Porque o fim é sempre o mesmo…

Abril 13, 2009 at 12:40 am (Uncategorized)

Às vezes o tempo parece se arrastar vagaroso, como magma quente, escorrendo lentamente e sem a mínima vontade de acelerar seu processo irredutível de nos levar em direção à morte. Pois o tempo é o verdadeiro ceifeiro de almas, o verdadeiro descoloridor de belezas eternizadas em versos poéticos calorosos e inundados de lágrimas. O tempo é, por si só, responsável por nos lembrar de nossa cruel natureza humana finita, com um ponto crucial estacado em nossa velhice, que nos priva de nossa condição orgânica pulsante e nos rebaixa a simples compostos sendo devorados.

E o tempo se arrasta tão indiferente às nossas angústias e aos nossos medos. Carrega consigo um peso que nem mesmo Atlas suportaria, e joga-o em cima de nossos ombros frágeis, espatifando nossas clavículas em uma mistura sanguinolenta de arrependimento. E então fica aquela sensação de algo perdido, de algo esquecido, abandonado no passado, envolto em poeira, cinzas, névoa, pó. Puras migalhas de um presente que não mais voltará, pois o tempo já o enterrou em catacumbas inalcançáveis, em covas intermináveis, com lápides lutuosas recheadas de inscrições confusas e contraditórias, emanadas do fundo de nossas mentes e corações.

E esse andar quase parando do tempo que nos mergulha no pior de todos os demônios. Pois somente sentimos essa quase paralisação temporal quando nos deparamos com o escárnio na face do tédio. E o tédio é o terror de toda e qualquer ação mortal, pois é ele o causador de nossos desesperos infundados, de nosso cansaço inexplicável, de nossa fraqueza muscular aparentemente irreal, e de nossa vontade de deitar o corpo num canto qualquer, fechar os olhos e apenas esperar essa sensação aterrorizante destruir-se em si mesma.

É o tédio o alarme que nos avisa da falta de sentido. E a falta de sentido é o parceiro assassino do tempo, é aquele que caminha lado a lado com o tempo, sendo responsável por provocar suas ações marginais homicidas, causando o colapso de jovens e adultos, enquanto adormece docemente a agitação enfurecida e engaiolada dos velhos, lacerando-lhes a vida. É o não ter sentido que nos arrasta junto com o tempo para um mar negro infestado de correntes sencientes, que nos agarram e nos esmagam, que nos ameaçam e nos dizem entre lábios enferrujados suas palavras ferinas de angústia. Suas bocas ocres de uma ferrugem rubra riem, e seus dentes brilhantes de escárnio e ironia mostram-se apavorantes em nossas caras lanhadas. E mergulhamos mais uma vez nesse mar, nesse pesadelo da vida, prestes a iniciar uma valsa apaixonante com a morte.

Ter a consciência de que nada vale, de que nada possui valor, de que nada esconde um sentido maior, de que tudo à nossa volta é simplesmente vazio, apagado, imóvel, concreto, duro, frio, calculável, morto. É o que nos leva a argumentar de que vale nossa própria vida, então. De que adiante viver se não é possível desfrutar de um mundo belo e recheado de significado, pois nada é o que parece e apenas estamos enganados por nossas fantasias luxuriosas e conflitantes, manipulados por nossos desejos descartados e nossos vis sonhos colonizados. Então de que vale respirar o ar que nos rodeia, tocar as pétalas de uma rosa em um campo verdejante, observar o oceano agitar-se sereno em meio à chuva fina que desce dos céus? De que vale gastar nosso precioso tempo traiçoeiro em ações inúteis? De que adianta esforçar-se duramente perante os obstáculos labirínticos de nossa jornada se ao final de tal missão encontraremos o Minotauro esperando pacientemente por comer feroz nossa carcaça esgarçada? Pois se no caminho nada nos deslumbra, nada nos eleva, nada nos faz brilhar a íris e perder o fôlego, então de nada vale percorrer teus sinuosos corredores. Então de nada vale nada. E o tempo volta a arrastar-nos para o tédio da ignorância, da obscuridade, e do ato de desistir de nós mesmos.

A repetição de uma rotina entediante, e a realização de tarefas mecanizadas e programadas são o alimento crucial do assassino temporal. São a ração fresca que nutre teus horrores. E se você deixa que assim seja, e se você permite que assim aconteça, esteja avisado de que o tédio assaltará tua casa sagrada, e de que tu serás a vítima primordial de teus golpes violentos e impiedosos.

