Palavrômetro de 2011

Resolvi mensurar o quanto eu produzi em 2011. Eis o que eu apurei nos meus arquivos:

Em se tratando de ficção, escrevi 78.234 palavras, entre 12  contos e 3 noveletas, fora os fragmentos inacabados de outras histórias e um punhado de romances rascunhados. A maioria dos textos concluídos já foi publicada em 2011. Alguns sairão esse ano, incluindo meu livro de contos.

Em se tratando de não-ficção, comecei em Outubro o blog Resenhando Capas, que já conta com 21 posts, dos quais 8 são resenhas. Escrevendo trabalhos pra faculdade, foram modestas 13.179 palavras. (É, na Escola de Artes a gente também escreve, não fica só desenhando o dia inteiro, não, galero).

Agora em 2012 eu começo a escrever pra revista online de arte e cultura obvious.

Em produção plástica, foram muitos desenhos e pinturas espalhados em diferentes suportes. Amadureci alguns aspectos do meu traço e comecei a achar meu estilo.

Que 2012 venha com mais universos criados no teclado, no lápis e no pincel!

Arte de Morgana Memphis e Amadahy

As personagens Morgana Memphis e Amadahy apareceram pela primeira vez no conto “Morgana Memphis Contra a Irmandade Gravibranâmica”, publicado no Volume Vermelho d’A Fantástica Literatura Queer, da Tarja Editorial.

Gostei tanto do que escrevi que antes mesmo de terminar aquela história, já pensava em escrever outras no mesmo universo. Ano que vem sai um pequeno conto  introspectivo no livro VII Demônios – Luxúria, da Editora Estronho, que narra um encontro inesperado e ambivalente da Morgana Memphis com uma ex-namorada que era baterista na sua antiga banda.

Os planos para a personagem são ambiciosos, não incluem apenas contos, mas romances (aham, no plural) e quadrinhos. Só que pra isso eu precisava, antes de qualquer coisa, criar a “cara” das personagens. O resultado primordial vocês conferem abaixo (:

Primeiro a protagonista-mor, Morgana Memphis.

Algo que eu ainda não revelei em nenhuma história, mas que será explicado em trabalhos futuros, é que a Morgana possui ascendência árabe. (Aliás, Morgana Memphis é seu nome artístico. O nome verdadeiro? Esperem as próximas aventuras pra saber.) Devido a isso, queria que os traços do rosto dela fossem grandes, arredondados. Lábios cheios, nariz redondo, sobrancelhas grossas. E cabelo ondulado e cheio. Os traços são sutis, obviamente, não dá pra reproduzir as feições típicas de um povo multicultural sem cair nos clichés. A inspiração principal partiu das feições de uma atriz chamada Lisa Ray, parte polonesa e parte indiana. E qualquer semelhança com a Ragged Robin, de The Invisibles, não é mera coincidência.

Mas por que ascendência árabe? Eu quero muito trabalhar a Questão Palestina (e o tanto de assunto que isso engloba). Mas de uma maneira diferente dos trabalhos que já existem por aí. Quero tratar disso no universo weird da Morgana, com o jeitinho anarcofeminista dela.

E agora, a meio-índia cherokee Amadahy:

Provavelmente quem leu a história lembra que a Amadahy é descrita como possuindo tatuagens tribais pelo corpo. Não voltei atrás nisso, ela continua com as tatuagens, mas eu ainda estou experimentando os símbolos, por isso não desenhei as tattoos nessa ilustração. Não quero que seja algo ao acaso, quero algo que se relacione com o passado da personagem.

Os traços da personagem são mais retos e quadradões que os da Morgana. Ela é mais magrinha também. Nariz fino, um pouquinho arrebitado, e lábios pequenos.

Amadahy é uma humana metade de ascendência cherokee e metade reconstruída a partir de engenharia biotemporal. O que infernos isso significa? Calma, calma, tudo será explicado a seu tempo. Mas ela é uma meio-cherokee atípica. O enorme cocar que ela tanto gosta não costumava ser usado pelos cherokees, que preferiam adereços mais parecidos com os moicanos. (Futuramente ela vai mudar pra esse look mais agressivo). E o povo cherokee também não andava seminu por aí. Mas vamos combinar que se hoje em dia o calor já é venusiano, calculem a bolha de magma que vai ser no futuro.

Bem, por enquanto é isso. Espero que tenham gostado das ilustrações.

No Metanfetaedro, meu livro de contos (new) weird que vai ser lançado ano que vem pela Tarja, terá mais uma história da Morgana pra vocês se divertirem.

Até lá!

Meu eletroencefalograma é uma pintura de Pollock

Nós duas sentadas no chão do segundo andar. O teto do atelier lá no alto, listrado de céu. Final da aula mais lúdica que já provei. Desenhávamos. Apenas o ruído do grafite rabiscando o papel. Pernas à mostra.

