Dirrty Business – Parte II
Seria apenas querer recusar o ideal ascético e aderir ao dionísico… Ou era apenas uma desculpa esfarrapada baseada na psique moderna pra tentar explicar suas loucuras? Psique moderna? Eram pensamentos da metade do século XIX, sendo resgatados em pleno século XXI. O quanto dessa filosofia ocidental contribuía para seu hedonismo, ela não sabia. O fato era que sempre que abria os olhos pela manhã, enxergava um teto diferente… Mas é lindo, muito lindo… Todos eles eram. Tantos os tetos quanto os que dormiam ao seu lado. Só não se lembrava com quais deles havia conversado. Provavelmente o teto respondera suas divagações alucinadas, enquanto observava a cena libidinosa que se desenrolava abaixo de si.
Enquanto isso, Nataraja prosseguia dançando, destruindo e reconstruindo mundos… E que sua Sexta Grande Dança não se concretize tão cedo, ela pensava… Afinal, ainda tinha muito que desfrutar desse mundo desgraçado. Era divertido, cruelmente divertido. Pisar em civilizações inteiras, em milhares de anos de história, em centenas de religiões inventadas e esquecidas, em culturas dizimadas, populações incineradas, ciência descoberta e deformada, arte criada e censurada, a vida sendo negada e afirmada. O corpo proibido e castigado. Danem-se todos eles. Era hora de celebrar a vida, afirmá-la no presente, e não negá-la em nome de um “além-morte”. Cultivar seus desejos e realizá-los, e não denegri-los em prol de um ideal mentiroso e hipócrita.
Havia virado sua cruz de cabeça para baixo, e a mantivera assim, sob chamas escaldantes. Era divertido, cruelmente divertido.
Zombar deles, ah, zombar de suas vidinhas renegadas. Isso ela gostava demais. Interessava-lhe não somente as trocas de idéias durante a madrugada, mas a acusação livre e deliberada, o cuspir de sentenças mortíferas, venenosas, perfurantes.
Mas não, não queria que os outros concordassem a ponto se segui-la. Era inteiramente liberta, e queria todos os outros também assim fossem. Dancem por si só, e sangrem seus próprios rios e correntezas. Deliciem-se em seus desejos. Vamos brindar, amigos, à vida! Ouçam, pensem, construam, remoam essas palavras, mas nunca queiram elevar-me! E que o cristianismo nos declare guerra, pois somos como Dionísio, como Zaratustra, como os afirmadores da vida!
Chamam-nos sujos? Ah, pois que continuem a vociferar suas preces infundadas! É divertido, cruelmente divertido. Dançamos, festejamos, bebemos, celebramos, sem medo, vergonha, preconceito, e tampouco sem estarmos amarrados às teias da moral e dos bons costumes. Sem nos atermos às insanidades modernas desse aprisionamento anti-natural, sem nos preocuparmos com os olhares inquisidores dos nossos inimigos. E não os amamos, pois que criatura nesse mundo ama as mandíbulas ensangüentadas da fera que lhe arranca pedaços? Sinceridade, verdade e autenticidade… Tudo o que transbordamos.
Se nossas práticas lhe parecem estranhas, criminosas, manchadas, repugnantes ou mesmo ofensivas, feche seus olhos e volte engatinhando e choramingando para tua prisão. Ou se te sentes impelido a juntar-se a nós, porém possui medo e ainda mantém-se preso à sua sociedade carrasca, crie coragem e faça parte do nosso mundo, do nosso adorável e cruel universo. Adorável por seus prazeres, e cruel por suas verdades. Pois sabemos muito bem o quanto esse mundo é homicida, tóxico, devorado, fétido, parasitado e extremamente humano. Não negamos nossas verdades, não escondemos nossas vontades, são elas que nos movem. Não reduzimos nossos desejos a pecados ou sentimentos vergonhosos, não matamos nossa vida no presente para acreditar cegamente num ideal de além-vida completamente inócuo.
Somos dançarinos, somos libertos, e queremos sempre mais.
“Garota, pode falar um pouco mais baixo, por favor? Bebi demais ontem e estou tentando dormir…”
Ela saiu bruscamente de seus devaneios e virou o rosto para o homem que se acomodava a seu lado na cama. Discursara com o teto, sempre atento a suas idéias, sempre interessado em suas revoltas. Sentou-se na cama. Eram quatro horas da madrugada. Sentia cheiro de sexo. Estendeu o braço e buscou um copo de whiskey que repousava na cômoda. Bebeu o líquido enquanto acendia um cigarro. Encostou-se na parede e olhou para o teto.