Não te percas em teu próprio labirinto. Não deixe que o entupimento de seu precioso tempo ou a disponibilidade exagerada dele afete seus sentidos aguçados. Uma vez na estrada da escuridão e muito dificilmente alguém conseguirá te puxar pra fora. E a falta de sentido, essa serpente maldita que permeia teus gramados verde-limão e teus lagos cristalinos, ela o amaldiçoará eternamente em um ciclo tortuoso e interminável, repleto de sofrimento infindável e um infortúnio esmagador.

Pois o tempo que nos acompanha, é amigo e inimigo. É escudo e é espada. É mel e é veneno.

Mas há uma maneira de driblá-lo. Há uma maneira simples de fugir de seus horrores e percorrer outra estrada, longe de sua foice e das presas ofídicas do tédio e da falta de sentido. Tudo que você precisa fazer é abrir melhor os olhos, respirar com mais vontade, tocar com mais delicadeza, e sentir com muito, mas muito mais intensidade.

Essa é a minha principal arma contra esse monstro lendário. E a arte me proporciona todas as ferramentas de que necessito para construir minha muralha e manter meus soldados devidamente armados e preparados. É a minha paixão pela vida que me permite encarar a morte com menos de um centímetro de distância, a ponto de sentir o cheiro fétido e pútrido de teus órgãos esburacados e enegrecidos, e mesmo assim poder sorrir zombeteira e afastá-la com um empurrão. E mesmo que ela volte novamente por incontáveis vezes mais, eu serei capaz de repelir tua frieza com cada vez mais força, pois já experimentei o gosto amargo de seus encantos ambivalentes. E por mastigar o tédio, a falta de sentido e a morte todos juntos e depois cuspi-los, que eu pude perceber como a valsa da vida é imensamente melhor e muito mais grandiosa.

Mas essa batalha ainda não está ganha. E está longe de terminar…

O amor que sinto pela vida, o amor que sinto por tudo aquilo que aprecio e gosto, o amor que sinto pelos meus amigos, o amor que sinto por todos os mistérios que ainda pretendo descobrir, o amor que sinto por tudo aquilo me é atraente, o amor que sinto por toda a arte sincera que exprime suas entranhas multicoloridas, o amor que sinto por sentir todo esse amor, e o amor que me mantém viva por amar tanto mesmo não sendo amada, é o amor que repele a morte de mim, é tudo que mantém meus castelos em pé, imponentes, ilustres e deliciosamente de cabeça-pra-baixo…

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Visões de Mundo

Abril 6, 2009 at 3:41 am (Uncategorized)

O mundo é o que queremos que ele seja. Ponto final.

Nem mais nem menos, sem todas aquelas intervenções filosóficas complicadíssimas que dariam nó na cabeça do ser mais pensante do universo. O mundo simplesmente se apresenta a nós da maneira que queremos enxergá-lo. E através da vida nós utilizamos diferentes e variados tipos de lentes diante de nossos olhos. Com vários tipos de tamanhos, formatos, cores e graus. E é através dessas tênues ou espessas peças espelhadas que observamos o mundo à nossa volta. E só por observar o mundo, nós já o modificamos (assim dizia Heinsenberg). Lembrando que essa frase anterior refere-se a um conceito de física quântica que se aplica ao mundo subatômico (pelo menos visivelmente, porque acontece no mundo real, nós só não conseguimos enxergar seus efeitos devido à escala de tamanho. É a mesma coisa com a relatividade geral, que também age no nosso mundinho cotidiano, mas não percebemos porque não vivemos na velocidade da luz… Mas enfim, nerdismos à parte…)

Encaramos o mundo lá fora de acordo com a maneira que estamos encarando a nós mesmos…

Duvida? Vamos a um exemplo bem prático… Imagine-se nas situações a seguir…

Você acorda de MUITO mau humor sei lá por que motivo (ou por motivo nenhum…)

Levanta puto com o barulho irritante do despertador, e dá uma porrada nele pra finalizar o ruído. Faz uns grunhidos irreconhecíveis ainda de olhos fechados, com um ódio mortal de ter que acordar às 5:30 da manhã pra mais um dia de trabalho tedioso. Levanta praguejando e vai se arrastando até o banheiro, ainda meio tonto de sono. E devido a essa embriaguez dá uma topada no pé do sofá no meio do caminho, massacrando seu dedinho (porque é sempre ele o atingido). Você xinga um palavrão enorme e escabroso com tanta força que até acorda, e vai possesso pro banheiro, enquanto manca um pouquinho. Escova os dentes com tanta raiva que incrivelmente consegue machucar a própria gengiva com a escova. (porque o mau humor nos faz executar toda e qualquer ação, por mais simples que seja, com uma força sobrehumana e completamente desnecessária). Toma um banho rápido, puto porque a água tá gelada e o clima tá um frio dos infernos. Mas pelo menos serve pra te deixar mais atento, apesar de mais enfurecido.

