Porque o fim é sempre o mesmo…
Às vezes o tempo parece se arrastar vagaroso, como magma quente, escorrendo lentamente e sem a mínima vontade de acelerar seu processo irredutível de nos levar em direção à morte. Pois o tempo é o verdadeiro ceifeiro de almas, o verdadeiro descoloridor de belezas eternizadas em versos poéticos calorosos e inundados de lágrimas. O tempo é, por si só, responsável por nos lembrar de nossa cruel natureza humana finita, com um ponto crucial estacado em nossa velhice, que nos priva de nossa condição orgânica pulsante e nos rebaixa a simples compostos sendo devorados.
E o tempo se arrasta tão indiferente às nossas angústias e aos nossos medos. Carrega consigo um peso que nem mesmo Atlas suportaria, e joga-o em cima de nossos ombros frágeis, espatifando nossas clavículas em uma mistura sanguinolenta de arrependimento. E então fica aquela sensação de algo perdido, de algo esquecido, abandonado no passado, envolto em poeira, cinzas, névoa, pó. Puras migalhas de um presente que não mais voltará, pois o tempo já o enterrou em catacumbas inalcançáveis, em covas intermináveis, com lápides lutuosas recheadas de inscrições confusas e contraditórias, emanadas do fundo de nossas mentes e corações.
E esse andar quase parando do tempo que nos mergulha no pior de todos os demônios. Pois somente sentimos essa quase paralisação temporal quando nos deparamos com o escárnio na face do tédio. E o tédio é o terror de toda e qualquer ação mortal, pois é ele o causador de nossos desesperos infundados, de nosso cansaço inexplicável, de nossa fraqueza muscular aparentemente irreal, e de nossa vontade de deitar o corpo num canto qualquer, fechar os olhos e apenas esperar essa sensação aterrorizante destruir-se em si mesma.
É o tédio o alarme que nos avisa da falta de sentido. E a falta de sentido é o parceiro assassino do tempo, é aquele que caminha lado a lado com o tempo, sendo responsável por provocar suas ações marginais homicidas, causando o colapso de jovens e adultos, enquanto adormece docemente a agitação enfurecida e engaiolada dos velhos, lacerando-lhes a vida. É o não ter sentido que nos arrasta junto com o tempo para um mar negro infestado de correntes sencientes, que nos agarram e nos esmagam, que nos ameaçam e nos dizem entre lábios enferrujados suas palavras ferinas de angústia. Suas bocas ocres de uma ferrugem rubra riem, e seus dentes brilhantes de escárnio e ironia mostram-se apavorantes em nossas caras lanhadas. E mergulhamos mais uma vez nesse mar, nesse pesadelo da vida, prestes a iniciar uma valsa apaixonante com a morte.
Ter a consciência de que nada vale, de que nada possui valor, de que nada esconde um sentido maior, de que tudo à nossa volta é simplesmente vazio, apagado, imóvel, concreto, duro, frio, calculável, morto. É o que nos leva a argumentar de que vale nossa própria vida, então. De que adiante viver se não é possível desfrutar de um mundo belo e recheado de significado, pois nada é o que parece e apenas estamos enganados por nossas fantasias luxuriosas e conflitantes, manipulados por nossos desejos descartados e nossos vis sonhos colonizados. Então de que vale respirar o ar que nos rodeia, tocar as pétalas de uma rosa em um campo verdejante, observar o oceano agitar-se sereno em meio à chuva fina que desce dos céus? De que vale gastar nosso precioso tempo traiçoeiro em ações inúteis? De que adianta esforçar-se duramente perante os obstáculos labirínticos de nossa jornada se ao final de tal missão encontraremos o Minotauro esperando pacientemente por comer feroz nossa carcaça esgarçada? Pois se no caminho nada nos deslumbra, nada nos eleva, nada nos faz brilhar a íris e perder o fôlego, então de nada vale percorrer teus sinuosos corredores. Então de nada vale nada. E o tempo volta a arrastar-nos para o tédio da ignorância, da obscuridade, e do ato de desistir de nós mesmos.
A repetição de uma rotina entediante, e a realização de tarefas mecanizadas e programadas são o alimento crucial do assassino temporal. São a ração fresca que nutre teus horrores. E se você deixa que assim seja, e se você permite que assim aconteça, esteja avisado de que o tédio assaltará tua casa sagrada, e de que tu serás a vítima primordial de teus golpes violentos e impiedosos.
Não te percas em teu próprio labirinto. Não deixe que o entupimento de seu precioso tempo ou a disponibilidade exagerada dele afete seus sentidos aguçados. Uma vez na estrada da escuridão e muito dificilmente alguém conseguirá te puxar pra fora. E a falta de sentido, essa serpente maldita que permeia teus gramados verde-limão e teus lagos cristalinos, ela o amaldiçoará eternamente em um ciclo tortuoso e interminável, repleto de sofrimento infindável e um infortúnio esmagador.
Pois o tempo que nos acompanha, é amigo e inimigo. É escudo e é espada. É mel e é veneno.
Mas há uma maneira de driblá-lo. Há uma maneira simples de fugir de seus horrores e percorrer outra estrada, longe de sua foice e das presas ofídicas do tédio e da falta de sentido. Tudo que você precisa fazer é abrir melhor os olhos, respirar com mais vontade, tocar com mais delicadeza, e sentir com muito, mas muito mais intensidade.
Essa é a minha principal arma contra esse monstro lendário. E a arte me proporciona todas as ferramentas de que necessito para construir minha muralha e manter meus soldados devidamente armados e preparados. É a minha paixão pela vida que me permite encarar a morte com menos de um centímetro de distância, a ponto de sentir o cheiro fétido e pútrido de teus órgãos esburacados e enegrecidos, e mesmo assim poder sorrir zombeteira e afastá-la com um empurrão. E mesmo que ela volte novamente por incontáveis vezes mais, eu serei capaz de repelir tua frieza com cada vez mais força, pois já experimentei o gosto amargo de seus encantos ambivalentes. E por mastigar o tédio, a falta de sentido e a morte todos juntos e depois cuspi-los, que eu pude perceber como a valsa da vida é imensamente melhor e muito mais grandiosa.
Mas essa batalha ainda não está ganha. E está longe de terminar…
O amor que sinto pela vida, o amor que sinto por tudo aquilo que aprecio e gosto, o amor que sinto pelos meus amigos, o amor que sinto por todos os mistérios que ainda pretendo descobrir, o amor que sinto por tudo aquilo me é atraente, o amor que sinto por toda a arte sincera que exprime suas entranhas multicoloridas, o amor que sinto por sentir todo esse amor, e o amor que me mantém viva por amar tanto mesmo não sendo amada, é o amor que repele a morte de mim, é tudo que mantém meus castelos em pé, imponentes, ilustres e deliciosamente de cabeça-pra-baixo…




Narlayne disse,
Abril 15, 2009 às 12:03 am
Amiga, achei esse texto muito bom. Vc não sabe como fico feliz por vc ter passado por cima desse monstro. Pq afinal essa mente brilhante ainda tem mto oq descobrir, e mta semente pra plantar nas cabeças de quem se depara com ela.
Mas qnto ao tédio e a falta de sentido, ela andou me cutucando. rsrs Só espero q ela não me pegue.
Bjssss ♥