Paz.

Cheiro de misturas de tinta gotejando nos cavaletes lá embaixo.

E um senso quase tangível de possibilidade.

Contemplafantasiação.

Neologizando sem concretizar. Mas incitando. Experiência estética. Pra lá de Platão, Aristóteles, Kant, Hegel e Maurice Blanchot.

A palavra nasceu do encontro da minha percepção fantasiada com seu corpo. Depois eu roubei e usei sem pedir licença. A palavra, não seu corpo. Diluí o significado primordial, que se dissolveu e evaporou.

Criações tem desses caprichos. Desenvolvem-se sozinhas. Uma vez descarnadas do artista, entregam-se aos subjetivismos do observador.

Teorias.

Prefiro a transfiguração.

E a problemática insolúvel da inquietação de meu expressionismo abstrato mental.

Dia da Consciência Negra – Preconceitos velados

“Não há nada mais doloroso para mim nesta fase de minha vida do que caminhar pela rua, ouvir passos e começar a pensar em um possível assalto; depois olhar à volta, ver uma pessoa branca e me sentir aliviado”. A frase é de Jesse Jackson, um ativista político americano. Lembro de ter lido isso numa matéria da Mente & Cérebro (Ano XVI, nº 196) sobre preconceitos velados, aquelas convicções automáticas resultado de associações que nosso cérebro faz baseado em estereótipos históricos e sociais. Quem não possui um preconceitozinho involuntário sequer que atire a primeira pedra de crack.

A matéria da revista diz que “estudos mostram que certos cenários sociais podem ativar estereótipos e atitudes implícitas que influenciam nossas percepções, juízos e comportamentos, como a escolha de amigos, a contratação de empregados e, no caso de profissionais da saúde, como médicos ou psicólogos, o tratamento a ser dispensado“.

Enquanto todo mundo discute o preconceito aberto e explícito, o racismo violento e covarde, vejo poucas pessoas discutindo essa outra forma de preconceito, tão perigosa quanto. É nesse limiar confuso e cheio de camadas que se encontram os que não querem ser preconceituosos e lutam contra as crenças implícitas em sua bagagem cultural e educacional, e aqueles que não se dizem preconceituosos, mas perpetuam ideias preconceituosas. O famoso é viado, mas é meu amigo. Ou é preto, mas é honesto.

Se a pobreza no Brasil tem cor (e também gênero, idade e localização geográfica), a culpa é da cor? Há quem acredite que sim. É o mesmo tipo de pensamento que associa a falta de mulheres no campo científico não por motivos históricos e culturais que excluíam (e ainda excluem) o gênero feminino de uma área considerada masculina, mas pelo simples fato delas serem mulheres! O pensamento de que mulheres são intelectualmente inferiores aos homens. A mesma lógica infundada que rege o pensamento de que negros são naturalmente violentos e criminosos.

Todos esses estereótipos contribuem para o fortalecimento do preconceito velado, e pequenas atitudes que podem parecer inofensivas, como piadas e comentários ofensivos, só fazem engrossar essas crenças. Imaginem como deve ser para uma criança negra. Já não basta a menina ser bombardeada pela mídia com a ideia de que o cabelo dela é ruim e que o certo é ser uma mulher branca magra-quase-esquelética de olhos claros e cabelo loiro-ultra-liso, sem voz e sem opinião, submissa e sexualmente conservadora, sem poder ou controle sobre o próprio corpo ou a própria vida, a criança ainda é obrigada a ouvir piadas racistas no colégio e se não rir junto dos coleguinhas ainda é deixada de lado e tachada de sem senso de humor. (Opa, ouvi alguém gritando patrulha ideológica e polícia do politicamente correto aí?).

Já evitou sentar-se ao lado de um negro num ônibus ou metrô porque preferiu sentar-se ao lado de um branco? Já atravessou a rua de noite porque viu alguém suspeito se aproximando, e esse alguém era negro? Já se espantou ao ver um gari branco? Já parou pra pensar por que quase ninguém quer adotar crianças negras? Já xingou alguém de “preto” e “crioulo”, mas nunca de “branco”? Negro pra você, se não for pobre e bandido é sinônimo de malandro, mulata e futebol?

Questione-se.

Desconstrua.

Deixo um vídeo do grupo musical Chicas interpretando Sorriso nos Lábios, música genial de Gonzaguinha:

 

Resenha de “Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário”, da Tarja Editorial

O livro “Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário” foi lançado pela Tarja Editorial em 2009 e reuniu uma excelente trupe de escritores. Como a obra já foi resenhada por vários blogueiros interwebz afora, minha resenha vai ser um pouquinho diferente do comum. Aquele típico resuminho explicativo sobre o conteúdo de cada história que vem antes das opiniões/críticas de cada resenhista não vai aparecer aqui. Se você tá chegando agora meio perdido nesse estranho mundo chamado fandom e não conhece nenhum dos contos desse livro (shame on you!), vai dar uma googlada por aí e se inteirar.

