximo bater um papo com Aldous Huxley, William Gibson ou o já citado Isaac Asimov. E discutir questões científicas e existenciais sobre o desenvolvimento tecnológico e suas implicações na sociedade. Mas também acharíamos o máximo rir de todos os idiotas sem cérebro que nos zuaram quando eles se depararem com o futuro brilhante que nos aguarda, pois nós, nerds, somos os ricos do futuro! (Passando do capitalismo informacional ou tecnológico pra uma era mais gloriosa onde o verdadeiro tesouro é a inteligência. E nós seremos alvos de megacorporações que investirão em centros de pesquisa científica e nos bancarão pra estudarmos e desenvolvermos a cura do câncer, o teletransporte, os verdadeiros carros voadores, a solução pra superpopulação, a resposta pra singularidade dos Buracos Negros, aparelhos portáteis de realidade virtual, videogames holográficos e a fórmula da imortalidade!).
Nós, nerds, lutamos pacificamente por um futuro ainda mais cheio de bugigangas tecnológicas pra satisfazer nossa fome por circuitos integrados, widgets mais legais pra colocarmos em nossos blogs, jogos com IAs mais desafiadoras e NPCs mais astutos, filmes e livros de sci-fi com efeitos mais realísticos (sempre quebrando todas as leis da física), e robôs que nos ajudarão nas tarefas domésticas (ou simplesmente servirão como bichinhos de estimação ou guarda-costas repletos de peças de artilharia e parafernálias construídas por nós mesmos em nossas garagens de cientistas malucos pra que possamos travar emocionantes lutas entre robôs em convenções de tecnologia).
Reservamo-nos o direito de aprender japonês assistindo episódios legendados de filmes, animes, e tokusatsus. E que possamos sair às ruas com as roupas de nossos personagens preferidos, sem que nos olhem torto. (Por pura inveja, fala a verdade!).
Um viva a todos os inúmeros tipos de nerds que existem por esse mundão afora! Aos que quase se fundem com seus computadores, enxergam a vida em códigos de programação e falam em 0 e 1. Aos que mergulham em mangás e comic books, acompanham os respectivos seriados e são verdadeiras enciclopédias de super-heróis. Aos que vivem num universo paralelo de ficção dominado por um futuro distópico cyberpunk regido pelas leis de Asimov e Gibson. Aos que idolatram Star Trek e afins e que a força esteja com vocês! Aos que colecionam de tudo, desde bonecos de personagens (que nunca saem da embalagem!) até insetos dissecados recolhidos no quintal da avó. Aos que sabem de cor milhares de nomes científicos de répteis pré-históricos e conseguem explicar a história geológica do planeta com uma facilidade inacreditável. Aos que se matam de tanto estudar, independente do curso que façam na faculdade, e fervem os cérebros levando-os ao limite pra atender às exigências de professores sádicos. Aos que são (bravamente) pesquisadores e cientistas nesse país que não dá o devido incentivo à ciência. E a todos que se assumem nerd com muito orgulho, pelo simples fato de possuírem uma sede incontrolável por conhecimento, e por se interessarem por todos aqueles assuntos obscuros e esquisitos que nunca ninguém ouviu falar.
Só existem 10 tipos de pessoas no mundo, os nerds e o resto.
Brighter
— Excuse-me, I’m tryin’ to find the bridge Saint Peter.
He stopped pulling the baggage out of the car, raised up his head and looked behind him, seeking the owner of that sweet voice. His eyes faced a strange woman. She was wearin’ black jeans and a gray t-shirt, the same color of the sky above ‘em.
She looked sad, but yet, incredibly beautiful, with deep blue eyes and provocative lips.
— I’m sorry, I don’t know how to get there. – He answered. – I’m kinda new around here. I just arrived from Sidney, long drive, you know… But, I can ask my brother about the bridge. He’s at work now, but I can call.
He didn’t know why all this emergency in helping that unknown girl. Maybe the sorrow hidden between her words and movements.
