Tinta, Sangue e Suor

Fevereiro 28, 2009 at 8:20 pm (Uncategorized)

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Os gritos e cantos que emanavam das ruas confundiam-se num entoar quase que religioso. Os revoltosos caminhavam a passos lentos, porém firmes, empunhando bandeiras de pano rasgado e papel borrado de tinta, erguendo placas de madeira e exaurindo todo o ar quente de seus pulmões em berros de protesto. A multidão de jovens ocupava toda a larga avenida, impedindo o tráfego dos veículos e ocasionando um enorme engarrafamento que estendia-se já por quilômetros. Os policiais preparavam-se com seus colossais escudos de plástico reforçado, capacetes, cassetetes e bombas de efeito moral.

Ele andava pelos cantos da multidão, com o rosto escondido por uma camisa azul suada e enrolada, deixando transparecer apenas seus olhos de um cinza profundo, abrigadas por uma sobrancelha grossa e negra, que delineava sua expressividade de ódio derramado. Trajado apenas com uma calça jeans puída nos joelhos que desafiava as leis da física para não cair, e dotado de um enorme pedaço de pau que colhera pelo caminho, ele seguia determinado a enfrentar quem fosse preciso. Seu peito virara uma placa ambulante. Um mal feito “Nunca mais!” fora escrito com tinta vermelha, cobrindo seu tórax e seu abdômen. O calor escaldante que banhava as ruas parecia agir sobre seu corpo e fundir o pigmento rubro à sua pele, como se fosse uma sentença talhada a faca, marcada com seu próprio sangue.

A marcha ordenada dos policiais já podia ser ouvida. Suas botas castigavam o asfalto, no mesmo ritmo com que seus cassetetes desferiam golpes ameaçadores em seus escudos, cuidadosamente erguidos na frente de seus corpos. Como um exército romano preparando-se para guerrear com bárbaros invasores. Eram apenas ordens, afinal. Eram apenas regras que deveriam ser seguidas. Algumas mortes depois do fim do dia e o máximo que aconteceria seria um lembrete fugidio nos jornais da noite e o completo esquecimento na manhã seguinte. Quem se importa com um bando de jovens revoltosos? Quem liga para suas ambições, seus desejos, suas consciências? Quem sequer dá ouvidos ao que eles clamam tão fervorosamente, mas definitivamente sem nenhum caráter religioso? Quem leva a sério suas idéias grandiosas e seus ideais oníricos?

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Reivindicar seus direitos naturais. Era isso o que todos aqueles jovens faziam nas ruas no meio da semana, fugidos de seus colégios, cursos, universidades, trabalhos. Indiferentes ao tumulto que causavam por obstruir uma rua importante, uma rua onde o fluxo de capital era prioridade. Afinal, por que mais a rua estaria tão bem asfaltada, bem cuidada e agora quase que militarmente protegida? Experimente realizar uma rebelião numa estradinha de terra num interior qualquer, ou em alguma rua esburacada e abandonada pelas autoridades em algum subúrbio violento e terás todo aquele pedaço de chão para protestar sem ninguém se preocupar em tirá-lo dali. Pelo menos não com tanta urgência e preocupação.

Um chiado como o de uma chaleira que deixa escapar seu vapor borbulhante fez-se ouvir na linha de frente. O jovem de olhos cinza esgueirava-se como um surrupiador furtivo pelas calçadas, entre postes, latões de lixo e becos entrecruzados. Mas mantinha o olhar atento ao movimento, e flagrou o exato momento em que foi deflagrado o combate. A bomba de gás lacrimogêneo estourou e atingiu os primeiros revoltosos do mutirão. Os que vinham atrás tentavam se proteger tapando bocas, narizes e olhos, enquanto aumentavam vigorosamente o ritmo de seus passos em direção aos policiais.

O embate começara violento, porque nenhum dos jovens recuou. Pelo contrário, pareciam querer aquilo, pareciam querer o confronto. Uma confusão de socos, chutes, golpes de cassetete, pedaços de pau, de cano, e de toda uma sorte de ferro velho, lataria e pedaços de coisas quebradas foi se formando entre os revoltosos e os policiais. As pessoas de fora paravam e assistiam curiosas, sedentas por conseguir captar alguma nesga das lutas, loucas por conseguir enxergar qualquer ferimento grave, qualquer gota de sangue voando em direção ao solo. Malevolamente curiosos por qualquer massacre ou morte.

O jovem de olhos cinzentos desferiu um golpe na cabeça de um dos policiais, rachando-lhe o capacete e fazendo-o cambalear para a frente antes de se virar. O jovem então desviou do soco que lhe acertaria o rosto e deu uma joelhada poderosa no estômago do agressor. Este caiu no chão urrando de dor e cuspiu sangue. O revoltoso se aproveitou e entrou correndo em um dos pequenos prédios que havia ali por perto. O porteiro sequer percebeu sua presença, pois estava muito ocupado espionando a confusão na rua.

