Agonizante
Discursava. Bêbado, fedorento, maltrapilho. Suas mãos assemelhavam-se ao tronco de alguma árvore centenária, enrugada pelo tempo, com veios que deslizavam sulcos profundos, confundindo-se com os buracos abertos pelos insetos que ali depositavam suas larvas ou sugavam sua comida. Insetos da labuta, larvas da ignorância, necro-alimento depositado através de anos e anos de uma existência vazia, tal quais as camadas geológicas de algum sítio arqueológico abandonado e entregue às suas próprias ruínas.
Sua boca de lábios murchos e rachados rodeavam dentes amarelados pela nicotina e abrigavam uma ferina língua grossa e áspera, embebida em uma saliva espessa que misturava álcool e catarro. As palavras saíam entrecortadas pela embriaguez e mutiladas pelos repentinos soluços, vindos dos recantos mais profundos de seus pulmões, cuspindo seus morcegos ensangüentados.
Seu orgulho adornado por ouro e diamantes ofuscava seu raciocínio. O copo de cerveja quente aos poucos parecia fundir-se à palma de sua mão. O líquido balançava turbulento conforme a agitação de seu interlocutor atingia níveis extremos. Seus cabelos bagunçados espalhavam-se esparsos e esbranquiçados por sua cabeça. Seus olhos pareciam saltar das órbitas, porém exibiam uma face cansada, derrotada e arrependida. Uma faixa arroxeada estendia-se abaixo de seus olhos, delineando-os numa eterna expressão cadavérica.
Discursava.
O bar inteiro parecia imerso numa atmosfera inercial. Inebriados pela fumaça dos cigarros e cachimbos, homens ébrios discutiam desanimados os mais diversos assuntos. Prosas inúteis e fúteis, recheadas de mentiras mal elaboradas, machismo exacerbado, feitos incríveis e xingamentos criativos.
Somente o homem das mãos de casca de árvore levantava sua voz energicamente. Tentava parecer convincente, pelo menos para os outros, já que mentia para si mesmo há mais de 80 longos anos. Enganara-se todo esse tempo, e agora fingia não saber que sofria com a solidão, o esquecimento, a amargura, e a falta de sentido que sua vida tinha tomado. Criticava fervorosamente as atitudes de seus netos, jovens românticos que aproveitavam ao máximo tudo que lhes era oferecido, sem o medo de ir de um extremo ao outro apenas em busca de seus prazeres. Criticava, condenava, maldizia. Hipocritamente, agia como se fosse o dono da verdade e discursava. Para todos e para ninguém. Ébrio ou sóbrio. Gabava-se de seu passado. Trabalhara feito um escravo, renunciara aos seus desejos mais intensos, obedecera àqueles que estavam ao seu redor, agradara a qualquer um de quem se poderia tirar proveito depois. Vencera na vida, acumulara dinheiro suficiente para mais vinte encarnações, casara, tivera filhos e netos, acreditara em Deus por comodidade, seguira as regras que lhe foram impostas como um cachorrinho adestrado, rendera-se à sexualidade castrada que lhe fora ensinada pela falsa moral da sociedade, tapara seus olhos para as questões sócio-políticas que corroíam carnívoras o mundo ao seu redor.
Agora insistia em cuspir seu desprezo. Gritava por dentro até perder totalmente a voz. Enlouquecia, queria correr, fugir, matar-se. Mas prosseguia com seus discursos moralistas, retrógrados, preconceituosos, tradicionalistas, religiosos. Continuava em seu caminho de labaredas infinitas, e o fogo queimava-lhe ferozmente a pele, arrancando-a junto com nacos de carne e expondo seus músculos ensangüentados…
O copo de cerveja foi lançado ao chão, e antes que os convivas pudessem desviar seus olhares, o velho já saíra correndo porta afora. Seus passos trôpegos o levaram até o meio da rua, onde, ofuscado pelos faróis, surdo pelas buzinas e pelo som alto das televisões, mudo pelo terror e paralisado pela idiotice, teve seu frágil e desprezível corpo atingido por um caminhão. O som de seus ossos esmigalhados contra o asfalto marcou a sinfonia macabra de sua morte.
Suicidara-se.
A única atitude realmente sincera que fizera em toda sua insignificante existência.
A Embriaguez das Asas Caídas
É praticamente impossível fugir a um ataque elétrico, quando todo o plano é feito de metal… Crie asas, pequeno mamífero… Nosso tempo é limitado. Não seremos nós que permaneceremos atados a estacas de madeira apodrecida. Não há razão para continuar ao lado dos lobos descarnadamente infectados, quando o uivo mais forte vem da alcatéia vizinha. Partiremos em direção à corda bamba que conecta os imensos palcos de Shiva. Acomodados em meio a cadáveres e filhotes de coelho, assistiremos de olhos tampados à precipitação da Sexta Grande Dança de Nataraja.
Sejamos nós dispensáveis ou não, sejamos nós mamíferos insignificantes ou não, não são nossos os braços e mãos que sustentam a balança que pesa o coração e a pena de Maat. Mas são nossas as almas que, por mero infortúnio, serão destroçadas e ferozmente consumidas pelas presas de Babaí. E mesmo o sangue de mil homens não será suficiente para lavar a nódoa permanente que se alastrou em nossa carne. Porém, antes de sermos mandados à presença de Osíris, desfrutemos de nossas virtudes humanas, e apreciemos o espetáculo da destruição e reconstrução. Usando a lâmina sutil da mudança, e a espada vigorosa da luta, partiremos em direção aos picos rochosos do Olimpo, para depois, descer ao Hades, e de um extremo a outro, saborearemos o fortalecimento de nossa mente e corpo. Preparados para jogar-se no campo de batalha, quebraremos nossas correntes, arrancaremos nossas vendas, e pularemos na toca do coelho.
Uma vez dentro da toca, deve-se acostumar com a ausência de fogo alto, pois quem domina ali não é Chantico, e sim, Quetzalcóatl. Em meio aos tabuleiros e às peças de xadrez, combateremos o fogo ofuscante ao lado da serpente emplumada. E mesmo que nossas penas fiquem chamuscadas, saberemos que cada suor e sangue terão valido a pena.
O plano de metal, porém, escorrerá para dentro da toca, como líquido travesso, e inundará as planícies, tomará os lagos, e misturar-se-á ao oceano. O choque elétrico acompanhará a secreção metálica, atingindo os mais frágeis. Os que sobreviverem tornar-se-ão heróis lendários, cujas lendas serão contadas por séculos e séculos nas futuras megalópoles decadentes. Chantico invadirá a toca do coelho, tentando puxar-nos para fora. O fogo se juntará ao metal. Unidos, eles tentarão nos abater.
É praticamente impossível fugir a um ataque elétrico, quando todo o plano é feito de metal… Crie asas, pequeno mamífero… Crie asas…