E era lindo… Muito lindo…
“I’m trying hard
not to be ashamed
not to know the name
of who is waking up beside me
or the date, the season or the city
but at least the ceilings very pretty
and if you are holding it against me
I’ll be on my best behavior
taking shots for mother nature
once my fist is in the cupboard
love is never falling over”
The Dresden Dolls, “My Alcoholic Friends”
Pela Liberdade de Expressão, Criação e Divulgação do Conhecimento na Internet Brasileira
Leia o Manifesto e assine a Petição : http://www.petitiononline.com/veto2008/petition.html
Decadénce
Dia de prova de vestibular. Todos tensos e apreensivos, conferindo mil vezes se estão mesmo com os documentos, apertando com força o corpo transparente da caneta, como se quisessem ter a certeza de que ela está ali, segura entre seus dedos. Olhares aflitos para o relógio de pulso. Alguns retardatários correm desesperados rezando para que o portão ainda esteja aberto. Um grupo desafortunado dá de cara com as grades fechadas e trancadas. Gritam, imploram, choram. Mas não adianta, horário é horário, compromisso é compromisso, bem vindos à vida adulta!
Dentro da sala a atmosfera é pesada. Todos se olham pelos cantos, observam cautelosamente seus adversários, com curiosidade e receio. Poucos falam alguma coisa. Bolsas são arrumadas debaixo das carteiras, as vozes dos fiscais comandam as regras do jogo. O maço de provas é entregue. Silêncio absoluto e todos são engolidos pelas questões da avaliação. Ruminam mudos inúmeros cálculos, buscam dados históricos no fundo de suas memórias, e tentam conciliar o conhecimento atual com as questões maliciosas que lhes são apresentadas.
O barulho irritante de pacotes de biscoito sendo abertos percorre o ambiente. Juntam-se ao abrir de garrafas e ao tamborilar nervoso da caneta sobre o tampo da mesa. Alguém começa a tossir, e a ação espalha-se como epidemia pela sala, contagiando a todos. Uma sinfonia doentia interrompe o raciocínio dos mais concentrados, que lutam furiosos contra o desconforto da cadeira, que após o término da avaliação lhes renderá dores na coluna e no pescoço.
Fome, sono, dor, cansaço, irritação, calor, nervosismo.
Uma bela maneira de começar o domingo, não?
E tudo isso para que? Para depois sermos bombardeados com nossas obrigações e nossos deveres, para sermos fuzilados com o peso de nossas consciências, cárceres de um sistema educacional equivocado e mal formulado! Afinal, o que essas provas procuram mensurar? Nossa capacidade de memória e nossa resistência física? O que é isso? Algum treinamento militar para soldados memorizadores de dados fúteis? Todos preparados e alinhados em fila indiana, marchando para a guerra do mercado de trabalho, empunhando suas armas brilhantes. Robotizados. Mecanizados. Programados. Produzidos em uma fábrica, numa linha de montagem industrial, peça por peça, membro por membro, ignorância por ignorância.
E tudo isso já vem se arrastando desde muito antes…
Ou você realmente acha que o ensino fundamental e médio de nosso país é de qualidade? Não me refiro aos professores, ou às condições estruturais das escolas, não me refiro a nada disso, a nenhum desses problemas constantemente discutidos pela mídia. Refiro-me ao programa de disciplinas, e à maneira como as aulas são ministradas. O conteúdo especificado é deveras interessante, simplesmente por ser conhecimento! Mas falta uma abordagem diferenciada, olhares de ângulos distintos, e matérias mais integradoras e menos alienantes.
Pra começar, a disposição das carteiras em sala de aula deveria mudar. Chega desse modelinho cordeiro de filas. Façamos um círculo, com todos se olhando nos olhos. Organizemos uma Agora grega em nossas salas de aula! Mais dinamicidade, mais interação! Todo assunto é passível de discussão, de debate, de troca de idéias.
Incitemos o interesse pelo estudo desde cedo, e a fome de conhecimento será facilmente notada durante a adolescência, uma fome que deverá ser alimentada com um sistema de ensino que critica, que questiona, que debate, e não um sistema maçante que regurgita fórmulas, datas, acontecimentos controlados, frases feitas e sem efeito e faz com que todos transformem-se em máquinas subservientes.