Vamos começar pela capa, de Marcelo Tonidandel e Verena Peres. (Como já farei a resenha dos contos aqui, a resenha da capa vai ser bem breve e objetiva e não vai pro Resenhando Capas. Mas depois dá um pulinho lá e se inscreva pra receber as atualizações.)

Começando pelas cores. O clássico café envelhecido oscilando entre tons de amarelo e marrom caiu bem. Cheira a antiguidade sem soar precário. O fundo manchado é bonito, porém a textura rugosa que aparece no topo e na base poderia ter sido mais bem trabalhada (ou até mesmo eliminada por outros padrões de mancha. Um papel enrugado seria mais adequado). O mesmo vale para a arte do título. As cores estão fortes e funcionam, mas a iluminação falhou. A máquina em destaque no canto inferior esquerda é o ponto alto. A nitidez detalhada do desenho em sépia escuro acinzentado formou uma combinação que poderia ter sido aproveitada para outras ilustrações, ou numa única ilustração central e mais detalhada ainda. É minha parte favorita da capa. Os três personagens no centro possuem traços suaves demais, como se alguém tivesse exagerado no esfuminho. O sombreamento parece desfocado. Faltou dureza. O dirigível no topo está bem feito e bem posicionado. No conjunto a capa funciona e vende o que promete, mas os detalhes mencionados poderiam ter sido melhor trabalhados.

Agora vamos aos contos. Vou seguir a ordem que as histórias aparecem no livro, e dizer o que mais me chamou a atenção em cada uma.

A primeira história é “O Assalto ao Trem Pagador”, do autor e organizador da coletânea Gianpaolo Celli. As descrições são detalhadas sem pecarem pelo excesso, o que é difícil de se alcançar num gênero tão visual e fashionista. Aliás, lembro da Lidia Zuin comentando no Twitter esses dias sobre o steampunk ter se afastado da literatura pra virar uma exposição de bugigangas. Concordo. Porém, nesse conto (e em toda a coletânea), vemos o que é o steam bem aproveitado na literatura. Diálogos muito bem construídos, que a mim pareceram o mais importante nessa narrativa e até ofuscaram a cena de ação retratando um conflito armado. O final da história é tão carismático quanto os protagonistas.

O segundo conto do livro é de autoria de Fábio Fernandes. “Uma Breve História da Maquinidade” varre anos históricos e gerações com um ritmo na medida certa. O clássico desenvolvimento de uma tecnologia e suas implicações na sociedade aqui foram levados a outro patamar. Autômatos que se rebelam são muito mais interessantes que autômatos subservientes. E que delícia a parte onde as máquinas se juntam aos operários franceses na Comuna de Paris, pedindo igualdade de direitos, e se autodenominam Maquinidade. O final da história é agitado e revela uma ótima surpresa. Mais alguém acha que esse conto merece ser estendido, adaptado num roteiro e transformado em HQ?

O próximo conto é “A Flor do Estrume”, de Antonio Luiz M. C. Costa. O que salta aos olhos aqui é quase que uma questão estética. Linguagem indígena e muitos matizes de cores de pele e etnias. É bom se deparar com essa diversidade num gênero que, em sua maioria, se enclausura na Europa. As referências são interessantes também. Brás Cubas e Quincas Borba dão o ar da graça. E essa personagem doutora Chel que eu sempre leio doutora Cher, gente? Sofro de dislexia queer, só pode… Gostei de como a ciência é retratada, instigante, ambivalente, humanista e louca por dinheiro. E falando em dinheiro, o final é divertidíssimo graças ao desespero do protagonista ao ver sua futura fortuna indo embora. Mas ele resolve a situação. Muito bem resolvida.

Depois vem “A Música das Estrelas”, de Alexandre Lancaster, e a primeira coisa que você precisa saber sobre o conto é: pré-adolescentes inteligentes, espertos, sacanas e maliciosos. Sem falar numa simples, porém divertida, exploração de física e biologia básicas. Com direito a uma armadura robusta a la homem de ferro. A história começa meio fraca, mas depois que deslancha, só vai melhorando e melhorando. Curti bastante o resultado.

Roberto de Sousa Causo participa da coletânea com o conto “O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire. A história é muito bem escrita. A trama foi bem arquitetada e não deixa furos. A linguagem é excelente, mas no conjunto total, a narrativa me pareceu cansativa. Pode ser gosto pessoal. Militares me dão sono. O personagem que dá vida a Santos Dumont, porém, me cativou bastante.