Subiu as escadas apressado, com o coração acelerado, as veias pulsando e pulando por baixo de sua pele, enquanto seus músculos retesavam-se cheios de energia. Parou no sétimo andar e foi até uma das portas. Antes de bater, aquietou-se por alguns segundos, abaixando-se um pouco e apoiando as mãos nos joelhos, enquanto sorvia longos goles de ar e tentava normalizar seus batimentos.

Então bateu três vezes na madeira envernizada com os punhos fechados, numa pressa incontrolável. Não houve resposta. Bateu novamente. E novamente. Gritou pelo amigo que ali morava. Berrou que o confronto já havia começado, que já era hora dele juntar-se aos outros colegas revoltosos na rua. Gritou que aquele dia faria história, que ficaria gravado nas memórias dos que participaram, que serviria de exemplo para ilustrar a ignorância faraônica da sociedade desprezível em que viviam, para ilustrar a intolerância estúpida que assolava a maioria dos idiotas manipulados que assistiam alheios à revolta. Como não houve nenhuma resposta de qualquer tipo, começou a ficar preocupado e tomou distância.

Em um único impulso jogou-se de lado contra a porta, arrombando-a e caindo violentamente no chão gelado. Machucou o ombro, mas nada que pudesse impedi-lo. Vasculhou a sala, a cozinha e os dois quartos do apartamento, gritando pelo nome do colega. Então foi até o banheiro. A porta estava encostada e a luz, acesa.

Girou a maçaneta devagar, e de repente tudo parecia em silêncio. Ignorava até mesmo os gritos que provinham das ruas, os tiros supostamente de borracha que sabia que vinham das armas dos policiais, a gritaria da multidão, as sirenes das ambulâncias que já estacionavam por perto… E então foi como se tivesse tomado um choque e suas retinas tornaram-se brancas de desespero. Ali estava seu amigo, e agora sabia porque ele não respondia a seus chamados. Seu corpo estava acomodado confortavelmente dentro de uma banheira vazia e reluzentemente limpa. Seu braço esquerdo pendia inerte para fora, com um grotesco e medonho corte no pulso, que pingava sangue. Era óbvio que estava morto, e que um grande volume de tecido sanguíneo já havia sido expulso de seu corpo pelo corte nos dois pulsos. A poça vermelha abaixo dos pés do jovem de olhos cinzas denunciava isso.

Sem forças, com os olhos marejados e a cabeça confusa, deixou-se cair sentado na poça sanguinolenta, sujando o jeans e as palmas das mãos.

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E então gritou. Com toda a potência que ainda lhe restava.

Mas sabia de tudo. Tinha plena consciência de que não poderia salvá-lo, mesmo que chegasse antes do suicídio. Sabia que não o impediria de fazer isso. Sabia que não arrancaria a lâmina de suas mãos, mas apenas assistiria ao espetáculo de horror. Compreendia que não possuía o direito de privar ninguém da morte. Não poderia interferir, não era dotado de poderes, tampouco era superior, e muito menos era alguém para julgar o que seria melhor. Dava-lhe certa razão no fim das contas… O mundo não é mesmo um lugar adorável… A revolta lá fora era prova disso. Ele era mais uma peça nesse exército de inconformados que realmente queria mudanças, realizações, autenticidade. E seu colega ali também era um desses. Mas lhe faltava algo, algo que rebelião nenhuma poderia lhe dar. Pensas que faltava-lhe alguém que o amasse? Engano. Muitos o amavam. E a maioria acha que isso basta para aguentar as atrocidades da realidade. Mas não, ele não se matou por isso…

Ele esvaiu-se em sangue não apenas porque ficara insuportável…

Mas porque não tinha a quem amar…

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Pequenas coisas que deveriam existir

Fevereiro 18, 2009 at 4:24 am (Uncategorized)

Nos ônibus:

1. Guarda-Volumes

E um que fosse BEM espaçoso e amplo, perfeito pro povão atulhar aquela sacolada toda que costuma entrar pelas portas dos ônibus escorando-se nos outros e arrastando alguns desavisados corredor afora. Porque você provavelmente já presenciou alguma cena do tipo… Algum infeliz entra no ônibus com 800 sacolas (seja de roupa, comida, eletrodomésticos, engradados de cerveja, velas de macumba, gaiolas de pássaros, mercadoria roubada, lotes de maconha, rolos de papel higiênico, bebês embalsamados, restos de uma nave alienígena colapsada, e por aí vai…). Esse ser inconveniente simplesmente esquece que existem pessoas à sua volta e que o espaço do veículo que ele acaba de entrar não é lá muito grande, então ele tranquilamente escolhe o caminho que se apresentar: senta ao lado de algum ser azarado e esmaga-o de encontro à janela ou quase o lança ao chão do corredor, ou fica em pé quase caindo em cima dos sortudos que estão sentados por perto enquanto a sacolada toda constitui uma barreira militar que bloqueia a passagem daqueles que precisam descer. Realmente, muito agradável. Melhor ainda quando as sacolas caem (devido à direção segura de um motorista nada nervoso) e seu conteúdo medonho espalha-se pelo ônibus inteiro. Frutas, legumes e afins são os melhores, porque saem quicando e rolando pelos pés dos outros. E o dono da bagulhada se desespera atrás dos produtos fugitivos, o que rende aos outros passageiros uma cômica cena de caça ao tomate perdido…

Alguém, por favor, providencie um guarda-volumes urgentemente!!!