Filosofia, sociologia, política, psicologia, economia, tudo isso mesclado aos já pragmáticos física, química, biologia e matemática. Arte sendo estudada, discutida, produzida, criada, desconstruída e reconstruída dentro da literatura e de todas as outras áreas do conhecimento. Assuntos atuais e de importância social sendo discutidos. Todos conscientes do mundo em que vivem, da realidade que os rodeia. Todos politizados. Chega de alunos alienados e cegos. Chega de alunos que sabem apenas memorizar e responder automaticamente a perguntas imbecis. Chega de alunos que NÃO PENSAM, mas apenas copiam e reproduzem, e cospem arrogantes sua falsa inteligência como se fossem superiores apenas pelas notas e pelo reconhecimento de professores igualmente inúteis.
Chega de mediocridade na educação!
Eu quero incentivo de verdade para nosso sistema educacional!
Quero alunos instigados a aprender, quero alunos não satisfeitos com o mundo, quero alunos irritados e cansados com a escola porque ela não oferece tudo aquilo que eles necessitam! Quero alunos que não se contentam com pouco, alunos que buscam sempre mais e mais conhecimento, mais arte, mais questionamento, mais mistérios a resolver, questões a responder e realidades a impressionar. Quero alunos engajados com a política, preocupados com a natureza, interessados em desbravar os recantos mais obscuros da mente humana. Quero alunos também cientistas, deliciados por pesquisar ávidos os encantos do mundo subatômico e a beleza fractal de células animais, a explosão magnífica de uma estrela no espaço e o desenvolvimento delicado de um feto no útero da mãe. Conhecimento direcionado para o bem.
Escolas como centros de inteligência, como centros de jovens brilhantes, sempre produzindo, criando, inovando, revolucionando.
Quantos sonhos…
Mas responda-me agora, se você conseguiu captar a idéia essencial dessa reforma utópica… Existe no mundo algum governo que se arriscaria a por o pescoço prestes a ser decepado por uma guilhotina?
Fica a idéia…
E idéias são imortais.
“We don’t have to be afraid to re-invent
We’ve got to start to build, progress, and implement
For when we take our pills, and never pay the price
We only build ourselves a fleeting, false paradise
You can live in staunch denial and mark me as your enemy
But I’m just a voice among the throng who want a brighter destiny”
- Bad Religion, “New America”
Obs.: Texto formulado e construído durante a prova da 1ª etapa da UFF, do dia 16 de Novembro de 2008. (Sim, eu fiz a prova e o texto ao mesmo tempo… Rsrsrsrss… Quando as idéias surgem, eu não deixo elas fugirem…)
Canibalismo Social
Olhe em volta. Além dos muros prisioneiros de sua casa, além das fronteiras incoerentes de sua nação, além das divisões virtuais desse nosso adorável mundo contemporâneo.
Tudo está em chamas.
Queima, arde, infla e explode, expelindo cinzas, ossos e línguas cortadas.
As feridas não-cicatrizantes que se alastram ferozes por sua pele borbulham incandescentes e misturam-se numa confusão nojenta e multicolorida, o vermelho do sangue com o caramelo do epitélio e o branco do pus, todos se englobando inquietos como o ferro derretido que transita no núcleo do planeta. Todos preparados para cuspir violentamente seus restos orgânicos através das fendas da crosta terrestre, da crosta das suas feridas, dos seus fracassos sociais, das suas frustrações psicológicas.
A espinha dorsal de sua estrutura entorta com o peso colossal que teus ombros carregam. E quebra, provocando um ruído irritante de migalhas ósseas sendo espatifadas umas contra as outras, músculo sendo repuxado, distendido, lesado, cortado, dilacerado. Rasgam-se. Arrebentam-se.
Teus pés castigados pisam esse solo árido. Sangram. Arrastam sua planta grossa e rachada pelo granulado arenoso que recobre a superfície. Inchados, arroxeados, inflamados. Pontas dos dedos enegrecidas por tecido necrosado, carne podre prestes a soltar-se e despencar, ficando pelo caminho e formando um tenebroso rastro de pedaços humanos. Futuro alimento suculento para abutres e outros carniceiros. Falta pouco para tua queda, mas tua persistência cega o leva aos extremos, com altas doses injetadas de uma morfina milagrosa, que o priva de toda a dor, que o isola de todo o sofrimento, que o mantém na ignorância deliciosa daqueles que não sentem seus membros serem arrancados bruscamente por mandíbulas e presas afiadas e famintas. Mas vivem bem, na alegria de uma existência inócua, desprovida de desejos genuínos e adornada com flores de plástico e fragrâncias baratas.