Em seguida vem “O Dobrão de Prata”, de Claudio Villa. Essa história puxa para o terror de maneira muito bem feita. E tem escafandros! Adoro escafandros! A narrativa é fluida. Parece que você tá numa taverna, bebendo uma caneca de qualquer coisa barata e ouvindo um velho lobo do mar meio bêbado contando suas histórias. Lendas de maldição envolvendo tesouros são sempre instigantes. E quem mais quando leu Insmouth pensou “Cthulhu!” dá aqui um high five!

O próximo é o meu preferido da coletânea, “Uma vida possível atrás das barricadas”, de Jacques Barcia. E puxo a sardinha pro meu gênero favorito mesmo. Weird! Um casal formado por uma golem e um autômato, o quão inusitado e maravilhoso isso consegue ser? A história é envolvente e tem toda a textura sinestésica que o weird deve ter. A beleza decadente da cidade-máquina é revolucionária sem parecer caricata. E que ótima a passagem em que a golem precisa dar corda no marido autômato, lubrificando as engrenagens com manteiga ou banha de porco! Também é incrível o engenhoso experimento para fazer com que o casal possa ter um filho. Agora vou fazer um apelo público: JACQUES BARCIA Y U NO ESCREVENDO E PUBLICANDO WEIRD EM BOM E VELHO PORTUGUÊS?

Em seguida vem o conto “Cidade Phantástica”, de Romeu Martins, que prova que Niterói só consegue ser um lugar interessante quando retratada numa ficção. João Fumaça é um dos melhores personagens do livro. Btw, o nome simples, objetivo e bem brasileiro é perfeito. (Também não dá pra esquecer a fofura daquele boneco do personagem que foi sorteado uns tempos atrás no blog do Romeu, de mesmo nome desse conto). Aqui, assim como no conto do Gian, os diálogos se destacam. E devo dizer que as palavras, expressões e pequenas frases em inglês foram cuidadosamente encaixadas sem que soasse pedante ou supérfluo. Mas como eu adoro um desastre, fico imaginando a dimensão dos danos que a arma (mais perigosa do mundo) teria causado se nosso herói João Fumaça não tivesse impedido…

O último conto é de Flávio Medeiros. “Por um Fio” não poderia ter um título mais adequado. A narrativa é intimista e histórica, ao mesmo tempo em que se sustenta por uma tensão militar que deixa a gente grudado até o desfecho. Fechou a coletânea de forma magistral.

Dados Técnicos:   
Autoria: Vários Autores – Org. Gianpaolo Celli
ISBN: 978-85-61541-14-9
Páginas: 184
Formato: 14x21cm
Ano: 2009

A obra na Tarja Livros.

International Noise em Sydney e minha humilde participação

O International Noise é um grupo de artistas, com base em Sydney, que em colaboração local e internacional se utilizam de táticas de guerilla para trazer arte ao grande público.

Esse ano o International Noise Artist Run foi convidado a exibir no Verge Festival da Universidade de Sydney. A base utilizada foi um contêiner posicionado na Avenida Eastern, no campus. Uma chamada para submissão de trabalhos atraiu obras do mundo inteiro, para uma exibição de rua num novo estilo, para uma nova audiência.

Cada centímetro de espaço no exterior do contêiner foi coberto com fotocópias em A3 dos trabalhos submetidos, numa maravilhosa cacofonia visual, de cima a baixo, frente e reverso, em cada superfície possível. O resultado final se assemelha aos muros de uma cidade com camadas e camadas de posters, mas que dessa vez eram camadas e camadas de arte das mais diversas vertentes.

Em contraste com essa anarquia visual num primeiro espanto, um grupo cuidadosamente seleto de imagens foi instalado dentro do contêiner, em tamanho A1, numa exibição mais formal. A divisão do espaço com visuais tão contrastantes camuflou o contêiner num caos e beleza peculiares.

Nomes dos artistas participantes. Olha eu ali em Sydney, mãe!

Particularmente, eu adoro o resultado de trabalhos em fotocópia. O preto-e-branco unido à película marginal que a fotocópia empresta transforma o desenho, pintura, colagem ou fotografia não apenas numa representação bidimensional, mas num grito de rua. Sem falar que é barato, popular, acessível. Foge do ranço acadêmico das galerias, do cubo branco estéril, que tanto afasta e intimida as pessoas. Nada mais subversivo e delicioso do que você andar pela calçada e tropeçar numa obra de arte.

Eu participei com esses dois trabalhos:

Aproximadamente 150 trabalhos foram submetidos, de várias partes do mundo, incluindo Brasil e Estados Unidos.

Onde está Wall-E? Quem conseguir achar meus trabalhos ganha uma bala de tamarindo.

Para mais fotos, clique aqui.

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