Vai pro quarto com a toalha enrolada na cintura. Mas sua pressa era tanta que prendeu mal a toalha e ela cai no meio do caminho. E você estava andando com tanta pressa e pisando com tanta força que não teve tempo de evitar pisar na toalha recém-caída e levar um baita tombo bem no meio da sala, caindo pra frente, com a bunda pro alto, totalmente pelado. Depois de xingar uma sequência impressionante de palavrões que até você mesmo desconhecia, levanta-se pelado mesmo, deixando a porra daquela toalha filha da puta no chão, como você mesmo diria.  Abre as duas portas do armário com tanta ignorância que a da esquerda bate e volta acertando sua mão e a outra desgarra do pino superior e solta, ficando pendurada e quase indo ao encontro da sua testa. Você realmente desconhecia o quanto seus músculos são poderosos em momentos assim. Qualquer roupa tá bom, e você veste a primeira coisa que sua mão alcança no meio daquele amontoado caótico que é o interior do seu armário. Sem mais esperar, pega a maleta e sai à rua, rumo ao ponto de ônibus.

Como seu dia começou maravilhosamente bem, você não foge de tropeçar num buraco na calçada no meio do caminho (com o mesmo pé que deu a topada no sofá), e lança outro “putaquepariucaralhoporra” bem grande, assustando uma velhinha que vai passando na hora. Mas sua expressão é tão ameaçadora que a senhora agarra a bolsa com mais força e aperta o passo pra bem longe de você. No ponto, o ônibus se atrasa mais de uma hora, devido a um acidente no caminho. Você entra na veículo já puto quando ele finalmente chega, passa pela roleta como se quisesse arrancá-la, e tenta prender a língua quando o trocador lhe confere um sorridente “Bom dia!”. Você olha bem pra cara dele, praquela expressão exagerada de felicidade e manda: “Bom dia é o caralho!”. Mas não vai se sentar depois disso, porque não tem lugar vazio e você precisa ficar em pé, se segurando naqueles ferros melequentos, enquanto outras pessoas insuportáveis ficam se escorando e se esfregando em você. “Incrível!”, você pensa,”Resolveram soltar todos os babacas xexelentos na rua hoje, e todos eles resolveram pegar a mesma porra desse ônibus de merda!”. Como se não bastasse, aquele motorista que tá mais irritado que você dirige igual um maníaco psicótico e faz o ônibus parecer um caminhão cheio de carcaça de boi. Vocês balançam de um lado pro outro e quase são arremessados pelas janelas nas curvas fechadas.

Finalmente você chega ao ponto, e assim que desce do veículo, uma trovoada ensurdecedora anuncia o temporal que imediatamente começa a cair. Em três passos você já está completamente encharcado, com os punhos cerrados de ódio, os dentes rangendo tanto que quase desgasta todo o esmalte de seus dentes, e você pensa que nada de pior pode lhe acontecer. É quando você entra no bendito prédio da empresa, e um dos seus colegas de trabalho vem em sua direção com uma expressão desolada no rosto. Você nem pergunta, mas ele já vem lhe avisando: “Ah, cara, você não vai acreditar! Tentei te avisar, mas seu celular só dava ocupado. A empresa faliu! Essa crise filha da puta deixou todo mundo na merda, e agora a gente tá na rua!”.

Você não sabe se chora ou se pula de alegria.

“Puuuuuuta que pariu, pra que caralho eu fui levantar da cama hoje se essa porra faliu??!!!!”

Mas então, pela primeira vez, você consegue enxergar o lado bom das coisas.

“Aaahhhhh eu nunca mais vou ter que trabalhar pra esse bando de merda! Pooooooorra, to livre dessa caralhaaaaaaaaaaaaaa!”

E sai saltitando pela rua, dançando na chuva, ignorando as pessoas que o olham estranhamente. Cantarolando coisas sem sentido e gritando como o mundo é lindo mesmo num dia chuvoso, enquanto taca sua maleta no meio da avenida pra ser destroçada por um caminhão de carga. E esquece da dor no pé, e esquece do ônibus, e esquece de tudo que o atormentara, e sai pulando feliz da vida, sentindo-se livre, tão livre que parecia até estar totalmente nu… Talvez aquele trocador tenha mesmo ficado com pena de responder a grosseria, e aquela senhora tenha se afastado tão assustada porque não via essas coisas há muito tempo… Mas você ignora, e segue alegre, com um sorrisão no rosto, a blusa social agora aberta, o sapato social batendo no chão, e a cueca de coraçãozinho molhada colando no corpo… Enquanto a calça social dorme largada em cima da cama…

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