Teu peito infla cada vez mais intenso, quase a ponto de expulsar tuas costelas, tentando roubar o oxigênio, riqueza tão simples, tão maltratada e tão necessária. Tuas narinas abarrotam-se com a podridão da atmosfera homicida que flutua por entre as rodas sociais que você freqüenta. Tua boca fede cada vez que é aberta futilmente para desperdiçar palavras vazias e burras, em conversas idiotas com outros acorrentados terminais iguais a você. E viva a igualdade entre os homens. Todos iguaizinhos, arrumados em fileiras indianas, abraçados aos mesmos ideais ridículos, aos mesmos sonhos manipulados, aos mesmos desejos decepados, à mesma ganância infantil, à mesma falsa felicidade de uma mente que permanece para sempre em um vácuo constante de raciocínio, reflexão e questionamento. Todos iguais, presos às mesmas coleiras, com os mesmos pedaços de vidro enfiados nos olhos, as mesmas tripas arrancadas e usadas como linha para costurar tuas bocas, os mesmos movimentos programados, editados, executados, apagados, deletados, queimados.
Tudo está em chamas.
Queima, arde, infla e explode, expelindo cinzas, ossos e línguas cortadas.
E teu estômago se contrai de súbito, fazendo teu corpo fraco curvar-se repentinamente. O resto de comida parcialmente digerida é regurgitado, atravessa seu tubo digestivo e é lançado para fora num vômito amarelado e salpicado de sangue enegrecido. Tuas últimas forças se esvaecem como bruma, e você cai em cima do teu próprio fluído corporal, tropeçando nos nacos de dedo que você deixou pra trás, com todo o peso do mundo nas suas costas, comprimindo teu rosto contra o líquido pastoso espalhado no chão de pedras.
Uma criança se aproxima. Seu corpo é esquelético e preto. Seus olhos suplicantes gritam desesperados e seu andar é desajeitado como o de um filhote. Uma corja de abutres a segue, em um bando que mais se assemelha a uma quadrilha. Alguns ainda carregando resquícios de carne no bico, sedentos por mais. Ela se aproxima, passa o dedo no teu vômito e o leva à boca. Em seguida senta-se, com a pélvis exageradamente proeminente, e põe-se a comer. Gulosamente devora o que você cuspiu, engole teu sangue, mastiga tua carne podre, bebe teu vômito e delicia-se com tua expressão enojada. Então, com as unhas amareladas e quebradiças, começa a arrancar pedaços do teu rosto ainda vivo e pulsante.
Devora-te inteiro, pedacinho por pedacinho, cada veia entupida, cada quadrado de pele intoxicada, cada músculo irrigado por drogas, cada gota de gordura. Lambe teus ossos como um cachorro, exibindo os poucos dentes que ainda lhe restam na boca, enfiados tortos em sua gengiva arroxeada, que sangrava mais forte a cada mordida.
Tudo está em chamas.
Mas você não percebe. Nem mesmo sentiu teu organismo sendo consumido.
Preste atenção agora, olhe em volta.
Você já pode estar sendo devorado e ainda nem se deu conta…
“You’ve got the lot to burn
A shelve of pig smothered cries
Is there a spirit that spits
Upon the exit of signs
Is anybody there
These steps keep on growing long
Bayonet trials rust propellers await
No
Nobody is heard
Rowing sheep smiles for the dead”
Drunkship of Lanterns – The Mars Volta
“Dirrty Business”
Acordou suavemente, tremulando de frio devido ao cortante ar gelado que invadiu a fresta da janela e veio lamber seu rosto. Suas pálpebras lutaram contra o cansaço e a ressaca. O gosto forte do álcool permanecia em sua boca, assim como o calor dos lábios do homem deitado ao seu lado. Ele dormia um sono pesado, que parecia afundar o colchão e tornar o ar à sua volta um tanto quanto materializado, como se fosse possível arrancar-lhe pedaços, chumaços como os de um algodão doce.
Sentou-se. O lençol escorregou por sua pele alva e recolheu-se como um filhote. O corpo nu agora exposto e vulnerável era parcialmente iluminado pelo luar que despontava imperial no céu noturno. Seus cabelos negros e lisos caíam por sobre seus ombros em ondulações leves.
Sentia a cabeça doer. Sua mente era um turbilhão de emoções, lembranças e sentimentos de culpa. Ou talvez apenas sentimentos de arrependimento. Um forte arrependimento de não ter feito tudo antes, mas somente na última noite. Por que deixara seus julgamentos pré-formulados e seus conceitos prostituídos de moral levá-la para longe de seus desejos? Por que não acordara antes desse pesadelo? Gostara do que acontecera. Aquele homem ao seu lado, cujo nome desconhecia, havia lhe proporcionado uma noite maravilhosa, infinitamente melhor do que o sexo mecânico e sem sal que desfrutava com o marido, quando tinha que fingir orgasmos e fazer o papel de uma atriz pornô de quinta categoria apenas para satisfazer o homem que a levara ao altar. De qualquer forma, não havia amor, havia apenas uma troca de interesses financeiros naquele matrimônio. O sexo deveria mesmo ter sido negociado anteriormente. Ou pelo menos deveriam manter um relacionamento aberto. Ou… Pensando melhor… Era muito mais divertido enganá-lo pelas costas. Mentir e tirar a roupa ao mesmo tempo? O que mais uma garota como ela poderia querer?