2. Um Sistema de Renovação do Ar

E que liberasse, a intervalos de tempo regulares, algum aroma agradável. Porque vamos combinar que não é todo mundo que entra recém-saído do banho no ônibus. Aliás, muito pelo contrário. Normalmente a maioria dos passageiros são seres fedidos e suados que fazem questão de não esconder seu delicioso mal-cheiro, permanecendo em pé e levantando os braços para segurar-se ou sentando ao lado de pessoas cheirosas, talvez num impulso revolto inconsciente de deixá-las fedendo também (ou, na linguagem popular, irritá-las só de sacanagem).

Além desses caridosos socialistas aromáticos que acham que o fedor pertence a todos, ainda existem aqueles que não tem o mínimo pudor de exercitar suas manifestações naturais em público. É aquela história… ou sai por cima ou sai por baixo. Mas precisa ser justamente dentro de um veículo calorento e fedido entulhado de pessoas imprensadas umas nas outras? E não, não adianta arregaçar as janelas (a não ser que você ponha a cara pra fora, arriscando ter a cabeça violentamente arrancada por outro veículo ou esmagada por um poste). Incrivelmente o ar dentro de um ônibus parece ter abandonado a vida nômade de antigamente e resolveu se estabelecer por ali mesmo por tempo indeterminado. É um bafo fedorento, quente e extremamente agradável, não acha??? Quando o ônibus possui ar-condicionado então, melhor ainda! Porque ou você sai dali igual um frango congelado ou o ar simplesmente não gela porra nenhuma e tudo só piora devido às janelas fechadas. Ou seja, ou você se sente uma carcaça num frigorífico ou um camarão num espeto em uma daquelas churrasqueiras fechadas…

Alguém, por favor, providencie um sistema de renovação do ar urgentemente!!!

3. Assentos maiores

Porque nem todo mundo tem o mesmo padrão default de bunda. E é realmente MUITO desconfortável você ter apenas meio assento pra se acomodar porque existe um boto sentado ao seu lado. É quase a mesma situação do infeliz com 987 sacolas, que ocupam o espaço quase que dos dois bancos e vão subindo em cima de você, te escalando como insetos famintos. Mas dessa vez é apenas uma coxa que ocupa metade do seu banco mais a metade do outro, enquanto a outra coxa tem metade pendendo pra fora.

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OK, a situação é ruim para ambas as partes. Imagino como deve ser horrível e constrangedor sentar nesses bancos pequenos quando se tem um peso um tanto quanto elevado e seu volume corporal é o de uma baleia jubarte. Assim como deve ser imensamente desconfortável e quase impossível sentar-se de frente, já que a distância de um banco a outro não é muito grande. Então ou o ser acima do peso encolhe os joelhos e os imprensa contra o banco da frente correndo o risco de fraturar a rótula ou ele senta meio de lado e ocupa uma parte do corredor, tendo que executar manobras ninja pra desobstruir o caminho quando alguém quer passar…

E isso nos leva ao problema do corredor estreito também, um quarto item muito importante.

Tudo bem que o corredor não é nenhuma passarela de desfile e não precisa ser do tamanho de uma avenida, mas também não precisa ser que nem um cano. Sei que não adiantaria muito no caso de ônibus lotados (afinal, só aumentaria o número de passageiros que caberiam no veículo antes do oxigênio se esgotar). Mas facilitaria a vida daqueles personagens que comentei antes, e dos outros passageiros, que não teriam o caminho obstruído por um mamute.

Alguém, por favor, providencie assentos e corredores maiores urgentemente!!!

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Apenas uma pequena observação…

Fevereiro 5, 2009 at 2:22 am (Uncategorized)

Estava eu aqui na net de madruga hoje, (não vou dizer “como sempre” porque nessas férias eu tenho visto Simpsons na Fox depois da meia-noite hehe)… Quando resolvi atualizar (pela quinquagésima vez) a página inicial do meu Orkut, e eis que me deparo com mais uma daquelas sábias (???) “Sorte de hoje”…

Maaaaas… A de hoje extrapolou todos os limites…:

Sorte de hoje: Jogue com esses números na loteria: 5, 12, 39, 43, 62, 87

Dá pra acreditar que alguém é PAGO pra inventar essas coisas???? Oo

Ou pior… Dá pra acreditar que, com certeza, alguma alma infeliz nesse Brasilzão afora (porque hoje em dia TODO MUNDO tem Orkut, mesmo que não possua um computador, já que as Lan House não usaram camisinha e se proliferaram que nem coelho…) vai ler essa “Sorte…” (?) e apostar nela??

Eu realmente não sei o que é mais decadente… A Internet popular ou o desespero retardado humano (será?)  em acreditar na Internet popular…

Maldita inclusão digital…

Vida longa ao Orkut! =D

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