— Ah, it would be so nice of you. But I don’t want you to bother your brother, I can ask someone else.
— No, please, let me help you. – He said almost immediately, pulling the cell phone from inside his pocket, opening the flip and pressing the buttons.
She was nervous. And that was very clear because her hands didn’t stop shaking since she got there and asked for directions. And also, she seems to be sweating, and that was really odd, ‘cause the time was so damn cold that even the breath could freeze inside the lungs.
— Hey, Martin! It’s Nick! Listen to me, there’s a friend of mine here who wants to know how to get to the Saint Peter Bridge… Yeah, we’re in front of your house, I just got here and… Sure, sure, I’m all right, sorry I didn’t call earlier and… Yeah, I know, I’m gonna feed the damn fishes, now answer me, how can her get to that bridge?
And he listened carefully to the instructions, but his attention was so strong, that he didn’t realized that the woman was already walking away from him, looking for something in the air around her..
— Hey, lady, where are you goin’?? – He was runnin’ after her.
She stopped and thought that he was too nice to know what she was about to do. So, the girl only smiled at him, made a signal with her hands that no more directions was needed, and continued to walk along the street.
He was confuse, and kind of desperate to help her. He knew somethin’ was very wrong about everything that happened in the last minutes, but who was him? No one to her! He didn’t want to admit but he was obsessed by a woman he not even knew the name!
— Why do you wanna go there? To that bridge… It’s a bad day, with all those clouds in the sky… A storm is comin’… – He was walkin besides her, without lookin’ at her face.
— I’m tryin’ to find my own peace of mind.
— And what the bridge has to do with that? Can’t you just meditate alone inside a warm room at you house? Do you really need to find peace of mind in the middle of a comin’ storm?
She laughed, and at that exactly moment, he felt like she was the brightest girl he ever know. Shining just like a star. Somethin’ about all that mystery was caughtin’ him like a spell. She got him completely under her magical skills.
— On the bridge I can feel like I got wings… – She said while her eyes stared nowhere.
— And why that?
— I’m gonna fly away… To some new fantasy world where I can be myself, where no masks are needed, where no one needs to hide inside ‘em what they really think and feel… I’m gonna fly away to my own little piece of liberty…
And then he realized why all that sorrow hidden so well.
— But… You can’t… I mean… You can’t do that, you… You have so much to live! – The last sentence sounded empty, but he didn’t know what to talk, he never faced a suicide before. And he was walking her to the bridge without noticing it.
Only when the great pillars of concrete appeared on the horizon, revealing the beginning of that old bridge, he stopped himself and grabbed her hand with violence.
— I won’t let you do it.
— Why not? You don’t even know me! Let me go, now! Or I’ll scream you’re assaulting me!
— And so what? Call the cops? Come on, do it! I dare you!
She not even opened her mouth. They both knew that if the cops were noticed about an attempt of suicide, a whole circus would be born there, with journalists, firemans and a bunch of curious.
He let her hands smoothly, feeling a little guilty about it. But he needed to do something more invasive, that girl wanted to kill herself!
— Gimme just one good reason to live, and I’ll go to my home right now. – She said. – Now it’s my time to dare you.
He swallowed in dry. What can you say to make someone believe that was better living than dying?
— Look, the world is fucked up, okay? And I know that, but you can’t just end it all like that! Don’t give up, girl, there’s a lot of things to be discovered out there! You look so young, and you’re so beautiful!
— Oh, please, don’t come with that bullshit about beauty, poetry and how good the world could be if we learn how to look from another point of view. I’ve been hearin’ it for all my life, and I just think that all these little reasons are too fragile. Well, surprise! Now they’re all broken, and nothin’ can fix that! So just get the hell out of here, and let me jump from this bridged, because in the last moments of my freakin’ life I wanna feel like nothin’ else exists around me, not even you or this pointless conversation.
He never felt so weak. What else he could say? He just stepped back, showing agreement.