Levantou-se para servir-se de um copo de vodka.
Seus pés descalços pisaram o tapete de pele sintética. Enquanto enchia a taça com o líquido transparente, sentiu mãos delicadas tocarem sua cintura, e lábios aveludados beijaram-lhe a nuca. Arrepiou-se ao toque dela, e sentiu o corpo aquecer tanto pela bebida quanto pelas carícias.
A segunda mulher naquele quarto também era uma desconhecida. Os três não sabiam nomes, endereços ou idades. Mas compartilharam segredos, desgraças, mágoas e fantasias quando se encontraram de madrugada, numa boate de clima decadente. Embebidos pela tristeza, esbaldaram-se de cigarros e bebidas, confessaram seus crimes íntimos, seus fetiches, suas traições, suas melancolias. Desfiaram um longo tecido de depressão, marcado por uma vida aparentemente comum, mas interiormente sufocante. Mesclaram seus vazios em um único momento.
“Vamos nos perder…”
E que dia, mês ou hora eram, ah, era pedir demais. Tudo que haviam consumido entre drogas lícitas e ilícitas? Também era um pergunta ingênua. Nada mais interessava além do sexo que compartilharam, em um ménage a trois camuflado por intrigas resguardadas, vontade de vingança, fetiches carregados desde a adolescência, e principalmente uma raiva desesperada e incontrolável, louca para ferir o mais profundamente possível o ego de todos aqueles que haviam causado dor e sofrimento em suas vidas.
Ela se entregava novamente agora àquela que fora sua primeira mulher. O homem permanecia desmaiado na cama, expondo seu tórax ainda molhado pelo suor.
A música da boate era ruim, o álcool descera ardendo, a fumaça queimara-lhe os olhos, e as lágrimas sangrentas desceram por seu rosto e escorreram por suas bochechas avermelhadas. Agora o quarto era silencioso e exalava apenas o cheiro da luxúria. O calor dos corpos combatia o frio que se espalhava como névoa rasteira.
Mais tarde chegaria em casa e encontraria o marido ensandecido, com os olhos vermelhos de cólera e pronto para bater-lhe na cara, como já fizera antes. Eles discutiriam, ele a acusaria de traição e ela negaria veementemente, dizendo que estava na casa de alguma amiga. As lembranças do sexo ardente voltariam à sua mente e confundiriam suas respostas por alguns segundos, mas algo imperceptível para o homem enraivecido que estaria à sua frente, cego, surdo e mudo pelo ódio. O sentimento de possessão dele não o deixaria em paz. Só de pensar que outro ou outra poderia ter tocado, beijado, penetrado, acariciado e feito sei lá mais o quê com sua mulher o levaria à loucura. Mas afinal, a monogamia é mesmo um mito, não?
Ela então iria deitar-se. Ele tentaria persuadi-la, mas ela, esgotada, resistira e inventaria uma desculpa de última hora. A traição, a mentira, as drogas, o sexo a três, tudo isso a excitava, e ela lembraria nos sonhos de tudo que acontecera. Das lágrimas, dos desabafos, dos amigos alcoólatras, da liberdade…
Se ela se arrepende? Somente daquilo que ela ainda não fez!
Se ela lamenta?
“Non, rien de rien, non je ne regrette rien… Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal, tout ça m’est bien égal..” ela diria… no melhor clima depressivo de um amor impossível, rodeada de cigarros acabados e copos pela metade, com uma pesada maquiagem borrada na cara, um salto alto devorando seus pés após uma noite selvagem e a lingerie preta rasgada, impregnada pelos perfumes de seus muitos homens e mulheres, abrigando seu corpo tantas vezes beijado e tomado pelo doce veneno artificial da casualidade suicida…
“To all the ones who thought they knew me best a test to prove your prowess
Who was mine in ‘99? I want last names and current status
To all the ones who hated me the most a toast you really had me going for second I was nervous, boy am I the poster girl
for some suburban sickness? Better keep a healthy distance
Now its up to you know what to do its pretty Dirty business“