He didn’t stand there to watch anything. Not even to hear the sound of her body crashing down there, into the ocean, and all her bones and dreams breakin’ together…
But in his mind, she never got really drowned. She only made what she wanted. Got to the bridge, opened her angel wings, and flew away to another world… Somewhere better than this, somewhere brighter, like her smile on that cloudy day…
Dirrty Business – Parte IV

Quatro da madrugada. A estrada permanecia praticamente deserta. Nunca a cidade parecera tão morta. Algumas luzes fracas nos poucos postes que ainda funcionavam. Um ou outro corpo sujo largado pelos cantos das calçadas, mendigos, marginais ou cadáveres desovados. O sangue ignorado era o mesmo, no fim das contas.
Ele saíra apressado da festa, depois de tomar alguns drinks misturados que não lembrava o nome. Também esquecera o nome da garota com quem transara no banheiro depois de aceitar a primeira oferta dela, dividir um ecstasy. Daí pra passar da boca pra dentro da calcinha foi fácil. Mas também não ligava muito, não foi tão bom assim. A garota tava mais bêbada que ele, e os gemidos exagerados dela o irritaram. Teve de se apressar em achar as chaves do carro no meio da confusão de bolsas, roupas e carteiras no meio da sala, e fugir pela porta dos fundos antes que algum maluco apertasse aquele gatilho. Não estava mesmo disposto a morrer por ter dado alguns tapas na garota. E encarar o cano apontado pra sua cabeça não foi nem um pouco agradável. Podia sentir a frieza do metal pressionando sua pele à distância, massageando seu crânio, arranhando sua consciência.
Ouviu dois disparos ao longe, que mal acertaram o carro, já derrapando na pista, massacrando os pneus novos recém-comprados com um cheque sem fundos.
O silêncio quase absoluto daquela estrada agora o perturbava. Seus ouvidos já tinham se acostumado com a barulheira infernal da festa. O som alto, os gritos, as conversas escandalosas, os gemidos das garotas que gostavam de provocar, os urros dos homens tentando mostrar alguma masculinidade forçada. Pareciam mais um bando de animais no cio. Mas ele se sentia rei daquela selva. Pena que teve de ir embora mais cedo, e tudo por causa daquela putinha mentirosa. Ora, ele mal encostou nela! E qual o problema de ter ficado uma enorme marca vermelho-arroxeada no formato da sua mão no rosto dela? Ela não reclamava das marcas em outros lugares…
Agarrava o volante com força. Tudo agora o deixava possesso, precisava aliviar a tensão. E o que melhor do que velocidade? Estava sozinho numa estrada deserta no meio da madrugada, sem policiais à vista, sem outros motoristas, sem pedestres, sem absolutamente nenhum pé-no-saco pra atrapalhar a babaquice-de-macho que ele estava prestes a iniciar.
Ouvira certa vez uma notícia incomum de um casal que fora pego pelos policiais no meio de uma transa enquanto dirigiam a mais de 100 por hora. Esboçou um sorriso ao lembrar dessa manchete. Isso sim era o que poderia ser chamado de rapidinha. Pensou em experimentar algum dia. E então pisou feroz no acelerador, afundando o pé o máximo que pôde.
O ambiente à sua volta transformou-se num borrão disforme que escorria fugaz através dos vidros escuros do carro.
Ele fechou os olhos, largou as mãos do volante, e manteve o pé no acelerador.
Começou a gritar. Sentindo-se novamente o rei daquela selva urbana, hipócrita, libidinosa, masoquista, gananciosa, depressiva e deliciosamente perigosa.
Sentiu-se voando quando os pneus saíram da estrada e percorreram o ar, cortando o vento gelado da noite, enquanto o veículo planava momentaneamente pelo precipício, em direção às pedras lá embaixo.
A garota nua que estava dormindo escondida no banco de trás acordou com o solavanco brusco quando o carro passou da terra ao ar, e não teve muito tempo pra pensar, gritar, ou sentar no colo dele.



